Revisão dirigida e banco de questões construído a partir de uma questão-matriz do ENARE, expandido para cobrir todas as variações cobráveis do tema.
Questão-matriz
O subtipo de linfoma gástrico mais comum é o linfoma de…
Questões
54
Blocos
8
Seções de revisão
10
Fonte principal
Sabiston, 21ª ed.
Parte I
Revisão dirigida
Leia em uma sessão antes de responder às questões. Cada seção corresponde a um eixo distinto de cobrança em prova.
01Epidemiologia — os números que caem na prova
O trato gastrointestinal é o sítio extranodal mais frequentemente acometido pelos linfomas não-Hodgkin, respondendo por cerca de 30% a 40% de todos os linfomas extranodais. Dentro do TGI, a distribuição segue uma ordem decrescente estável: estômago (60% a 75%), intestino delgado (20% a 30%), cólon e reto (5% a 10%) e esôfago (menos de 1%, praticamente uma raridade).
O linfoma gástrico primário representa de 1% a 5% de todas as neoplasias malignas do estômago — o adenocarcinoma continua sendo, com larga margem, a lesão maligna gástrica mais comum (90% a 95%). Ainda assim, o estômago é o local onde o linfoma extranodal mais aparece.
Perfil demográfico: pico entre a sexta e a sétima décadas de vida, discreto predomínio masculino. Mais de 95% dos linfomas gástricos primários são de linhagem B; os de linhagem T são excepcionais no estômago (ao contrário do intestino delgado, onde o EATL é relevante).
A incidência do linfoma MALT gástrico vem caindo em países desenvolvidos, acompanhando a queda da prevalência da infecção por Helicobacter pylori — um dado epidemiológico que reforça a relação causal.
02Classificação da OMS — o mapa dos subtipos
A prova costuma cobrar o reconhecimento do subtipo a partir de uma pista (idade, sítio, imuno-histoquímica, citogenética ou comorbidade). Domine a tabela abaixo e a maioria das variações fica resolvida.
Campylobacter jejuni; Oriente Médio/Mediterrâneo; má absorção
03Patogênese do MALT gástrico — a lógica causal
O ponto de partida conceitual, e origem de uma pegadinha frequente: a mucosa gástrica normal não possui tecido linfoide organizado. O MALT gástrico é tecido ADQUIRIDO, resultado de estímulo inflamatório crônico — na esmagadora maioria dos casos, a gastrite por H. pylori.
A sequência é: infecção crônica por H. pylori → recrutamento de linfócitos e formação de folículos linfoides na mucosa → proliferação de células B dependente de estímulo parácrino de células T H. pylori-específicas → aquisição de alterações genéticas → clone B autônomo, independente do antígeno.
Essa dependência antigênica inicial explica o fenômeno terapêutico mais importante do tema: retirar o antígeno (erradicar o H. pylori) faz o tumor regredir. Quando o clone adquire independência antigênica — tipicamente via t(11;18) —, a erradicação deixa de funcionar.
Achado histológico característico: a LESÃO LINFOEPITELIAL, definida pela invasão e destruição das glândulas gástricas por agregados de células B centrocito-like. O escore de Wotherspoon (0 a 5) gradua o infiltrado, sendo 5 o linfoma franco.
Imuno-histoquímica do MALT (padrão de exclusão): CD19+, CD20+, CD79a+, CD21+, CD35+; e — igualmente importante — CD5 NEGATIVO (exclui manto e LLC), CD10 NEGATIVO (exclui folicular e Burkitt), CD23 NEGATIVO e CICLINA D1 NEGATIVA (exclui manto).
04Citogenética — quatro translocações, um destino comum
Todas as translocações recorrentes do MALT convergem para a ativação constitutiva da via NF-kappaB, o que confere sobrevida independente do estímulo antigênico. Essa é a explicação mecanística de por que a erradicação falha nesses casos.
Translocação
Genes
Frequência / sítio
Significado clínico
t(11;18)(q21;q21)
API2–MALT1
A mais comum no estômago (~25%–30%)
Prediz FALHA da erradicação isolada; doença mais avançada; raramente transforma em DLBCL
t(1;14)(p22;q32)
BCL10–IGH
Rara (<5%)
Também associada a resistência à erradicação
t(14;18)(q32;q21)
IGH–MALT1
Predomina em sítios NÃO gástricos (órbita, parótida, pulmão)
Baixa relevância no MALT gástrico; não confundir com a t(14;18) BCL2 do folicular
t(3;14)(p14.1;q32)
FOXP1–IGH
Rara; tireoide, órbita, pele
Descrita em MALT de sítios diversos
Atenção à armadilha: a t(14;18) do linfoma FOLICULAR envolve IGH–BCL2; a t(14;18) do MALT envolve IGH–MALT1. Mesmos cromossomos, genes diferentes.
Trissomias dos cromossomos 3 e 18 também são alterações recorrentes, porém sem o valor preditivo terapêutico da t(11;18).
05Apresentação clínica e diagnóstico
Os sintomas são inespecíficos e clinicamente INDISTINGUÍVEIS do adenocarcinoma gástrico: dor epigástrica ou dispepsia (o mais frequente), saciedade precoce, náuseas, perda ponderal e anemia por sangramento oculto. Sintomas B (febre, sudorese noturna, emagrecimento definido) ocorrem em minoria — cerca de 12% a 20% —, o que difere dos linfomas nodais.
Endoscopia: o linfoma gástrico é um grande imitador. Pode se apresentar como eritema, erosões superficiais, úlcera única ou múltipla, pregas gástricas espessadas (aspecto cerebriforme), nodularidade difusa ou massa polipoide. Nenhum padrão é patognomônico.
Biópsia — ponto crítico e muito cobrado: o infiltrado é frequentemente SUBMUCOSO, e biópsias superficiais de rotina podem ser não diagnósticas. Exige-se biópsias múltiplas, amplas e profundas (macrobiópsias, técnica de biópsia sobre biópsia ou well technique), com mapeamento sistemático do estômago, incluindo áreas de mucosa aparentemente normal, além de biópsias do antro e corpo para pesquisa de H. pylori.
O material deve ser submetido a imuno-histoquímica, citometria de fluxo e pesquisa de clonalidade (rearranjo de cadeia pesada de imunoglobulina por PCR). FISH ou RT-PCR para t(11;18) é recomendada antes de decidir por erradicação isolada.
Pesquisa de H. pylori: histologia com coloração específica, teste de urease, teste respiratório com ureia marcada e antígeno fecal. Se todos negativos, solicitar SOROLOGIA — pacientes com linfoma MALT podem ter carga bacteriana baixa e resultados falso-negativos nos testes diretos.
Ultrassonografia endoscópica (USE): é o método mais preciso para avaliar a profundidade de invasão parietal (T) e os linfonodos perigástricos (N). Tem valor prognóstico direto — quanto mais profunda a invasão além da submucosa, MENOR a probabilidade de resposta à erradicação isolada. Também é a ferramenta de escolha para monitorar resposta.
Estadiamento sistêmico: TC de tórax, abdome e pelve; biópsia/aspirado de medula óssea; hemograma, LDH, beta-2-microglobulina; sorologias para HIV, HCV (associado a linfomas de zona marginal) e HBV — esta última obrigatória antes do rituximabe, pelo risco de reativação viral. O PET-CT é padrão nos subtipos agressivos (DLBCL, Burkitt), mas o MALT tem avidez ao FDG variável e frequentemente baixa, o que limita sua utilidade nesse subtipo.
06Critérios de Dawson — definição de linfoma primário do TGI
Formulados em 1961, permanecem a definição operacional de linfoma gastrointestinal PRIMÁRIO (versus acometimento secundário por linfoma sistêmico). São cinco:
Ausência de linfadenopatia periférica palpável;
Ausência de alargamento mediastinal / linfonodomegalia mediastinal na radiografia de tórax;
Contagem leucocitária total e diferencial normais;
Predomínio da lesão no trato gastrointestinal, com acometimento linfonodal restrito à cadeia de drenagem regional;
Ausência de acometimento hepático e esplênico (exceto por extensão direta a partir da lesão primária).
Pegadinha clássica: a presença de infiltração de medula óssea NÃO faz parte dos critérios — ao contrário, sua presença descaracteriza a doença como primária do TGI.
07Estadiamento — sistema de Lugano
O sistema de Ann Arbor foi concebido para linfomas nodais e adapta-se mal ao TGI. A adaptação mais utilizada é a classificação de Lugano para linfomas gastrointestinais:
Estágio
Definição
Detalhamento
IE
Confinado ao TGI
I1 = mucosa e submucosa; I2 = muscular própria, subserosa ou serosa
Invasão de órgãos ou estruturas adjacentes por contiguidade
IV
Doença disseminada
Acometimento extranodal difuso ou linfonodos supradiafragmáticos
Observe que o sistema de Lugano NÃO possui estágio III — o que seria o III foi incorporado ao IIE. Essa ausência já foi objeto de questão.
O sistema de Paris (TNM adaptado por Ruskoné-Fourmestraux) é uma alternativa mais granular: T1m (mucosa), T1sm (submucosa), T2 (muscular própria), T3 (serosa), T4 (órgãos adjacentes); N0–N3; M0–M2; B0/B1 para medula óssea.
08Tratamento do linfoma MALT gástrico
Este é o eixo central do tema e o que mais gera questões de conduta. A regra de ouro contemporânea: o tratamento é de PRESERVAÇÃO DE ÓRGÃO. A gastrectomia deixou de ser terapia primária.
Estágio IE/IIE, H. pylori positivo
Erradicação do H. pylori é a primeira linha, isoladamente. Esquema tríplice (IBP + amoxicilina + claritromicina por 14 dias) ou quádruplo com bismuto em áreas de alta resistência à claritromicina. Confirmar erradicação com teste respiratório ou antígeno fecal, no mínimo 4 semanas após o término do antibiótico e 2 semanas após suspensão do IBP. Remissão completa é obtida em 60% a 80% dos casos.
O tempo da resposta — armadilha frequente
A regressão histológica é LENTA. A mediana até a remissão completa é de aproximadamente 6 meses, mas pode levar 12 a 18 meses, e há relatos de até 24 meses. Portanto, doença histológica residual em uma EDA de controle aos 3 meses, com paciente estável e sem progressão, NÃO indica falha terapêutica — indica observação com endoscopia seriada (watch-and-wait). Escalonar tratamento nesse cenário é erro de conduta.
Avaliação de resposta — sistema GELA
O Groupe d'Étude des Lymphomes de l'Adulte padronizou a leitura histológica pós-tratamento em quatro categorias: CR (remissão histológica completa), pMRD (doença residual mínima provável), rRD (doença residual em resposta) e NC (sem alteração). As categorias CR, pMRD e rRD são compatíveis com conduta expectante; NC com progressão indica escalonamento.
H. pylori negativo, falha de erradicação ou t(11;18) positivo
Radioterapia de campo envolvido é o tratamento de escolha em doença localizada (IE/IIE), na dose de 24 a 30 Gy fracionados, com taxas de controle local superiores a 90%. Alternativa em pacientes não candidatos à RT: rituximabe isolado. Vale registrar que, mesmo em pacientes H. pylori negativos, a antibioticoterapia empírica produz resposta em cerca de 15% a 20% — atribuída a falso-negativos ou a outras espécies de Helicobacter — e pode ser tentada em casos selecionados.
Doença avançada (IIE com linfonodos distantes, IV) ou sintomática disseminada
Imunoquimioterapia sistêmica. O estudo IELSG-19 demonstrou superioridade da associação rituximabe + clorambucila sobre qualquer um dos agentes isolados em sobrevida livre de eventos. Alternativas: R-bendamustina, R-CVP. Em doença assintomática de baixo volume, observação vigilante é aceitável, pela natureza indolente.
Papel da cirurgia
Restrito às COMPLICAÇÕES: perfuração, hemorragia não controlável endoscopicamente e obstrução. Ensaios comparando estratégia cirúrgica versus conservadora (notadamente o estudo multicêntrico alemão de Koch e colaboradores) não demonstraram vantagem de sobrevida com a ressecção, ao custo de morbidade significativa. Gastrectomia profilática antes da quimioterapia, por temor de perfuração, é conduta ABANDONADA — o risco real de perfuração durante o tratamento é inferior a 5%.
09Tratamento do DLBCL gástrico e dos subtipos agressivos
DLBCL gástrico: o tratamento padrão é R-CHOP (rituximabe, ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina, prednisona), tipicamente 6 ciclos, com ou sem radioterapia de consolidação em doença volumosa ou resposta parcial. Se houver H. pylori, este deve ser erradicado concomitantemente, mas a erradicação NÃO substitui a imunoquimioterapia. Sobrevida global em 5 anos na faixa de 50% a 60%, com resultados melhores nos estágios iniciais.
Existe uma exceção discutida na literatura: DLBCL gástrico em estágio IE, H. pylori positivo, com componente MALT residual, pode responder à erradicação isolada em séries selecionadas. Trata-se de conduta de exceção, em centros especializados — a resposta de prova permanece R-CHOP.
Linfoma de Burkitt: regimes intensivos e dose-densos (CODOX-M/IVAC, DA-EPOCH-R, hyper-CVAD) com profilaxia de sistema nervoso central. Profilaxia obrigatória de síndrome de lise tumoral com hidratação vigorosa e rasburicase ou alopurinol — o tempo de duplicação tumoral do Burkitt é o mais curto entre as neoplasias humanas.
Linfoma de células do manto: R-CHOP alternado com R-DHAP seguido de autotransplante de medula em pacientes jovens e elegíveis; inibidores de BTK (ibrutinibe, acalabrutinibe) em recidiva. Prognóstico reservado.
EATL: quimioterapia baseada em antraciclina (CHOP) seguida de autotransplante; prognóstico ruim, frequentemente complicado por perfuração e desnutrição. A ressecção pode ser necessária por complicação.
10Prognóstico e seguimento
MALT gástrico em estágio IE: sobrevida global em 5 anos de 90% a 95% — comparação favorável marcante em relação ao adenocarcinoma gástrico, cuja sobrevida global em 5 anos gira em torno de 30% no Ocidente.
Fatores adversos no MALT: profundidade de invasão além da submucosa, acometimento linfonodal, t(11;18) positiva e transformação para grandes células.
Transformação histológica: o MALT pode transformar-se em DLBCL. Curiosamente, os casos t(11;18) positivos, embora resistentes à erradicação, raramente sofrem essa transformação.
Seguimento: endoscopia digestiva alta com biópsias seriadas a cada 6 meses nos primeiros 2 anos, depois anual. A vigilância deve ser prolongada por dois motivos — risco de recidiva do linfoma (especialmente se reinfecção por H. pylori) e risco aumentado, em cerca de 6 vezes, de adenocarcinoma gástrico metacrônico nesses pacientes.
Parte II
Banco de questões
Clique na alternativa para responder. O comentário aparece imediatamente, com o raciocínio, os distratores e as nuances adicionais. Meta: 1 minuto por questão.
IEpidemiologia e distribuição topográfica
01
O sítio extranodal mais frequentemente acometido pelos linfomas não-Hodgkin é:
O TGI responde por 30% a 40% dos linfomas extranodais, sendo disparadamente o sítio mais comum. Pele e anel de Waldeyer vêm em seguida, mas com frequências substancialmente menores. Questão de memorização direta — não há nuance.
02
Dentro do trato gastrointestinal, o órgão mais acometido por linfoma primário é:
Ordem decrescente a memorizar: estômago (60%–75%) > intestino delgado (20%–30%) > cólon e reto (5%–10%) > esôfago (<1%). O esôfago é o distrator clássico por ser proximal, mas é praticamente uma raridade — sua escassez de tecido linfoide submucoso explica o achado.
03
O linfoma gástrico primário representa aproximadamente qual proporção de todas as neoplasias malignas do estômago?
O adenocarcinoma domina (90%–95%). O linfoma fica na faixa de 1% a 5%, seguido por GIST, tumores neuroendócrinos e metástases. A pegadinha aqui é o contraste com a afirmação da questão anterior: o estômago é o sítio extranodal mais comum de linfoma, mas o linfoma é uma causa incomum de câncer gástrico. As duas afirmações são compatíveis e ambas verdadeiras.
04
O subtipo de linfoma gástrico mais comum é o linfoma de:
QUESTÃO-MATRIZ. O linfoma de zona marginal extranodal do tecido linfoide associado à mucosa (MALT) é o subtipo mais comum de linfoma gástrico primário. NUANCE IMPORTANTE: algumas séries epidemiológicas ocidentais mais recentes atribuem ao DLBCL uma frequência igual ou até superior ao MALT no estômago. Contudo, os textos-referência de cirurgia (Sabiston e Schwartz) e o padrão de resposta em provas de residência mantêm o MALT como resposta. A regra prática: se a questão perguntar 'subtipo mais comum' — MALT. Se perguntar 'subtipo AGRESSIVO mais comum' ou 'linfoma de alto grau mais comum' — DLBCL.
05
Quanto à linhagem celular, os linfomas gástricos primários são, em mais de 95% dos casos:
Predomínio quase absoluto de linhagem B no estômago. Linfomas T gástricos são excepcionais. Contraste obrigatório: no INTESTINO DELGADO, os linfomas T (EATL e MEITL) ganham relevância clínica significativa. Sítio muda a linhagem esperada.
06
No cólon, o segmento mais frequentemente acometido por linfoma primário e o subtipo histológico predominante são, respectivamente:
O ceco é o segmento colônico mais acometido, pela maior densidade de tecido linfoide na região ileocecal, e o DLBCL é o subtipo predominante. Diferentemente do estômago, o linfoma colônico frequentemente exige cirurgia — seja porque o diagnóstico só é feito na peça de uma ressecção por suspeita de adenocarcinoma, seja pelo risco elevado de obstrução e perfuração.
IIPatogênese, histologia e biologia molecular
07
Sobre a origem do tecido linfoide associado à mucosa gástrica, é correto afirmar:
Conceito fundamental e muito cobrado. A mucosa gástrica NORMAL não possui MALT organizado. O tecido linfoide é adquirido em resposta a estímulo inflamatório crônico — a gastrite por H. pylori é o gatilho em cerca de 90% dos casos. Sem esse conceito, toda a lógica terapêutica da erradicação fica sem sentido.
08
O achado histológico considerado característico do linfoma MALT gástrico é:
A lesão linfoepitelial consiste na invasão e destruição das glândulas gástricas por agregados de células B centrocito-like. Distratores: células em anel de sinete = adenocarcinoma difuso; Reed-Sternberg = linfoma de Hodgkin; padrão em céu estrelado (starry sky) = linfoma de Burkitt, produzido por macrófagos de corpos tingíveis em meio às células tumorais.
09
O perfil imuno-histoquímico típico do linfoma MALT gástrico é:
O MALT é definido em grande parte por EXCLUSÃO imuno-histoquímica. É CD20+ (célula B), porém CD5 negativo (o que exclui linfoma de células do manto e LLC), CD10 negativo (exclui folicular e Burkitt), CD23 negativo e ciclina D1 negativa (exclui manto). Decorar o padrão negativo vale mais do que o positivo, porque é ele que discrimina os subtipos.
10
A prevalência de infecção por Helicobacter pylori em pacientes com linfoma MALT gástrico de baixo grau é de aproximadamente:
Cerca de 90% dos linfomas MALT gástricos de baixo grau apresentam infecção por H. pylori. A associação é tão forte que o H. pylori foi classificado pela IARC como carcinógeno do grupo 1 — tanto para adenocarcinoma quanto para linfoma MALT. Quando os testes diretos são negativos, sempre solicitar sorologia antes de assumir doença H. pylori-negativa.
11
A translocação t(11;18)(q21;q21), que gera o transcrito de fusão API2-MALT1, tem qual implicação clínica no linfoma MALT gástrico?
PONTO DE ALTÍSSIMO RENDIMENTO EM PROVA. É a translocação mais comum do MALT gástrico (25%–30%). A fusão API2-MALT1 ativa constitutivamente a via NF-kappaB, tornando o clone independente do estímulo antigênico do H. pylori — daí a resistência à erradicação. Detalhe adicional frequentemente cobrado: apesar da resistência, esses casos raramente se transformam em DLBCL. O distrator a evitar é o que atribui a t(11;18) ao linfoma de células do manto — a translocação do manto é a t(11;14).
12
Assinale a alternativa que corretamente associa a translocação ao seu par gênico:
Mapa a decorar: t(8;14) MYC-IGH = Burkitt; t(11;14) ciclina D1-IGH = manto; t(14;18) IGH-BCL2 = folicular; t(11;18) API2-MALT1 = MALT (resistência à erradicação); t(1;14) BCL10-IGH = MALT (também resistente); t(14;18) IGH-MALT1 = MALT de sítios NÃO gástricos. Armadilha refinada: existem DUAS t(14;18) — a do folicular envolve BCL2, a do MALT envolve MALT1.
13
A via de sinalização final comum ativada pelas translocações recorrentes do linfoma MALT é:
API2-MALT1, BCL10-IGH e IGH-MALT1 convergem todas para a ativação constitutiva do NF-kappaB, conferindo sinal de sobrevivência independente do receptor de células B e, portanto, independente do antígeno bacteriano. Esse é o elo mecanístico que explica a falha da erradicação — entender a via torna desnecessário decorar caso a caso.
14
Além do H. pylori, qual das seguintes condições apresenta associação reconhecida com linfoma de zona marginal extranodal?
O HCV tem associação estabelecida com linfomas de zona marginal, incluindo formas extranodais e esplênicas — em alguns casos a terapia antiviral induz remissão do linfoma. Outras associações relevantes de estímulo antigênico crônico: tireoidite de Hashimoto e MALT de tireoide; síndrome de Sjögren e MALT de parótida; Chlamydia psittaci e MALT de anexos oculares; Borrelia burgdorferi e MALT cutâneo.
15
O escore utilizado para graduar histologicamente o infiltrado linfoide na suspeita de linfoma MALT gástrico, variando de 0 a 5, é o escore de:
O escore de Wotherspoon gradua de 0 (normal) a 5 (linfoma MALT de baixo grau franco), sendo o grau 3 e 4 indicativos de infiltrado suspeito que requer investigação de clonalidade. Distratores: Sistema de Sydney = classificação de gastrite; Gleason = próstata; Bormann = classificação macroscópica do adenocarcinoma gástrico avançado; Vienna = classificação de neoplasia intraepitelial gastrointestinal.
IIIQuadro clínico, endoscopia e diagnóstico
16
A manifestação clínica mais frequente do linfoma gástrico primário é:
Sintomas inespecíficos, dominados por dor epigástrica/dispepsia, seguidos de saciedade precoce, náuseas, perda ponderal e anemia. Não há como diferenciar clinicamente do adenocarcinoma — o diagnóstico é sempre histológico. O distrator mais tentador é o que afirma alta frequência de sintomas B: eles ocorrem em apenas 12% a 20% dos linfomas gástricos, muito abaixo do observado em linfomas nodais.
17
Sobre o aspecto endoscópico do linfoma gástrico, é correto afirmar que:
O linfoma gástrico é conhecido como grande imitador endoscópico. Pode aparecer como eritema, erosões superficiais, úlceras únicas ou múltiplas, pregas gástricas espessadas com aspecto cerebriforme, nodularidade difusa ou massa. Consequência prática: toda lesão gástrica atípica ou refratária ao tratamento clínico merece biópsias adequadas e imuno-histoquímica.
18
Paciente com pregas gástricas espessadas e suspeita clínica de linfoma. Duas endoscopias com biópsias superficiais foram inconclusivas. A conduta mais apropriada é:
O infiltrado linfomatoso é frequentemente SUBMUCOSO, o que torna biópsias superficiais rotineiramente falso-negativas. Exige-se macrobiópsias — técnica de biópsia sobre biópsia (well technique) — com mapeamento sistemático, incluindo mucosa de aparência normal. A gastrectomia diagnóstica é conduta anacrônica; a citologia por escovado tem sensibilidade insuficiente para linfoma.
19
O método de imagem mais preciso para avaliar a profundidade de invasão parietal e o acometimento linfonodal perigástrico no linfoma gástrico é:
A USE é o padrão para estadiamento locorregional (T e N) e para o monitoramento da resposta ao tratamento. Sua importância vai além do estadiamento: a profundidade de invasão à USE tem valor PREDITIVO — lesões restritas à mucosa e submucosa respondem muito melhor à erradicação isolada do que lesões que ultrapassam a muscular própria.
20
Sobre o valor do PET-CT no linfoma gástrico, assinale a correta:
Discriminação prática essencial: nos linfomas agressivos (DLBCL, Burkitt), o PET-CT é padrão para estadiamento e avaliação de resposta. No MALT, a captação de FDG é inconstante — um PET negativo não exclui doença residual, e por isso o seguimento do MALT é ENDOSCÓPICO com biópsias, não por imagem metabólica.
21
Os critérios de Dawson, que definem linfoma gastrointestinal primário, incluem todos os seguintes, EXCETO:
PEGADINHA CLÁSSICA POR INVERSÃO. Os critérios exigem AUSÊNCIA de acometimento hepático, esplênico e sistêmico. A infiltração de medula óssea descaracteriza a doença como primária do TGI, indicando linfoma sistêmico com acometimento gastrointestinal secundário. Quando a alternativa contém o termo 'obrigatória' associado a um achado sistêmico, desconfie.
22
Paciente com linfoma MALT gástrico será submetido a tratamento com rituximabe. Qual sorologia é obrigatória antes do início da terapia, pelo risco de reativação com desfecho potencialmente fatal?
O rituximabe depleta células B e pode reativar hepatite B, inclusive em pacientes com HBsAg negativo e anti-HBc positivo (infecção oculta), com risco de hepatite fulminante. Rastrear HBsAg e anti-HBc total; profilaxia com entecavir ou tenofovir quando indicada. Rastrear também HIV e HCV — este último pela associação etiológica com linfomas de zona marginal.
23
Todos os testes diretos para H. pylori (histologia, urease, teste respiratório) resultaram negativos em paciente com linfoma MALT gástrico. Antes de classificar o caso como H. pylori-negativo, a conduta adicional recomendada é:
Pacientes com linfoma MALT frequentemente têm baixa carga bacteriana, o que produz falso-negativos nos testes diretos. Uso recente de IBP e antibióticos agrava o problema. A sorologia, que detecta exposição, é o passo complementar recomendado. Consequência terapêutica: mesmo casos rotulados H. pylori-negativos podem responder à antibioticoterapia empírica em 15% a 20% dos casos.
IVEstadiamento
24
O sistema de estadiamento mais utilizado especificamente para linfomas gastrointestinais primários é:
Lugano é a resposta. Ann Arbor puro foi concebido para doença nodal e adapta-se mal ao TGI. Distratores todos de outras doenças: Dukes = câncer colorretal; Bormann = aspecto macroscópico do adenocarcinoma gástrico avançado; Siewert = junção esofagogástrica; Lauren = histologia do adenocarcinoma gástrico (intestinal versus difuso).
25
No sistema de Lugano para linfomas gastrointestinais, o estágio II1 corresponde a:
Lugano: IE = confinado ao TGI (I1 mucosa/submucosa; I2 muscular própria/serosa); IIE = extensão abdominal, subdividida em II1 (linfonodos regionais) e II2 (linfonodos distantes — para-aórticos, paracavais, mesentéricos, pélvicos); IIE = penetração de serosa com invasão de órgãos adjacentes; IV = doença disseminada ou linfonodos supradiafragmáticos. Detalhe pouco lembrado: o sistema de Lugano NÃO possui estágio III.
26
O sistema de Paris, alternativa de estadiamento para linfomas gástricos, caracteriza-se por:
O sistema de Paris (Ruskoné-Fourmestraux) é uma adaptação TNM que oferece maior granularidade que Lugano, discriminando T1m (mucosa) de T1sm (submucosa) — distinção relevante porque a profundidade prediz a resposta à erradicação — e incluindo o descritor B para medula óssea.
27
Homem de 62 anos com linfoma MALT gástrico. USE demonstra lesão restrita à submucosa, sem linfonodos perigástricos. TC de tórax, abdome e pelve sem alterações. Biópsia de medula óssea normal. O estágio, segundo Lugano, é:
Doença confinada ao estômago, restrita à mucosa/submucosa, sem linfonodos, sem doença sistêmica: IE, subgrupo I1. Se a lesão atingisse a muscular própria ou a serosa, seria I2. A presença de linfonodos perigástricos elevaria para II1. Cenário ideal para erradicação isolada, com as maiores taxas de resposta.
VTratamento do linfoma MALT gástrico
28
Paciente com linfoma MALT gástrico estágio IE, H. pylori positivo, sem t(11;18). O tratamento de primeira linha é:
Erradicação isolada é a primeira linha, com remissão completa em 60% a 80% dos casos em estágio inicial. É um dos poucos cânceres humanos curáveis com antibiótico. Esquema tríplice por 14 dias (IBP + amoxicilina + claritromicina) ou quádruplo com bismuto em áreas de alta resistência à claritromicina.
29
Após o esquema de erradicação, a confirmação de sucesso deve ser feita:
Detalhe técnico frequentemente cobrado. A sorologia NÃO serve para confirmar erradicação, pois permanece positiva por meses a anos. Testes diretos (respiratório ou antígeno fecal) exigem janela mínima de 4 semanas após o antibiótico e 2 semanas sem IBP, sob pena de falso-negativo por supressão bacteriana transitória.
30
O tempo mediano até a remissão histológica completa do linfoma MALT gástrico após erradicação bem-sucedida do H. pylori é de aproximadamente:
A cinética lenta da regressão é o fundamento da conduta expectante. Mediana em torno de 6 meses, com casos levando 12 a 18 meses e relatos de até 24 meses. Ignorar esse dado leva ao erro de escalonar tratamento prematuramente em pacientes que ainda estão respondendo.
31
Paciente com MALT gástrico IE tratado com erradicação. EDA de controle aos 3 meses: H. pylori erradicado, mas persistência de infiltrado linfomatoso à histologia. Paciente assintomático, sem sinais de progressão. A conduta é:
Cenário de conduta mais cobrado do tema. Doença residual aos 3 meses, com H. pylori erradicado, paciente estável e sem progressão, NÃO significa falha — significa resposta em curso. A conduta correta é watch-and-wait com endoscopia seriada. Escalonar terapia aqui é iatrogenia. Só se considera falha na presença de progressão clínica/endoscópica ou de doença estável sem qualquer regressão após 12 a 18 meses.
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O sistema GELA, aplicado ao linfoma MALT gástrico, serve para:
O sistema GELA (Groupe d'Étude des Lymphomes de l'Adulte) categoriza a resposta histológica pós-tratamento em: CR (remissão histológica completa), pMRD (doença residual mínima provável), rRD (doença residual em resposta) e NC (sem alteração). CR, pMRD e rRD são compatíveis com observação; NC com progressão indica escalonamento.
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Paciente com MALT gástrico IE, H. pylori positivo, cujo FISH revela t(11;18) positiva. A melhor conduta inicial é:
Resposta refinada e de alto rendimento. A t(11;18) prediz falha da erradicação isolada, pois o clone é NF-kappaB-independente do antígeno. Ainda assim, erradica-se o H. pylori — pelo controle da gastrite e prevenção de adenocarcinoma —, mas já se planeja o tratamento definitivo, que em doença localizada é a radioterapia de campo envolvido. O distrator a evitar é o que promete resposta completa à erradicação isolada — ele inverte exatamente o significado da translocação.
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Paciente com linfoma MALT gástrico estágio IE, H. pylori NEGATIVO (incluindo sorologia). O tratamento de escolha é:
Radioterapia de campo envolvido em doses moderadas (24 a 30 Gy) proporciona controle local superior a 90%, com preservação do órgão e toxicidade aceitável. É também a opção para falha de erradicação e para casos t(11;18) positivos em doença localizada. Alternativa em não candidatos à RT: rituximabe isolado.
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Sobre o uso de antibioticoterapia em pacientes com MALT gástrico comprovadamente H. pylori-negativos, é correto afirmar:
Achado contraintuitivo, mas bem documentado. A resposta é atribuída a falso-negativos dos testes, a outras espécies de Helicobacter (H. heilmannii) ou a efeitos imunomoduladores dos macrolídeos. Não é a conduta de eleição, mas é uma opção razoável em pacientes selecionados antes de partir para radioterapia.
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Paciente com linfoma MALT gástrico estágio IV, com acometimento de múltiplos sítios extranodais e sintomático. A terapia de primeira linha com melhor evidência é:
O estudo IELSG-19, randomizado, demonstrou superioridade da associação rituximabe + clorambucila sobre qualquer um dos agentes isolados, em sobrevida livre de eventos. Alternativas aceitas: R-bendamustina e R-CVP. Em doença AVANÇADA mas ASSINTOMÁTICA e de baixo volume, a observação vigilante permanece aceitável, dada a natureza indolente.
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Atualmente, a principal indicação de cirurgia no linfoma gástrico primário é:
MUDANÇA DE PARADIGMA — talvez o ponto mais importante do tema. O tratamento é de preservação de órgão. A cirurgia ficou restrita às complicações. Ensaios comparando estratégia cirúrgica com conservadora, notadamente o estudo multicêntrico alemão de Koch e colaboradores, não demonstraram vantagem de sobrevida com a ressecção, ao custo de morbidade e prejuízo funcional relevantes.
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Sobre o risco de perfuração gástrica durante a quimioterapia de linfoma gástrico volumoso e ulcerado, é correto afirmar:
A gastrectomia profilática antes da quimioterapia foi praticada historicamente pelo temor da perfuração durante a lise tumoral, mas é conduta ABANDONADA. O risco real fica abaixo de 5% e a morbidade da ressecção supera o benefício. O manejo correto é vigilância clínica estreita durante os primeiros ciclos.
VIDLBCL gástrico e subtipos agressivos
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Homem de 58 anos com massa gástrica ulcerada de 7 cm. Biópsia: proliferação de células grandes e atípicas, CD20 positivo, Ki-67 de 85%. O diagnóstico e o tratamento de primeira linha são:
Células grandes + CD20 positivo + Ki-67 elevado (mas não próximo de 100%) = DLBCL. Tratamento padrão: R-CHOP, tipicamente 6 ciclos, com ou sem radioterapia de consolidação. Se houver H. pylori, deve ser erradicado concomitantemente, mas isso NÃO substitui a imunoquimioterapia. Sobrevida global em 5 anos na faixa de 50% a 60%.
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Sobre a erradicação do H. pylori no DLBCL gástrico, assinale a correta:
Nuance sofisticada: existem séries mostrando resposta à erradicação isolada em DLBCL gástrico estágio IE, H. pylori positivo, com componente MALT residual. Isso é conduta de exceção, em centros especializados e com seguimento rigoroso. Em prova, a resposta é sempre: erradicar o H. pylori quando presente, mas tratar com R-CHOP.
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Paciente de 24 anos com massa ileocecal volumosa, dor abdominal de instalação rápida em 3 semanas e desidrogenase láctica muito elevada. Histologia mostra padrão em céu estrelado e Ki-67 próximo de 100%. Além do regime quimioterápico intensivo, a medida obrigatória antes de iniciar o tratamento é:
Quadro clássico de linfoma de Burkitt: região ileocecal, adulto jovem, evolução explosiva, LDH elevada, padrão em céu estrelado, Ki-67 próximo de 100%, t(8;14) com rearranjo de MYC. O Burkitt tem o menor tempo de duplicação entre as neoplasias humanas, o que torna a síndrome de lise tumoral um risco iminente e fatal. Profilaxia é mandatória. Regimes: CODOX-M/IVAC, DA-EPOCH-R ou hyper-CVAD, com profilaxia de SNC.
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Paciente com múltiplos pólipos linfomatoides difusos no íleo e cólon. Imuno-histoquímica: CD20+, CD5+, ciclina D1+. O diagnóstico é:
A tríade CD5 positivo + ciclina D1 positiva + t(11;14) define o linfoma de células do manto. Sua apresentação gastrointestinal clássica é a POLIPOSE LINFOMATOIDE MÚLTIPLA. É o subtipo de pior prognóstico entre os linfomas do TGI. Tratamento: R-CHOP alternado com R-DHAP seguido de autotransplante em jovens elegíveis; inibidores de BTK na recidiva.
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Assinale a alternativa que corretamente diferencia o linfoma de Burkitt do linfoma MALT:
Contraste completo entre os dois extremos do espectro: o mais indolente e o mais agressivo. Sítio, cinética, marcador de proliferação, citogenética e tratamento — tudo diverge. Memorizar esse par funciona como âncora para as demais comparações.
VIILinfomas do intestino delgado e cólon
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A doença imunoproliferativa do intestino delgado (IPSID), também conhecida como linfoma mediterrâneo ou doença das cadeias pesadas alfa, está classicamente associada à infecção por:
Associação obrigatória. A IPSID é um linfoma de zona marginal do duodeno e jejuno proximal, prevalente no Mediterrâneo e Oriente Médio, associado a más condições socioeconômicas. Manifesta-se com má absorção, diarreia crônica e baqueteamento digital. Nos estágios iniciais responde a antibioticoterapia (tetraciclina), em paralelo perfeito ao MALT gástrico com H. pylori. Produz cadeia pesada alfa truncada, sem cadeia leve.
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Paciente com doença celíaca de longa data, aderente à dieta, que evolui com retorno da diarreia, dor abdominal, perda ponderal acentuada e, posteriormente, perfuração jejunal. O diagnóstico mais provável é:
O EATL é uma complicação da doença celíaca refratária tipo II, associado a HLA-DQ2/DQ8. É de linhagem T (CD3+, CD7+, CD103+), acomete tipicamente o jejuno e tem alta taxa de perfuração e obstrução. Prognóstico ruim. O sinal de alerta clínico é o celíaco previamente controlado que volta a apresentar sintomas apesar da dieta. Distinguir do MEITL (tipo II), CD8+/CD56+, NÃO associado à celíaca e mais prevalente na Ásia.
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Homem de 55 anos submetido a endoscopia por dispepsia. Encontrados múltiplos micropólipos brancacentos na segunda porção duodenal. Biópsia: linfoma folicular, CD10+, BCL2+, t(14;18). A conduta mais apropriada é:
O linfoma folicular tipo duodenal é uma entidade distinta reconhecida pela OMS: localiza-se preferencialmente na segunda porção do duodeno, apresenta-se como múltiplos micropólipos, tem curso extremamente indolente e raramente dissemina. A conduta padrão é observação vigilante, com sobrevida excelente. Tratar agressivamente é erro — a armadilha da questão é o reflexo de tratar todo linfoma.
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Sobre o linfoma primário de cólon, é correto afirmar:
O ceco predomina pela maior densidade de tecido linfoide ileocecal. Diferentemente do estômago, no cólon a cirurgia mantém papel relevante — o diagnóstico frequentemente só é feito na peça de uma colectomia realizada por suspeita de adenocarcinoma, e o risco de obstrução e perfuração é maior. Note a inversão de paradigma em relação ao estômago: mesma doença, sítio diferente, conduta diferente.
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Paciente transplantado renal há 2 anos, em imunossupressão, desenvolve massa intestinal. A hipótese diagnóstica que deve ser prontamente considerada é:
A PTLD é uma proliferação linfoide B relacionada ao EBV em contexto de imunossupressão, com acometimento gastrointestinal frequente. O primeiro passo terapêutico é a REDUÇÃO DA IMUNOSSUPRESSÃO, seguida de rituximabe e, se necessário, quimioterapia. Em pacientes com HIV, os linfomas gastrointestinais tipicamente associados são o DLBCL e o Burkitt.
VIIIPrognóstico, seguimento e comparações
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A sobrevida global em 5 anos do linfoma MALT gástrico em estágio IE é de aproximadamente:
Prognóstico excelente — 90% a 95% em 5 anos no estágio IE. Contraste obrigatório: o adenocarcinoma gástrico tem sobrevida global em 5 anos em torno de 30% no Ocidente. Essa disparidade explica por que o diagnóstico histológico correto é decisivo: duas lesões endoscopicamente semelhantes com desfechos e tratamentos radicalmente distintos.
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São fatores de pior prognóstico no linfoma MALT gástrico, EXCETO:
A infecção por H. pylori é, paradoxalmente, fator de BOM prognóstico no MALT — porque abre a possibilidade de remissão com terapia de erradicação, tratamento simples e de baixa toxicidade. Os casos H. pylori-negativos exigem radioterapia ou terapia sistêmica. Questão de inversão de raciocínio: o agente etiológico é também o alvo terapêutico.
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Sobre o seguimento a longo prazo do paciente com linfoma MALT gástrico tratado, é correto afirmar:
Dois motivos justificam a vigilância prolongada: recidiva do linfoma (especialmente com reinfecção por H. pylori) e risco aumentado de adenocarcinoma gástrico metacrônico, estimado em cerca de 6 vezes o da população geral — consequência da gastrite atrófica crônica de base. Esquema usual: EDA com biópsias a cada 6 meses nos primeiros 2 anos, depois anual.
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Sobre a transformação histológica do linfoma MALT gástrico, assinale a correta:
Detalhe fino, mas cobrável. A t(11;18) tem comportamento dissociado: confere resistência à erradicação (pior no curto prazo terapêutico), mas associa-se a baixo risco de transformação para grandes células. Ou seja, é um marcador de resistência ao tratamento antibiótico, não de agressividade biológica progressiva.
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Estudos comparando estratégia cirúrgica versus conservadora (preservação de órgão) no linfoma gástrico primário demonstraram que:
O estudo multicêntrico alemão de Koch e colaboradores é a referência clássica. A ausência de benefício de sobrevida com a ressecção, somada à morbidade da gastrectomia e ao impacto nutricional, consolidou a preservação de órgão como padrão. Esta é a base conceitual das questões de conduta cirúrgica no tema.
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Comparando linfoma gástrico primário e adenocarcinoma gástrico, é correto afirmar:
Comparação-síntese do tema. O linfoma tem prognóstico marcadamente superior, tratamento primariamente não cirúrgico, e apresentação clínica e endoscópica indistinguível do adenocarcinoma. Daí a máxima prática: o valor da biópsia adequada com imuno-histoquímica é decisivo, porque a mesma imagem endoscópica pode corresponder a duas doenças com condutas opostas.
Parte III
Pegadinhas e associações
As 16 armadilhas mais prováveis do tema, seguidas do cartão de associações diretas para revisão de véspera.
Ponto
O que é correto
Erro típico induzido
Subtipo mais comum
MALT (zona marginal extranodal)
Responder DLBCL. Ele é o mais comum entre os agressivos, não o mais comum global
t(11;18) API2-MALT1
Prediz FALHA da erradicação
Interpretá-la como marcador de boa resposta ou de agressividade/transformação
t(14;18)
Existem duas: IGH-BCL2 (folicular) e IGH-MALT1 (MALT não gástrico)
Assumir que toda t(14;18) é folicular
Mucosa gástrica normal
NÃO possui MALT — é tecido adquirido
Achar que o MALT é tecido nativo, o que destrói a lógica da erradicação
Doença residual aos 3 meses
Observação com EDA seriada; regressão leva 6 a 18 meses
Escalonar para quimioterapia ou cirurgia prematuramente
Papel da cirurgia no estômago
Restrito a perfuração, sangramento e obstrução
Indicar gastrectomia como tratamento primário ou profilático
Critérios de Dawson
Exigem AUSÊNCIA de acometimento medular, hepático e esplênico
Marcar infiltração de medula óssea como critério
Sintomas B
Ocorrem em apenas 12% a 20%
Assumir a frequência alta típica dos linfomas nodais
Sistema de Lugano
Não possui estágio III
Procurar um estágio III inexistente
IPSID / linfoma mediterrâneo
Campylobacter jejuni
Trocar por H. pylori
EATL
Linhagem T, associado a celíaca refratária
Classificar como linfoma B
Linfoma folicular duodenal
Indolente — watch-and-wait
Indicar quimioterapia ou duodenopancreatectomia
H. pylori positivo no MALT
Fator de BOM prognóstico
Listá-lo entre os fatores adversos
PET-CT no MALT
Avidez ao FDG variável e frequentemente baixa
Usá-lo como método de seguimento no lugar da endoscopia
Confirmar erradicação
Teste respiratório ou antígeno fecal, 4 semanas após ATB e 2 sem IBP
Usar sorologia, que permanece positiva por meses
Linfoma de cólon
Ceco, DLBCL, cirurgia com papel maior que no estômago
Extrapolar a conduta gástrica de preservação de órgão
Pista dada na questão
Diagnóstico / resposta
Sítio extranodal mais comum de LNH
Trato gastrointestinal
Órgão do TGI mais acometido
Estômago
Subtipo gástrico mais comum
MALT
Subtipo gástrico agressivo mais comum
DLBCL
Lesão linfoepitelial
MALT
Padrão em céu estrelado, Ki-67 ~100%, ileocecal
Burkitt
Polipose linfomatoide, CD5+, ciclina D1+
Células do manto
Micropólipos na 2ª porção duodenal, CD10+, BCL2+
Folicular tipo duodenal
Celíaco refratário com perfuração jejunal
EATL
Má absorção, Mediterrâneo, cadeia alfa
IPSID / Campylobacter jejuni
Transplantado em imunossupressão, EBV
PTLD
Estadiamento do linfoma do TGI
Sistema de Lugano
Resposta histológica pós-erradicação
Sistema GELA
Graduação histológica do infiltrado
Escore de Wotherspoon
Melhor método para T e N locorregional
Ultrassonografia endoscópica
Doença avançada de MALT, sintomática
Rituximabe + clorambucila (IELSG-19)
Parte IV
Conduta no linfoma gástrico
Cenário à esquerda, decisão à direita. É a forma como as questões de caso clínico costumam ser montadas.
IE/IIE, H. pylori +, t(11;18) −Erradicação isolada. Confirmar em 4 semanas. EDA em 3 a 6 meses. Doença residual sem progressão: observar até 12 a 18 meses.
H. pylori −, falha de erradicação ou t(11;18) +Radioterapia de campo envolvido, 24 a 30 Gy. Alternativa: rituximabe isolado.
Avançado (II2, IIE, IV) sintomáticoRituximabe + clorambucila. Assintomático de baixo volume: observação vigilante.
Perfuração, hemorragia refratária, obstruçãoCirurgia — e somente nesta circunstância.
DLBCL gástrico, qualquer estágioR-CHOP por 6 ciclos, com ou sem radioterapia. Erradicar H. pylori se presente, sem substituir a imunoquimioterapia.
Parte V
Checklist de domínio
Marque apenas o que conseguir explicar em voz alta, sem consultar. Qualquer item não marcado indica onde retomar a revisão.
Parte VI
Fontes
Os textos-referência de cirurgia definem o gabarito esperado em prova; as fontes complementares sustentam as nuances dos comentários.
Sabiston Textbook of Surgery, 21ª ed.Capítulo sobre Estômago, seção Gastric Lymphoma. Fonte principal e a mais provável base da questão original.