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ENARE R+ CIRURGIA
Perì Polypódon — tratado dos pólipos colorretais

Tratado ilustrado · cirurgia colorretal

Perì Polypódon

Sobre os pólipos do intestino grosso: linhagem, profundidade e julgamento

Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τέχνη μακρή — a vida é breve, a arte é longa. Hipócrates, Aforismos, I.1
Α

A linhagem dos pólipos

Toda questão sobre pólipo nasce de uma pergunta só: essa lesão tem potencial maligno ou não? A resposta divide a espécie em duas linhagens, e cada linhagem se divide em casas.

Estema dos pólipos colorretais Árvore que separa os pólipos colorretais em duas linhagens: sem potencial maligno (hiperplásico, inflamatório, hamartomatoso) e com potencial maligno (adenoma convencional, lesão serrilhada séssil, adenoma serrilhado tradicional). Pólipo colorretal Sem potencial maligno Com potencial maligno Hiperplásico reto e sigmoide, < 5 mm Inflamatório pseudopólipo da colite Hamartomatoso risco vem da síndrome Adenoma convencional via APC, cólon esquerdo Lesão serrilhada séssil via BRAF, cólon direito Adenoma serrilhado tradicional raro, displasia obrigatória
Prancha Α — as duas linhagens. À esquerda, o que não vira câncer; à direita, o que vira, e por qual estrada.

As duas estradas da direita têm temperamentos opostos. A via clássica — APC, depois KRAS, depois p53 — é lenta, leva de dez a quinze anos, produz pólipos elevados e habita o cólon esquerdo; foi para ela que o rastreio decenal foi desenhado. A via serrilhada — BRAF, metilação de ilhas CpG, instabilidade de microssatélites — é rápida, produz lesões planas, pálidas e cobertas de muco no cólon direito, e responde pela maior parte dos cânceres de intervalo, aqueles que surgem entre duas colonoscopias aparentemente limpas.

A regra de três do adenoma avançado

Tamanho ≥ 10 mm, componente viloso, ou displasia de alto grau. Um só dos três já basta para chamar a lesão de adenoma avançado — e isso muda a vigilância para três anos e dispara o rastreio dos familiares de primeiro grau. O que não muda: adenoma avançado continua sendo adenoma, e nenhum dos três critérios indica cirurgia.

Β

A fronteira e a escavação

Abaixo do epitélio corre uma lâmina fina de músculo, a muscular da mucosa, e ela é a fronteira biológica de todo o tema: acima dela não existe vaso linfático no cólon. Enquanto o carcinoma permanece acima, ele é intramucoso — Tis — com risco de metástase linfonodal essencialmente nulo, e a polipectomia completa encerra o assunto. Displasia de alto grau, carcinoma in situ e carcinoma intramucoso são o mesmo achado sob três nomes, e nenhum deles indica colectomia.

Rompida a fronteira, o tumor entra na submucosa, torna-se pT1, ganha acesso aos linfáticos, e o risco de linfonodo acometido salta para algo entre 8 e 15%. A partir daí a pergunta deixa de ser qual pólipo é, e passa a ser quão fundo ele desceu. Mede-se essa profundidade como um arqueólogo mede um sítio: por estratos.

Prancha da profundidade de invasão: níveis de Haggitt e de Kikuchi Corte transversal da parede colônica em dois campos. No campo superior, pólipo pediculado com marcadores numerados de zero a quatro, da cabeça até a submucosa da parede, correspondentes aos níveis de Haggitt. No campo inferior, lesão séssil com a submucosa dividida em três estratos, sm1, sm2 e sm3, de Kikuchi. CAMPO I · PEDICULADO · HAGGITT mucosa submucosa muscular própria 0 1 2 3 4 intramucoso — Tis cabeça do pólipo colo haste submucosa da parede a lâmina clara entre mucosa e submucosa é a muscular da mucosa CAMPO II · SÉSSIL · KIKUCHI mucosa sm1 sm2 sm3 muscular própria terço superior, < 1000 µm terço médio terço profundo daqui em diante já é T2 Vista: corte transversal perpendicular ao eixo do lúmen, parede colônica esquerda. Lúmen acima, serosa abaixo. Peça de polipectomia orientada pelo patologista — sem posição de mesa. Âncora: muscular da mucosa, a lâmina clara.
0carcinoma intramucoso, acima da muscular da mucosa
1invasão limitada à cabeça do pólipo
2invasão do colo
3invasão da haste
4invasão da submucosa da parede, abaixo da haste
smterços da submucosa na lesão séssil
Prancha Β — os estratos. Note que a lesão séssil não tem haste: ela é, por definição, Haggitt 4, e é exatamente por isso que Kikuchi precisou existir. Haggitt 1 a 3 e sm1 carregam risco linfonodal de 1 a 3%; Haggitt 4 e sm3 chegam a 20 a 25%.
Γ

O julgamento do pólipo pT1

Profundidade é apenas um dos votos. O laudo traz cinco testemunhos possíveis contra a lesão, e a jurisprudência aqui é implacável: um único voto desfavorável condena a peça à colectomia, porque nenhum deles se compensa com a ausência dos outros. Nos tribunais de Atenas o júri decidia com discos de bronze — o eixo maciço absolvia, o eixo vazado condenava. Deposite os testemunhos e veja a ficha virar.

Adenocarcinoma pT1 ressecado por via endoscópica

Marque o que o laudo do patologista descreve.

A tinta que salva a laparoscopia

Se o pólipo ressecado tem qualquer chance de virar colectomia, o endoscopista precisa tatuar o sítio com nanquim no mesmo ato. Sem a tatuagem, você entra na cavidade procurando uma cicatriz de quinze milímetros que não se palpa e não se vê.

Δ

O calendário do retorno

Encerrado o julgamento, resta marcar a data. A vigilância pós-polipectomia segue o consenso americano de 2020 e é quase toda determinada por três variáveis: número, tamanho e histologia.

Intervalos de vigilância — USMSTF 2020
Achado na colonoscopia índiceRetorno
Cólon normal, ou hiperplásicos < 10 mm em reto e sigmoide10 anos
1 a 2 adenomas tubulares < 10 mm7 a 10 anos
3 a 4 adenomas tubulares < 10 mm3 a 5 anos
5 a 10 adenomas < 10 mm3 anos
Adenoma ≥ 10 mm, viloso, ou displasia de alto grau3 anos
Mais de 10 adenomas1 ano, e investigar síndrome
Lesão ≥ 20 mm ressecada em piecemeal6 meses, para avaliar a cicatriz
1 a 2 lesões serrilhadas sésseis < 10 mm5 a 10 anos
Serrilhada ≥ 10 mm, com displasia, ou adenoma serrilhado tradicional3 anos

Se a banca invocar a escola europeia em vez da americana, o ponto de divergência é sempre o mesmo: a ESGE e a britânica não indicam vigilância para um a quatro adenomas menores que 10 mm com displasia de baixo grau — devolvem o paciente ao rastreio populacional. É a única discordância que vale decorar.

Ε

As casas hereditárias

Nem tudo que enche o cólon de pólipos é polipose — e a síndrome hereditária mais comum de câncer colorretal justamente não faz polipose nenhuma. É o elo pontilhado da prancha abaixo.

Mapa das síndromes polipóticas hereditárias As síndromes de polipose separadas em adenomatosas, hamartomatosas e serrilhada, com a síndrome de Lynch ligada por linha pontilhada por não cursar com polipose. Múltiplos pólipos no cólon Adenomatosos Hamartomas Serrilhados Sem polipose PAF PAF atenuada MAP Peutz-Jeghers Polipose juvenil Cowden Polipose serrilhada Lynch poucos pólipos, progressão rápida
Prancha Ε — as casas. A linha pontilhada da direita é a armadilha: Lynch pertence à árvore do câncer hereditário, não à do pólipo abundante.

No Lynch, o sistema de reparo de mal-pareamento está defeituoso e um adenoma vira carcinoma em dois a três anos, não em dez a quinze. É por isso que o intervalo de vigilância é de um a dois anos: você não está esperando o pólipo aparecer, está tentando chegar antes que ele corra.

Cartão de identificação das síndromes
SíndromeGene e herançaA marca que denunciaRisco de CCR
PAF clássicaAPC, dominanteCentenas a milhares de adenomas na adolescência; hipertrofia do epitélio pigmentar da retina~100%
PAF atenuadaAPC, dominante10 a 100 adenomas, predomínio à direita, uma a duas décadas mais tarde70 a 80%
MAPMUTYH, recessivaFenótipo de PAF atenuada sem história vertical — irmãos afetados, pais sadios~80%
Peutz-JeghersSTK11, dominanteMelanose de lábios e dedos; hamartomas do delgado que causam intussuscepção~39%, com risco alto de mama e pâncreas
Polipose juvenilSMAD4 ou BMPR1A, dominanteSangramento e anemia na infância; SMAD4 acompanha telangiectasia hemorrágica hereditária40 a 50%
CowdenPTEN, dominanteMacrocefalia, triquilemomas faciais, nódulos de tireoide e mama9 a 16%
Polipose serrilhadasem gene único definidoDiagnóstico por critérios de contagem e tamanho da OMS, não por teste genético15 a 30%
LynchMLH1, MSH2, MSH6, PMS2, dominantePoucos pólipos, cólon direito, idade jovem, tumores sincrônicos, endométrio na família50 a 80%
Três armadilhas desta tabela

Um quarto dos casos de PAF são mutações de novo: ausência de história familiar não afasta o diagnóstico. A MAP é a única recessiva do grupo, então o padrão familiar é horizontal, entre irmãos — se a questão descreve dois irmãos com dezenas de adenomas e pais saudáveis, é MUTYH. E o hamartoma isolado da infância é benigno: o que confere risco é o contexto sindrômico.

Colofão

Faltam dois capítulos a este tratado. O primeiro, sobre a idade e o modo da cirurgia profilática em cada casa hereditária — colectomia total com anastomose ileorretal ou proctocolectomia com bolsa ileal, e o que decide entre elas. O segundo, sobre a mão do endoscopista: a classificação de Paris, o sinal do não-erguimento e a escolha entre alça, mucosectomia e dissecção submucosa. Fecha a série a síndrome de McKittrick-Wheelock, o adenoma viloso gigante do reto que chega ao pronto-socorro em desidratação e hipocalemia graves.