Sábado, 22h40, pronto-socorro de Sorocaba
Rafael, 21 anos, pilar de rúgbi, destro
Entra segurando o braço direito em adução e rotação interna, recusando qualquer movimento. O contorno deltoideo sumiu — há um degrau abaixo do acrômio e um volume palpável abaixo do processo coracoide. Ele conta que travou um tackle com o braço em abdução e rotação externa e sentiu "o ombro sair". É a terceira vez em quatorze meses. Nas duas anteriores, um amigo do time reduziu no campo mesmo.
Antes de qualquer radiografia você faz o que ninguém pode deixar de fazer: testa a sensibilidade na face lateral do ombro e a contração deltoidea. Nervo axilar íntegro. Pulso radial presente, mão quente.
Você reduz sob sedação. E aí começa o problema de verdade — porque o que Rafael tem não é uma luxação. É uma doença de instabilidade, e cada episódio novo vai consumindo osso que ninguém devolve.
A pergunta que define esta aula não é "como reduzo?". É: o que sobrou de osso, e o que isso obriga você a fazer?
A instabilidade anterior tem incidência de 23,9 a 26,9 por 100.000 pessoas-ano, com pico em homens de 20 a 29 anos. Em atletas de contato com menos de 22 anos, mais de 70% recidivam após o primeiro episódio. Rafael está exatamente no centro dessa curva — e cada luxação recorrente aumenta o risco de artropatia: Hovelius mostrou artrose radiográfica em mais de 20% dos pacientes com luxações recorrentes no seguimento longo.
Guarde a imagem da cabeça umeral batendo na borda ântero-inferior da glenoide como quem bate um canto de mesa toda vez que passa. Não é figura de linguagem: é exatamente o mecanismo pelo qual esse ombro perde osso dos dois lados — glenoide e cabeça umeral. É a perda óssea bipolar, e ela é o eixo de tudo o que vem a seguir.
Por que este ombro sai, e o do seu vizinho não
A glenoide cobre cerca de um terço da cabeça umeral. Nenhuma outra articulação do corpo aposta tanto em tão pouca contenção óssea — a troca é amplitude por estabilidade, e a conta é paga por tecido mole. Cada estrutura abaixo tem uma consequência cirúrgica quando falha. Clique nelas.
Estabilidade é um sistema, não uma peça
Quatro camadas trabalham juntas: congruência óssea e versão da glenoide; o lábio, que aprofunda a concavidade; o complexo cápsulo-ligamentar, que só entra em ação nos extremos; e a compressão-concavidade gerada pelo manguito, que é o que segura o ombro no meio do arco. Some a pressão intra-articular negativa e a propriocepção. Clique em cada estrutura do desenho para ver o que acontece quando ela falha.
Compressão-concavidade: o conceito que explica por que 2 mm importam
Lippitt e Matsen descreveram em 1993 o mecanismo que sustenta o ombro no meio da amplitude, onde nenhum ligamento está tenso: o manguito rotador comprime a cabeça umeral contra uma superfície côncava, e a resistência à translação depende diretamente da profundidade dessa concavidade. Isso se mede pela razão de estabilidade — a força tangencial máxima que a articulação suporta dividida pela força compressiva aplicada.
A consequência é brutal e pouco intuitiva: quando você retira osso da borda anterior, não está apenas encurtando o arco de contenção. Está achatando a tigela. Estudos em cadáver mostram que defeitos de apenas 2 mm (cerca de 7,5% do diâmetro) já comprometem criticamente o mecanismo de compressão-concavidade. E revisões recentes acrescentam um dado que ainda não está na maioria dos algoritmos: glenoides constitucionalmente rasas — de baixo índice de concavidade — resistem menos à translação mesmo sem erosão significativa, e falham mais após reparo isolado.
A pergunta que separa o R1 do R3
"Quanto de osso ele perdeu?" é a pergunta do R1. A do R3 é: "quanto de concavidade ele ainda tem, e o meu reparo devolve alguma?" Um Bankart artroscópico restaura a contenção do lábio, mas não devolve osso nem profundidade. Um Latarjet devolve arco ósseo, concavidade e ainda um freio dinâmico. É por isso que os dois procedimentos não competem no mesmo terreno.
Some a isso a banda anterior do ligamento glenoumeral inferior: o restritor primário à translação anterior justamente na posição de risco — 90° de abdução com rotação externa, a posição do tackle de Rafael, do saque no vôlei, do braço que trava numa queda. É por isso que a lesão de Bankart tem endereço fixo: entre 3 e 6 horas da glenoide direita.
O que exatamente rompeu ali dentro
"Lesão de Bankart" virou sinônimo de instabilidade anterior, e essa simplificação já custou muitas recidivas. O que você encontra na artroscopia é um espectro — e cada variante muda a técnica, a dificuldade e o prognóstico. Repare em um detalhe que organiza tudo: o que aconteceu com o periósteo escapular.
Consequência cirúrgica
Do lado umeral, a lesão de Hill-Sachs — fratura por impacção da porção póstero-lateral da cabeça, descrita por Hill e Sachs em 1940. Está presente na grande maioria das luxações anteriores e é praticamente universal nas recidivantes. Por décadas foi tratada como achado; hoje é metade da equação, e a seção 06 mostra por quê.
Sugaya, 2003 — o estudo que mudou o olhar
Tomografia tridimensional em 100 ombros com instabilidade anterior recidivante: 50% tinham Bankart ósseo e 40% erosão da borda — ou seja, 90% tinham alguma alteração óssea da glenoide. A partir daí ficou impossível continuar chamando isso de "lesão de tecido mole".
O exame que você faz de olhos fechados
Rafael volta ao ambulatório três semanas depois, reduzido, com o braço solto. Agora o exame vale mais que a ressonância — porque ele te diz a direção, o grau e, sobretudo, se existe hiperfrouxidão de base, que é um dos itens de maior peso na decisão cirúrgica.
Apreensão anterior
Relocação de Jobe
Surpresa / release
Load and shift
Sinal do sulco
Hiperfrouxidão — Beighton e Gagey
Nervo axilar — nunca opcional
Instabilidade voluntária
Três desvios de rota que o exame evita
1. Luxação posterior mal diagnosticada — pense nela após crise convulsiva, eletrocussão ou trauma com braço em adução/rotação interna, e peça o perfil axilar. 2. Paciente acima de 40 anos com fraqueza persistente após redução: suspeite de lesão do manguito rotador mais que de instabilidade recorrente. 3. Frouxidão bilateral simétrica e assintomática do outro lado: você está diante de hiperfrouxidão constitucional, e o planejamento muda.
Contar o osso: da radiografia ao círculo de melhor ajuste
A radiografia inicial é obrigatória, mas você vai decidir a cirurgia numa tomografia. A sequência útil é sempre a mesma.
Radiografias: três incidências que resolvem quase tudo
O AP verdadeiro (Grashey) mostra a congruência glenoumeral real; o perfil escapular em Y confirma a direção; e o axilar — ou o Velpeau, quando o paciente não abduz — é o que documenta luxação e permite ver a borda anterior. A partir daí, incidências dedicadas: West Point para o Bankart ósseo, Stryker notch para o Hill-Sachs, Garth (oblíqua apical) para os dois, e o perfil de Bernageau, da escola francesa, que mostra o contorno da glenoide de perfil e é a base radiográfica do item "perda de contorno glenoidal" do ISIS.
Tomografia 3D com subtração da cabeça umeral: o padrão
A vista en face da glenoide, com a cabeça umeral digitalmente removida, é o exame que define conduta. Sobre ela você traça o círculo de melhor ajuste sobre os dois terços inferiores da glenoide — que são notavelmente circulares num ombro normal — e mede o que falta. A medida por área (área do defeito ÷ área do círculo) tem confiabilidade superior à linear e é a recomendada; a linear (largura do defeito ÷ diâmetro do círculo) é mais rápida, mais difundida e não é intercambiável com a de área. Ressonância volumétrica 3D (sequências tipo VIBE) vem sendo postulada como equivalente à TC 3D, com a vantagem de eliminar radiação e avaliar tecido mole no mesmo exame.
Note a divergência entre as duas colunas conforme você aumenta o defeito. Os limiares clássicos da literatura foram descritos majoritariamente com o método linear; aplicá-los a uma medida de área — ou o contrário — é um erro silencioso que muda indicação cirúrgica.
Os limiares — e por que eles vêm caindo
A geração de Burkhart e De Beer trabalhava com a pera invertida: perda em torno de 25% transformava a glenoide de oval em pera e condenava o reparo isolado. Itoi definiu experimentalmente algo próximo de 21%. Esse era o limiar crítico. Depois veio Shaha, em 2015, com o conceito de perda subcrítica: pacientes com apenas 13,5% de perda já apresentavam escores WOSI inaceitáveis após Bankart artroscópico, mesmo sem recidivar. Revisões contemporâneas trabalham com uma faixa de risco a partir de 10–15%, e não com um número único.
O que mudou não foi o osso — foi a definição de sucesso. Enquanto "sucesso" era "não voltou a luxar", 25% bastava. Quando passou a ser "voltou ao esporte no mesmo nível, sem apreensão", o limiar desabou.
Glenoid track: parar de medir dois defeitos e passar a medir a relação
Aqui está a virada conceitual mais importante das últimas duas décadas. Até 2007, glenoide e Hill-Sachs eram medidos separadamente e o cirurgião julgava "no olho" se a lesão engatava. Yamamoto e Itoi propuseram o contrário: o que importa é onde a zona de contato entre glenoide e cabeça umeral passa quando o braço vai para abdução e rotação externa máximas.
Essa faixa de contato é o glenoid track, e ocupa aproximadamente 83% da largura da glenoide. Se a lesão de Hill-Sachs cabe dentro dessa faixa, a cabeça rola sobre osso íntegro: lesão on-track. Se a lesão ultrapassa a margem medial da faixa, a borda da glenoide cai dentro do defeito e a cabeça escapa: lesão off-track.
As três contas
GT = 0,83 × D − d · largura do track, onde D é o diâmetro da glenoide
inferior e d a largura do defeito ósseo anterior.
HSI (Hill-Sachs interval) = largura da lesão de Hill-Sachs somada à ponte
óssea entre a lesão e a margem medial da inserção do manguito.
DTD = GT − HSI — a "distância até a luxação": quanto de margem ainda existe.
Off-track quando HSI > GT, ou seja, DTD negativa.
E existe uma camada mais fina que a dicotomia. Uma lesão pode ser tecnicamente on-track e ainda assim estar a um milímetro do abismo. Daí o conceito de near-track: DTD < 8 mm identifica lesões formalmente on-track com taxa de falha elevada após reparo isolado, e séries mostram aumento exponencial de falha com DTD ≤ 10 mm. É o dado que justifica associar remplissage a um Bankart que "passaria" no critério binário.
Simulador de engate
Os mesmos três números da calculadora acima desenham este corte axial. Leve o braço para rotação externa e observe a borda anterior da glenoide percorrer a superfície da cabeça: enquanto ela terminar o trajeto sobre osso íntegro, o ombro fica reduzido. Se o trajeto acabar dentro da cratera, você acabou de ver a luxação acontecer.
Duas armadilhas de medição
O HSI não é a largura da lesão. Você mede da borda medial da lesão até a margem medial da inserção do manguito, incluindo a ponte de osso íntegro entre as duas. Medir só a cratera subestima sistematicamente e transforma off-track em on-track no laudo. D vem do círculo de melhor ajuste, não do maior diâmetro medido a olho na axial — e num ombro com erosão avançada pode ser necessário usar o lado contralateral como referência.
Vale um alerta de honestidade intelectual: a acurácia do conceito para prever engate real ainda é objeto de estudo, e a reprodutibilidade das medidas 2D é apenas moderada entre observadores. O glenoid track é um excelente instrumento de decisão — não é um oráculo. Ele entra na conta junto com perfil do paciente, número de episódios e tempo de doença.
ISIS: o paciente também é um fator de risco
Balg e Boileau publicaram em 2007 o Instability Severity Index Score a partir de uma pergunta simples: quem falha depois de um Bankart artroscópico bem feito? A resposta não estava só na artroscopia. Estava na idade, no esporte, na frouxidão e em duas linhas de radiografia simples.
pós-Bankart artroscópico
Na série original, escore > 6 associou-se a cerca de 70% de recidiva após reparo artroscópico — motivo pelo qual esse ponto de corte migrou para os algoritmos como gatilho de procedimento ósseo. Lembre que os dois itens radiográficos são grosseiros de propósito: o ISIS foi desenhado para funcionar com radiografia simples, e não substitui a TC 3D no planejamento.
O primeiro episódio: a decisão mais subestimada
Volte ao plantão. Não é o Rafael desta vez — é o irmão dele, Vitor, 19 anos, primeira luxação traumática, também jogador. Você reduz. E agora?
A redução
Analgesia adequada primeiro; a manobra vem depois, e a manobra correta é aquela que exige o mínimo de força. Tração-contratração permanece o cavalo de batalha; Stimson (decúbito ventral com peso pendente) e a manobra de rotação externa são elegantes por dispensarem força; FARES (rotação externa com oscilação vertical durante abdução) e Cunningham (massagem do bíceps com o paciente sentado, dependente de relaxamento) têm boa taxa de sucesso com pouca ou nenhuma sedação. Kocher clássica é a que mais se associa a complicações iatrogênicas — fratura do colo umeral, lesão neurovascular — e não deve ser sua primeira escolha. Radiografia pós-redução e reexame neurológico documentado sempre.
Imobilizar como, e por quanto tempo
Aqui a evidência é menos heroica do que gostaríamos. A duração da tipoia não altera de forma consistente a taxa de recidiva — uma a três semanas, guiadas por conforto, é prática razoável. A imobilização em rotação externa, proposta por Itoi com a lógica de que a rotação externa reaproxima o lábio da borda glenoidal, reduziu recidiva em metanálises, mas esbarra em adesão ruim ao dispositivo. Não é erro usar; também não é erro não usar.
Operar de imediato?
A idade domina o prognóstico. Em adolescentes e adultos jovens de contato, a história natural é ruim o suficiente para que a cirurgia precoce mude o desfecho de forma dramática:
| Evidência | Desenho | Conservador | Estabilização precoce |
|---|---|---|---|
| Bottoni et al. | ECR, jovens atletas militares | 75% de recidiva | 11,1% de recidiva |
| Hu et al. | Metanálise, primeiro episódio | 53% de reluxação · 66,0% de retorno ao esporte | 7,5% de reluxação · 83,5% de retorno ao esporte |
| Hu et al. (necessidade de cirurgia posterior) | Metanálise | 37,8% | 5,6% |
Metanálise em rede recente reforça a mesma direção em menores de 40 anos: o tratamento cirúrgico é superior ao conservador para prevenir recidiva após o primeiro episódio. Isso não significa operar todo mundo. Significa que, num atleta de contato jovem, "tratar conservadoramente e ver o que acontece" é uma decisão ativa com risco quantificável de mais de metade dos pacientes voltarem a luxar — e cada recidiva subtrai osso.
Como eu diria isso ao Vitor
"Você tem 19 anos e joga rúgbi. Se a gente tratar sem cirurgia, o mais provável — mais de metade das vezes — é que o ombro volte a sair. Cada vez que sai, você perde um pouco de osso da borda, e a cirurgia que você vai precisar lá na frente é maior do que a de hoje. Operar agora não é pressa: é escolher a operação menor."
O algoritmo, respondido pelo paciente que está à sua frente
Responda as seis perguntas com os dados do seu paciente. A recomendação abaixo segue a lógica contemporânea de perda óssea bipolar — não é protocolo institucional, e não substitui o julgamento de quem opera.
O que cada procedimento realmente faz
Pare de decorar indicações e entenda o mecanismo: cada operação resolve um problema diferente, e é por isso que trocá-las de lugar falha.
Reparo de Bankart artroscópico
Reinsere o complexo cápsulo-labral na borda glenoidal, restaurando a barreira anterior e parte da profundidade da concavidade — e retensiona a banda anterior do LGUI. Não devolve osso. Excelente em paciente de baixo risco, perda óssea mínima, lesão on-track. Nós com fio versus técnica sem nó: revisão sistemática de 720 pacientes não encontrou diferença em desfechos funcionais, dor residual ou complicações — a técnica sem nó apenas economiza tempo cirúrgico.
Remplissage
Tenodese do infraespinal (e da cápsula posterior) dentro do defeito de Hill-Sachs, "preenchendo" a cratera e convertendo-a em lesão extra-articular. O efeito é duplo: elimina o engate e cria um freio póstero-lateral. O ECR de Woodmass e MacDonald (n = 108, seguimento médio de ~4 anos) é o dado que você precisa citar: instabilidade recorrente 10% com remplissage versus 30% sem; reluxação 8% versus 22%. O custo é uma perda modesta de rotação externa, geralmente sem impacto funcional relevante.
Latarjet
Michel Latarjet descreveu em 1954 a transferência do processo coracoide para a borda ântero-inferior da glenoide. Patte sistematizou o triplo efeito que explica a sua eficácia notável:
- Efeito ósseo — o enxerto alarga o arco glenoidal e restaura a concavidade.
- Efeito de tirante (sling) — o tendão conjunto passa através da divisão do subescapular e, em abdução/rotação externa, tensiona e empurra a cabeça posteriormente. É um estabilizador dinâmico, ativo exatamente na posição de risco.
- Efeito capsular — o coto do ligamento coracoacromial é usado para reparar a cápsula, recriando uma barreira anterior.
A linha tracejada prolonga o plano da superfície articular da glenoide: é contra ela que se julga o enxerto.
Resultados: recidiva de 1–3%, retorno ao esporte em torno de 88% (72,6% ao nível prévio) — mas complicações em cerca de 15%: lesão neurológica (axilar e musculocutâneo), infecção, pseudartrose, problemas de implante, e artrose tardia se o enxerto ficar lateralizado. Fixação com botão/sutura mostra menos reabsorção do enxerto (10,1–18,5%) que parafusos (25,2–47,6%) e menos complicações de material, com resistência biomecânica equivalente.
Enxertos livres e alternativas
Para defeitos grandes ou revisões: crista ilíaca autóloga (Eden-Hybinette), aloenxerto de tíbia distal — que oferece superfície condral congruente, mas com pior integração: uma comparação mostrou consolidação de apenas 20% no grupo aloenxerto, com osteólise em 100% dos casos, contra 80–90% de consolidação com autoenxerto e Latarjet. A clavícula distal autóloga cobre defeitos médios. A DAS (estabilização anterior dinâmica, com transferência da porção longa do bíceps pela divisão do subescapular) reproduz o efeito sling preservando o coracoide, com séries iniciais promissoras. A ASA (augmentação artroscópica do subescapular) é opção em hiperfrouxidão constitucional.
| Procedimento | Mecanismo | Indicação típica | Recidiva | Preço a pagar |
|---|---|---|---|---|
| Bankart artroscópico | Barreira labral + retensionamento capsular | <13,5% de perda, on-track, ISIS ≤ 3, sem contato | ~5–10% | Falha precoce se o osso foi subestimado |
| Bankart + remplissage | Converte Hill-Sachs em extra-articular + freio posterior | Near-track / off-track com perda glenoidal subcrítica | ~8–10% | Discreta perda de rotação externa |
| Latarjet | Osso + sling do tendão conjunto + reparo capsular | >20% de perda, ISIS > 6, atleta de contato, revisão | ~1–3% | ~15% de complicações; curva de aprendizado; risco neurológico |
| Bloco ósseo livre | Reconstrução do arco com autoenxerto ou aloenxerto | Defeitos extensos, falha de Latarjet, coracoide indisponível | comparável ao Latarjet (autoenxerto) | Morbidade doadora; aloenxerto com consolidação ruim |
| DAS (bíceps) | Sling dinâmico preservando o coracoide | Perda <20% com Hill-Sachs engatante | séries iniciais ~7% | Evidência ainda de curto prazo |
Onde as coisas dão errado
HAGL não diagnosticada
Osso subestimado
Posição do enxerto no Latarjet
Nervos na via deltopeitoral
Instabilidade multidirecional tratada como anterior
Artropatia da instabilidade
Depois da sala: reabilitar e devolver ao esporte
O ombro estabilizado não volta ao rúgbi pelo calendário; volta por critérios. A sequência de princípios que atravessa praticamente todos os protocolos é a mesma, mudando apenas o ritmo.
Tipoia, mobilização passiva dentro de limites seguros — no pós-Latarjet, evitar rotação externa forçada enquanto o subescapular cicatriza. Controle de dor e edema, movimentação de cotovelo, punho e mão desde o primeiro dia.
Ganho progressivo de rotação externa e elevação, isometria de manguito e periescapular. Após remplissage, aceite uma recuperação um pouco mais lenta da rotação externa — é esperada.
Fortalecimento concêntrico e excêntrico de manguito, ritmo escapuloumeral, cadeia cinética completa incluindo quadril e tronco. Propriocepção em cadeia fechada e depois aberta.
Pliometria, aceleração e desaceleração, retorno ao gesto específico sem contato.
Liberação por critérios: simetria de força ≥ 90% do lado contralateral, amplitude funcional, ausência de apreensão em posição de risco, testes funcionais de membro superior e confiança psicológica. Consolidação do enxerto documentada quando houve bloco ósseo.
Cem anos para entender um ombro
O primeiro tratamento registrado da luxação recidivante: cauterização da axila para retrair a cápsula inferior. Errado no método, certo no alvo — ele já tinha entendido que o problema estava embaixo e na frente.
Georg Perthes descreve a reinserção da cápsula à borda glenoidal — a ideia certa, quinze anos antes de o mundo estar pronto para ouvi-la.
Arthur Sydney Bankart, em Londres, populariza a avulsão cápsulo-labral como "the essential lesion" e o reparo que leva seu nome. Por sete décadas, essa foi a história completa.
Dois radiologistas caracterizam a fratura por impacção póstero-lateral. Levaria mais 67 anos para alguém explicar quando ela realmente importa.
Michel Latarjet, em Lyon, publica a transferência coracoide. Patte descreveria depois o triplo efeito que explica por que ela funciona tão bem em ombros que nada mais segura.
A estabilidade do meio do arco ganha um mecanismo quantificável — e a profundidade da glenoide entra definitivamente na conversa.
A observação de que reparos artroscópicos falhavam sistematicamente em glenoides erodidas e Hill-Sachs engatantes. O osso volta ao centro do debate.
Em vez de medir dois defeitos, medir a relação entre eles. É a base de todo algoritmo contemporâneo. No mesmo ano, Balg e Boileau publicam o ISIS.
O conceito ganha nome clínico, fórmula aplicável e entra na rotina do planejamento por TC.
Woodmass, MacDonald e colaboradores publicam o seguimento de médio prazo do ECR: menos recidiva com remplissage associado ao Bankart em perda óssea subcrítica.
Oito decisões
Sem consultar as seções acima. Cada questão tem comentário — e o comentário é onde está o aprendizado.
Onde continuar — e a pergunta que fica
Rafael, do primeiro parágrafo: 21 anos, pilar de rúgbi, três luxações em quatorze meses. A TC 3D mostra 16% de perda glenoidal e um Hill-Sachs com HSI de 20 mm sobre uma glenoide de 27 mm de diâmetro. Rode a calculadora da estação 05 com esses números antes de continuar lendo — e depois responda: o que você faria, e o que você diria a ele sobre voltar a jogar na próxima temporada?
Fica também a pergunta que a literatura ainda não fechou: se a perda subcrítica já piora desfecho funcional, e se o Latarjet tem 1–3% de recidiva contra 15% de complicações — onde exatamente está o ponto em que a segurança de um bloco ósseo compra mais do que custa num paciente de 21 anos que ainda vai viver sessenta com esse ombro?
Latarjet passo a passo
Da via deltopeitoral à fixação: identificação do musculocutâneo, osteotomia coracoide, divisão do subescapular e os erros de posicionamento do enxerto.
Instabilidade posterior e multidirecional
O outro lado da moeda: lesão reversa, glenoide retrovertida, e por que a reabilitação vem antes da artroscopia.
Luxação no paciente acima de 40 anos
Manguito rotador, nervo axilar e fratura — a mesma luxação com uma história natural completamente diferente.
Revisão de estabilização falha
Por que falhou, como investigar, e o que sobra quando o coracoide já foi usado.
Referências
- Kim et al. Up-to-date concepts and procedures in shoulder instability: a comprehensive review. Clinics in Shoulder and Elbow, 2025. — cisejournal.org
- Management of bone loss in anterior shoulder instability. The Bone & Joint Journal, 2024. — boneandjoint.org.uk
- ISAKOS Global Link. Management of Recurrent Anterior Shoulder Instability: A Therapeutic Algorithm Based on Bipolar Bone Loss, 2025. — isakos.com
- Herman et al. Bipolar bone loss and distance to dislocation. Annals of Joint. — aoj.amegroups.org
- Woodmass, McRae, Lapner, … MacDonald. Arthroscopic Bankart Repair With Remplissage… Randomized Controlled Trial. Am J Sports Med, 2024. — PubMed 38874505
- Mazzocca et al. How to Measure Glenoid Track and Hill-Sachs Interval and Distance to Dislocation. Video Journal of Sports Medicine, 2025. — journals.sagepub.com
- Magee et al. Reliability in 2-Dimensional On-track/Off-track Measurements. Orthop J Sports Med, 2025. — journals.sagepub.com
- Lo, Nonweiler, Woolfrey, Litchfield, Kirkley. An Evaluation of the Apprehension, Relocation, and Surprise Tests. Am J Sports Med, 2004. — PubMed 14977651
- Immobilisation in external rotation after first-time traumatic anterior shoulder instability: a meta-analysis. J Clin Orthop Trauma / ScienceDirect. — sciencedirect.com
- Surgical Treatment Is Superior to Conservative Options in Preventing Recurrence of First-Time Anterior Shoulder Dislocation in Adolescents and Adults Under 40: Systematic Review and Network Meta-analysis. Arthroscopy, 2025. — sciencedirect.com
- The Glenoid Track Concept: On-Track and Off-Track — A Narrative Review. Osteology, 2022. — doi.org
- Anterior Shoulder Instability — revisão clínica e incidências radiográficas. OrthoFixar. — orthofixar.com
Material de estudo para residentes de ortopedia. Números e limiares refletem a literatura citada e evoluem; conduta individual permanece decisão do cirurgião responsável, à luz do protocolo do seu serviço.