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ENARE R+ CIRURGIA
Aula-atlas interativa · ENARE R+ Cirurgia Geral

Tumores neuroendócrinos, do Ki-67 à mesa

Nove instrumentos que você manipula antes de ler qualquer parágrafo. A lâmina que define o grau, o receptor que faz o tumor brilhar, a régua de cada órgão, o shunt que cria a síndrome carcinoide, a crise na indução anestésica — e a forja com as variações que a banca aplica.

Comece pelo capítulo 00. Ele traz o vocabulário inteiro — cada sigla, cada exame, cada droga — explicado em duas frases: o que é e por que importa. Se qualquer palavra dos capítulos seguintes travar a leitura, ela está lá.

CAPÍTULO 00Antes de começar: o vocabulário do caso

Todo termo que aparece nos capítulos seguintes está aqui, com o que é e por que ele muda a conduta. Leia uma vez de cima a baixo; depois volte só ao cartão que travar.

Célula neuroendócrina

Célula espalhada pelo tubo digestivo, pâncreas e pulmão que se comporta ao mesmo tempo como nervo (guarda grânulos e os libera sob estímulo) e como glândula (o que ela libera é hormônio). Não formam um órgão: ficam soltas entre as células comuns da mucosa, por isso o nome antigo era «sistema APUD».

Por que importa: um tumor feito dessas células pode secretar hormônio — e é o hormônio, não o tamanho, que costuma trazer o paciente ao consultório.

TNE, TNE-G3 e NEC

TNE (tumor neuroendócrino) é o tumor bem diferenciado: as células ainda parecem células neuroendócrinas e se organizam em ninhos e trabéculas. NEC (carcinoma neuroendócrino) é o pouco diferenciado: lençóis de células feias, necrose, cara de câncer de pequenas células do pulmão. TNE-G3 é o bem diferenciado que prolifera rápido — existe desde 2017 e não é NEC.

Por que importa: TNE se opera e recebe análogo de somatostatina; NEC recebe platina + etoposídeo. Confundir os dois é o erro mais caro do tema.

Ki-67

Proteína que só existe no núcleo de célula que está no ciclo de divisão. O patologista marca com anticorpo (a marcação fica marrom) e conta a porcentagem de núcleos marrons em 500 a 2.000 células. Zero por cento = tecido parado; 80% = tecido em fúria.

Por que importa: é o número que separa G1 (< 3%), G2 (3–20%) e G3 (> 20%). Praticamente toda questão de conduta em TNE começa por ele.

Índice mitótico

Quantas figuras de mitose o patologista conta em 2 mm² de tumor (equivale a cerca de 10 campos de grande aumento nos microscópios antigos). É o mesmo fenômeno que o Ki-67, medido a olho em vez de por anticorpo.

Por que importa: grau é dado pelo pior dos dois. Se Ki-67 diz G1 e mitoses dizem G2, o tumor é G2.

Cromogranina A

Proteína que fica dentro do grânulo secretor junto com o hormônio; quando o grânulo é liberado, ela vai junto para o sangue. Serve como marcador geral de «tem massa neuroendócrina secretando».

Por que importa: sobe também com inibidor de bomba de prótons, insuficiência renal e gastrite atrófica. Uma cromogranina alta em quem toma omeprazol não vale nada — a banca adora esse falso-positivo.

5-HIAA urinário de 24 h

Ácido 5-hidroxi-indolacético: o produto final da degradação da serotonina, eliminado na urina. Coleta-se a urina de um dia inteiro e mede-se quanto de serotonina o corpo processou nesse período.

Por que importa: é o exame da síndrome carcinoide. Falseia para cima com banana, abacaxi, abacate, nozes, tomate e com paracetamol — a dieta de 48 h antes é parte da prova.

Receptor de somatostatina (SSTR)

Antena na membrana da célula neuroendócrina. A somatostatina do próprio corpo se encaixa nela e manda a célula parar de secretar. Existem cinco subtipos; o SSTR2 é o mais abundante nos TNE bem diferenciados.

Por que importa: essa antena é ao mesmo tempo o alvo do remédio (octreotide), o farol do exame de imagem (DOTATATE) e o endereço da radioterapia interna (PRRT).

PET com 68Ga-DOTATATE

Exame em que se acopla um átomo radioativo de gálio-68 a uma molécula parecida com a somatostatina. Ela circula, gruda nos receptores do tumor e o PET fotografa onde brilhou.

Por que importa: substituiu o Octreoscan (cintilografia com octreotide-índio) por ser bem mais sensível. Encontra o primário oculto e as metástases que a tomografia não vê.

PET com 18F-FDG

Glicose marcada. Brilha onde há consumo alto de açúcar, ou seja, em tumor agressivo e rápido.

Por que importa: o TNE bem diferenciado brilha no DOTATATE e não no FDG; o NEC faz o contrário. É o «fenômeno flip-flop» do capítulo 02.

Octreotide e lanreotida

Cópias sintéticas da somatostatina, feitas para durar horas (octreotide subcutâneo) ou um mês inteiro (formulações LAR/autogel, intramusculares ou subcutâneas profundas). Chamam-se «análogos de somatostatina» (SSA).

Por que importa: fazem três coisas ao mesmo tempo — cortam o sintoma hormonal, seguram o crescimento do tumor e resolvem a crise carcinoide na mesa.

Síndrome carcinoide

Conjunto de rubor facial, diarreia aquosa e broncoespasmo causado por serotonina e outras substâncias que caíram na circulação sistêmica sem passar pelo filtro do fígado.

Por que importa: no tumor de intestino delgado ela só existe se houver metástase hepática. Sem fígado comprometido, não há síndrome — e essa frase resolve questão sozinha.

Crise carcinoide

Descarga maciça dos mediadores durante a indução anestésica, a manipulação do tumor ou a embolização hepática. Cursa com rubor intenso, broncoespasmo e colapso pressórico.

Por que importa: trata-se com octreotide em bolus intravenoso. Adrenalina e outros vasopressores adrenérgicos pioram o quadro porque estimulam a liberação de mais mediador.

Doença carcinoide do coração (Hedinger)

Placas de fibrose que se depositam no endocárdio das câmaras direitas por ação crônica da serotonina, endurecendo valva tricúspide e pulmonar.

Por que importa: é sempre à direita, porque o pulmão degrada a serotonina antes que ela chegue ao coração esquerdo. Insuficiência tricúspide + estenose pulmonar em paciente com rubor é o combo da questão.

Reação desmoplásica mesentérica

Fibrose densa e retrátil que o tumor de intestino delgado provoca no mesentério em volta dos linfonodos comprometidos, puxando as alças como um leque fechado.

Por que importa: é ela — e não o tumor primário, quase sempre pequeno — que causa obstrução, isquemia crônica («angina intestinal») e a dificuldade técnica da operação.

Enucleação

Retirar apenas o nódulo do pâncreas, descascando-o do parênquima sadio, sem levar segmento nem baço.

Por que importa: é a operação do insulinoma pequeno, periférico e distante do ducto principal. Se o nódulo encosta no ducto de Wirsung, enuclear vira fístula pancreática.

Triângulo do gastrinoma (de Passaro)

Região limitada pela junção do ducto cístico com o colédoco (vértice superior), pela junção da segunda com a terceira porção do duodeno (vértice inferior) e pela junção do colo com o corpo do pâncreas (vértice medial).

Por que importa: 80 a 90% dos gastrinomas estão dentro dele. Quem não abre o duodeno nessa área deixa o tumor no paciente.

NEM-1 (menina)

Síndrome hereditária autossômica dominante por mutação do gene MEN1 no cromossomo 11q13, que codifica a proteína menina. Dá tumor em paratireoide, pâncreas/duodeno e hipófise — os «3 Ps».

Por que importa: muda a operação. O paciente tem tumores múltiplos, opera-se o hiperparatireoidismo antes do gastrinoma, e o critério de tamanho para operar o pâncreas é mais generoso.

PRRT (177Lu-DOTATATE)

Terapia com radionuclídeo ligado a receptor de peptídeo: a mesma molécula do PET, mas carregando lutécio-177, que emite radiação beta e irradia o tumor por dentro.

Por que importa: é a linha seguinte ao análogo de somatostatina no TNE de intestino médio que progride, firmada pelo ensaio NETTER-1.

Citorredução hepática

Retirar ou destruir (com ressecção, radiofrequência ou micro-ondas) a maior parte possível da carga tumoral do fígado, mesmo sabendo que sobrará doença.

Por que importa: no TNE — e quase só nele — tirar «quase tudo» melhora sintoma e sobrevida. O limiar clássico era 90%; hoje se aceita a partir de 70%.

Gastrina e pH gástrico

Gastrina é o hormônio que manda o estômago produzir ácido; é fabricada pelas células G do antro e freada pelo próprio ácido. pH gástrico é a medida direta desse ácido.

Por que importa: gastrina alta com estômago ácido (pH < 2) é tumor produzindo gastrina. Gastrina alta com estômago sem ácido é resposta normal a omeprazol ou a gastrite atrófica. O mesmo número, dois diagnósticos opostos.

Uma frase para organizar tudo o que vem

Um tumor neuroendócrino é uma célula que perdeu o freio para se multiplicar mas não perdeu a profissão: ela continua fabricando e guardando hormônio em grânulos. Todo o tema se organiza em torno dessas duas metades. A metade «multiplicação» é medida pelo Ki-67 e decide se você opera ou quimioterapia; a metade «profissão» é medida pelos hormônios e pelos receptores e decide o que o paciente sente, como você encontra o tumor e com que remédio o segura.

Guarde a ordem em que o cirurgião responde às perguntas, porque é a ordem dos capítulos: primeiro qual é o grau, depois onde está e que tamanho tem, depois se secreta alguma coisa e por fim o que precisa estar correndo na veia antes de você tocar no tumor.

Guarde istoBem diferenciado (TNE) é doença de cirurgião e de análogo de somatostatina, com sobrevida em anos. Pouco diferenciado (NEC) é doença de oncologista e de platina, com sobrevida em meses. O laudo de patologia, não a tomografia, é quem escolhe entre os dois mundos.

CAPÍTULO 01A lâmina que decide tudo

Antes de qualquer tomografia, o laudo de patologia separa o paciente em dois mundos. Aqui você faz esse laudo com as próprias mãos: mude a arquitetura, a marcação do Ki-67 e a contagem de mitoses e veja o veredito migrar.

Como usar este instrumento
  1. Escolha a arquitetura: bem diferenciada desenha ninhos e trabéculas de células iguais entre si; pouco diferenciada desenha lençóis de células desiguais com áreas de necrose.
  2. Arraste o Ki-67. Cada núcleo marrom é uma célula que o anticorpo pegou em divisão; os azuis estão parados. Observe a porcentagem de marrons subir junto com o número.
  3. Arraste as mitoses. As figuras escuras em forma de estrela que aparecem no campo são as mitoses contadas em 2 mm². Repare no veredito à direita: ele obedece sempre ao pior dos dois números.
Exercício: deixe o Ki-67 em 2% e suba as mitoses para 8. O veredito não fica em G1 — vira G2, mesmo com o Ki-67 «de G1». Agora ponha Ki-67 em 40% e troque a arquitetura de bem para pouco diferenciada sem mexer em mais nada: o mesmo 40% deixa de ser TNE-G3 (cirurgia + análogo) e vira NEC (platina + etoposídeo). O número não mudou; o prognóstico e o tratamento mudaram inteiros.
Campo simulado, imuno-histoquímica para Ki-67 com contracoloração de hematoxilina. Núcleo marrom = célula em ciclo (positiva); núcleo azul = célula parada. As estrelas escuras são figuras de mitose. Barra = 100 µm.

Arquitetura / diferenciação

Índice Ki-672%
Mitoses por 2 mm²1

Cenários de prova

Imuno que confirma a linhagemSinaptofisina e cromogranina A positivas dizem «isto é neuroendócrino». Elas não graduam nada — quem gradua é o Ki-67. No NEC a cromogranina costuma ser fraca ou focal, e a sinaptofisina é a que sustenta o diagnóstico.

O que o patologista está realmente medindo

Uma célula que se divide precisa montar toda a maquinaria de cópia do DNA, e o Ki-67 é uma das peças dessa maquinaria: ele só existe no núcleo enquanto a célula está dentro do ciclo celular, e some assim que ela repousa. Marcar o Ki-67 com anticorpo é, portanto, tirar uma fotografia instantânea de quantas células daquele tumor estavam trabalhando no momento em que a peça foi fixada. É um censo, não uma velocidade: 3% significa que três em cada cem células estavam em ciclo naquele instante.

A contagem de mitoses mede a mesma coisa por outro caminho. Em vez de anticorpo, o patologista procura a olho as células flagradas no ato — cromossomos condensados, sem membrana nuclear — e conta quantas encontra em 2 mm² de tumor. Antes se dizia «dez campos de grande aumento», mas a área do campo varia de microscópio para microscópio, e por isso a padronização atual é em milímetros quadrados.

Os dois números medem proliferação, e às vezes discordam. A regra é simples e cai em prova: vale o pior. Ki-67 de 2% com nove mitoses é um G2, não um G1.

Diferenciação e grau não são a mesma coisa

Aqui mora o erro clássico. Diferenciação é uma pergunta sobre aparência: as células ainda se parecem com células neuroendócrinas normais e se organizam em ninhos, cordões e trabéculas, com aquela cromatina pontilhada que os patologistas chamam de «sal e pimenta»? Se sim, é bem diferenciado. Grau é uma pergunta sobre velocidade, e vem só do Ki-67 e das mitoses.

Um tumor pode ser bem diferenciado e rápido — é o TNE-G3, categoria criada na classificação de 2017 para o pâncreas e estendida a todo o trato digestivo em 2019. E um tumor pode ser rápido porque é feio, desorganizado, cheio de necrose — é o carcinoma neuroendócrino, o NEC, que se subdivide em pequenas células e grandes células e se comporta como o carcinoma de pequenas células do pulmão.

A consequência prática é brutal. Diante de um Ki-67 de 40%, se a arquitetura é preservada você tem um TNE-G3: o tumor ainda expressa receptor de somatostatina, ainda responde a terapias dirigidas, ainda pode ser operado em situações selecionadas, e a sobrevida se conta em anos. Se a arquitetura está destruída, você tem um NEC: o tratamento é quimioterapia com platina e etoposídeo, a cirurgia perde quase todo o papel fora da doença localizada, e a sobrevida mediana se conta em meses.

Os números, e o que cada um decide

Ki-67 < 3% e < 2 mitoses/2 mm²G1. Doença indolente. Ressecção quando indicada pelo tamanho e sítio; seguimento longo. É onde vivem a maioria dos tumores de apêndice e de reto achados por acaso. Ki-67 3–20% ou 2–20 mitosesG2. A faixa mais comum nos tumores de intestino delgado com metástase. Ressecção do primário e dos linfonodos; análogo de somatostatina se houver doença avançada. Ki-67 > 20% com boa diferenciaçãoTNE-G3. Mantém receptor de somatostatina; ainda é «família TNE». Tratamento individualizado, frequentemente à base de capecitabina + temozolomida ou de platina, conforme o Ki-67 se aproxime mais de 20% ou de 55%. Ki-67 > 20% com má diferenciaçãoNEC. Quimioterapia com platina + etoposídeo. Na prática o Ki-67 costuma passar de 55%. Ki-67 > 55%Ponto de corte que prediz resposta à platina. Abaixo dele, a resposta cai muito — foi o achado do estudo NORDIC NEC e é o motivo de a distinção G3 × NEC ter nascido.

A regra que cai em prova é a dos limiares de 3% e 20% para o Ki-67 e a de que a diferenciação, não o índice, decide entre TNE-G3 e NEC. Quando o enunciado descreve «células pequenas, hipercromáticas, com necrose extensa e Ki-67 de 80%», ele já entregou o diagnóstico de NEC antes mesmo de dizer o número.

Guarde istoGrau vem de dois números e vale o pior deles: Ki-67 e mitoses. Diferenciação vem da arquitetura e é ela que separa TNE de NEC. Ki-67 alto com arquitetura preservada é TNE-G3; Ki-67 alto com arquitetura destruída é NEC, e NEC é doença de platina.
Como a banca cobrachance alta · ~55%

Três roupagens se repetem. A primeira dá o laudo pronto — «carcinoma neuroendócrino pouco diferenciado, Ki-67 90%» — e pergunta o tratamento: a resposta é quimioterapia com platina e etoposídeo, nunca «ressecção ampliada». A segunda dá um Ki-67 de 25% e testa se você sabe que existe TNE-G3 e que ele não é NEC. A terceira, mais sutil, dá Ki-67 baixo e contagem mitótica alta para ver se você aplica a regra do pior número.

Frases-gatilho literais: «arranjo trabecular e cromatina em sal e pimenta» aponta bem diferenciado; «lençóis sólidos com necrose geográfica e moldagem nuclear» aponta NEC; «sinaptofisina e cromogranina positivas» apenas confirma a linhagem e nunca responde sozinha a uma pergunta de conduta.

CAPÍTULO 02O receptor que faz o tumor brilhar

Uma única antena na membrana explica quatro coisas ao mesmo tempo: por que o octreotide funciona, por que o PET encontra o primário oculto, por que existe terapia com lutécio e por que o tumor mais agressivo desaparece justamente do exame que enxerga o menos agressivo.

Como usar este instrumento
  1. Arraste a barra de diferenciação, de G1 até NEC. Acompanhe duas coisas na membrana: as antenas em forma de taça (receptores de somatostatina) vão sumindo e os barris (transportadores de glicose) vão se multiplicando.
  2. Troque o traçador. Com 68Ga-DOTATATE, as partículas descem e encaixam nas taças; com 18F-FDG, elas entram pelos barris. Repare em qual dos dois consegue entrar em cada grau.
  3. Olhe as duas cintilografias na base: elas mostram o mesmo fígado com as mesmas metástases, fotografado com um traçador em cada. Veja o brilho trocar de lado conforme você sobe o grau.
Exercício: deixe em G1 e compare as duas imagens — o DOTATATE acende e o FDG fica quase apagado. Agora vá até NEC sem mexer em mais nada: as lesões continuam exatamente no mesmo lugar, mas quem acende é o FDG. Esse é o fenômeno flip-flop. Depois aperte «administrar octreotide» em G1 e repare que as taças ficam ocupadas: é assim que a droga cala o hormônio — e é também por isso que o octreotide de ação prolongada atrapalha o exame se for feito perto da injeção do traçador.
ESPAÇO EXTRACELULAR · sangue CITOPLASMA · grânulos de secreção MESMO FÍGADO, MESMAS LESÕES, DOIS TRAÇADORES
Esquema. À esquerda, PET com 68Ga-DOTATATE (encaixa no receptor de somatostatina); à direita, PET com 18F-FDG (entra pelo transportador de glicose). As mesmas três metástases hepáticas em ambos.

Diferenciação do tumor

TNE G1 · Ki-67 < 3%G1

Traçador injetado

A mesma antena, quatro usos

1 · Calar o hormônioOctreotide e lanreotida ocupam o SSTR2 e o SSTR5 e desligam a secreção: acaba o rubor, acaba a diarreia.
2 · Achar o tumorO DOTATATE marcado com gálio-68 vira farol. Encontra primário oculto e metástases fora do alcance da tomografia.
3 · Segurar o crescimentoO mesmo bloqueio tem efeito antiproliferativo — foi o que os estudos PROMID (octreotide LAR) e CLARINET (lanreotida) demonstraram.
4 · Irradiar por dentroTroque o gálio por lutécio-177 e a antena passa a puxar radiação beta para dentro da célula: é a PRRT.

O que a somatostatina faz no corpo normal

A somatostatina é o hormônio do «pare». Fabricada pelas células D do trato digestivo, do pâncreas e do hipotálamo, ela circula pouquíssimo tempo — meia-vida de dois a três minutos — e sua função é frear vizinhos: freia a gastrina, freia a insulina, freia o glucagon, freia o hormônio de crescimento, freia a secreção pancreática exócrina e ainda reduz o fluxo esplâncnico. Para receber essa ordem, as células-alvo carregam antenas na membrana, os receptores de somatostatina, numerados de 1 a 5.

Um tumor neuroendócrino bem diferenciado é uma célula que manteve a profissão, e por isso mantém as antenas — sobretudo o subtipo 2. É uma coincidência afortunada: a mesma peça que o tumor conservou por ser bem-comportado é a peça que permite encontrá-lo, tratá-lo e irradiá-lo.

Por que o exame apaga quando o tumor piora

Conforme o tumor desdiferencia, ele abandona o que era caro e inútil para uma célula que só quer se dividir. As antenas de somatostatina são das primeiras coisas a sumir. Em compensação, uma célula que se divide sem parar consome glicose de forma voraz e enche a membrana de transportadores de glicose. O resultado é uma troca: o que se perde para o DOTATATE, ganha-se para o FDG.

Essa inversão tem nome — fenômeno flip-flop — e um uso clínico direto. Quando os dois exames são feitos, um tumor que brilha no DOTATATE e não no FDG é indolente; um que brilha nos dois é heterogêneo, com um clone mais agressivo em algum lugar; e um que só brilha no FDG é o pior de todos, porque perdeu inclusive o alvo terapêutico. A lesão que aparece só no FDG costuma ser a que vai matar o paciente, e é para ela que a biópsia deve ser dirigida.

Os números que decidem

SSTR2Subtipo predominante no TNE bem diferenciado; é o alvo do octreotide, do lanreotida, do DOTATATE e da PRRT. 68Ga-DOTATATE PETSensibilidade em torno de 90–95%, bem superior à do Octreoscan clássico. É o exame de escolha para estadiar TNE bem diferenciado e para achar primário oculto. Octreotide de ação curtaSuspender cerca de 24 h antes do PET com DOTATATE, para não competir com o traçador pelo receptor. Formulações de depósito exigem intervalo maior. Cromogranina AMarcador de seguimento, não de diagnóstico. Sobe falsamente com inibidor de bomba de prótons, gastrite atrófica e insuficiência renal.

A regra que cai em prova é a do exame de escolha: diante de um TNE bem diferenciado com estadiamento incompleto, ou de metástase hepática neuroendócrina com primário desconhecido, a resposta é PET com 68Ga-DOTATATE. Diante de um NEC, o exame útil é o PET com FDG.

Guarde istoReceptor de somatostatina presente é sinônimo de tumor bem diferenciado, e traz junto quatro consequências: octreotide funciona, DOTATATE enxerga, o crescimento é freável e a PRRT é possível. Quando o tumor desdiferencia, ele troca a antena por transportador de glicose e migra do DOTATATE para o FDG.
Como a banca cobrachance média-alta · ~35%

A roupagem mais comum é o «primário oculto»: metástase hepática cuja biópsia mostra tumor neuroendócrino bem diferenciado, e a pergunta é qual exame localiza o primário — resposta, PET com 68Ga-DOTATATE (a alternativa-armadilha é «colonoscopia» ou «cintilografia com octreotide», que era o padrão antigo). A segunda roupagem é a da cromogranina falsamente elevada em paciente em uso de omeprazol. A terceira pede o mecanismo do octreotide na síndrome carcinoide.

Frases-gatilho: «captação intensa na cintilografia de receptores de somatostatina» significa bem diferenciado; «lesão hipermetabólica ao FDG sem captação de DOTATATE» significa componente pouco diferenciado e biópsia dirigida a essa lesão.

CAPÍTULO 03A régua muda com o órgão

O mesmo tumor, do mesmo grau, com o mesmo centímetro, é apendicectomia num órgão e hemicolectomia no outro. Clique no órgão, arraste o tamanho e ligue os modificadores que o enunciado costuma esconder no meio da descrição.

Como usar este instrumento
  1. Clique num órgão do desenho. O painel troca inteiro: a régua passa a mostrar os limiares daquele sítio, com as faixas coloridas nos pontos em que a conduta vira.
  2. Arraste o tamanho do tumor e acompanhe a agulha da régua atravessar as faixas.
  3. Ligue os modificadores abaixo da régua — são exatamente os detalhes que a banca coloca no enunciado para mudar a resposta sem mudar o tamanho.
Exercício: ponha o apêndice em 1,5 cm — sai apendicectomia com seguimento. Sem tocar no tamanho, ligue «invasão do mesoapêndice > 3 mm»: a mesma lesão de 1,5 cm vira hemicolectomia direita. Depois vá ao intestino delgado e varra o tamanho de 0,4 a 5 cm: a conduta não muda em ponto nenhum. Descobrir em quais órgãos o centímetro decide e em quais ele é irrelevante é metade do tema.
cólon jejuno–íleo estômago duodeno pâncreas ceco apêndice reto brônquio vista anterior · a esquerda do paciente está à sua direita
Esquema dos sítios primários. O anel marca o órgão selecionado. Frequência aproximada dos TNE gastroenteropancreáticos: delgado e reto disputam o primeiro lugar, seguidos de pâncreas, estômago, cólon e apêndice.

Intestino delgado (jejuno–íleo)

Maior diâmetro do tumor1,5 cm

Atalho pelos sítios

Por que o órgão manda mais que o centímetro

Um tumor neuroendócrino de 1 cm no reto é quase sempre uma lesão que a alça de polipectomia resolve. O mesmo 1 cm no íleo já tem linfonodo mesentérico comprometido em mais da metade dos casos. A diferença não está no tumor: está na parede e na drenagem linfática de cada órgão. O reto tem submucosa espessa e o tumor demora a alcançar a muscular própria; o íleo tem parede fina, rede linfática rica e um mesentério que recebe metástase muito cedo.

É por isso que existem réguas diferentes. Nos órgãos de parede espessa e drenagem tardia — reto, estômago tipo 1, duodeno superficial — o tamanho funciona como bom substituto do risco de linfonodo, e por isso os limiares de 1 cm e 2 cm decidem. No intestino delgado, o tamanho não prediz nada, e por isso não existe régua: ressecar com o mesentério é sempre a resposta.

Apêndice: o achado do patologista depois da apendicectomia

O cenário é sempre o mesmo. Apendicectomia por apendicite aguda, paciente já em casa, e o laudo descreve um tumor neuroendócrino na ponta do apêndice. A pergunta é se você chama o paciente de volta para uma hemicolectomia direita.

Abaixo de 1 cm, não chama: a chance de linfonodo é próxima de zero e a apendicectomia com margem livre já curou. Acima de 2 cm, chama sempre. Entre 1 e 2 cm mora a zona cinzenta, e ela se resolve por fatores de risco: invasão do mesoapêndice além de 3 mm, comprometimento da base ou da margem cirúrgica, grau 2 ou 3, invasão angiolinfática ou perineural. Qualquer um deles empurra para a hemicolectomia direita com linfadenectomia.

Divergência de banca

O limiar do mesoapêndice varia entre fontes: os guias europeus (ENETS) usam 3 mm; parte da literatura americana e o Sabiston tratam a invasão do mesoapêndice como fator de risco sem cravar o milímetro. Quando o enunciado diz um número, use o número; quando ele apenas descreve «invasão do mesoapêndice», trate como fator de risco e opte pela hemicolectomia na faixa de 1 a 2 cm.

Cuidado com o impostor: o adenocarcinoma de células caliciformes (goblet cell) do apêndice não é um tumor neuroendócrino puro. Ele é tratado como adenocarcinoma — hemicolectomia direita mesmo quando pequeno, e quimioterapia adjuvante conforme o estágio.

Reto: o pólipo achado no rastreamento

Aqui o enunciado costuma dizer «nódulo submucoso amarelado de aspecto liso, achado em colonoscopia de rastreamento». Abaixo de 1 cm, restrito à submucosa e G1, a ressecção endoscópica resolve — de preferência com técnica que garanta margem profunda, porque a ressecção com alça simples deixa margem comprometida em boa parte dos casos e obriga a um resgate transanal. Acima de 2 cm, ou com invasão da muscular própria, ou com linfonodo suspeito na ressonância, a conduta é ressecção radical com excisão total do mesorreto, exatamente como num adenocarcinoma. Entre 1 e 2 cm, individualiza-se com ecoendoscopia e ressonância.

Estômago: três doenças com o mesmo nome

O TNE gástrico só faz sentido quando você entende quem está gritando com as células enterocromafins-like do corpo gástrico. Quem grita é a gastrina.

No tipo 1, o paciente tem gastrite atrófica autoimune: destruiu as células parietais, parou de fazer ácido, e o antro — que só desliga a gastrina quando sente ácido — passa a produzir gastrina sem freio. Anos de estímulo geram vários tumorezinhos no corpo e no fundo. São G1, comportam-se bem, e o tratamento é endoscópico e conservador. Retirar o antro (antrectomia) elimina a fonte do estímulo nos casos de recidiva incessante.

No tipo 2, a gastrina também está alta, mas por gastrinoma: é a síndrome de Zollinger-Ellison, quase sempre dentro de uma NEM-1. Aqui o estômago é ácido, não atrófico. Tratar o tipo 2 é tratar o gastrinoma.

No tipo 3, a gastrina é normal. O tumor não tem desculpa hormonal: é esporádico, único, maior, invasivo, e se comporta como um câncer gástrico. A conduta é gastrectomia com linfadenectomia D2.

Pâncreas e duodeno

No pâncreas, a pergunta inicial é se o tumor secreta. Se secreta, opera — o sintoma hormonal é a indicação. Se não secreta, entra o único limiar generoso de todo o tema: lesões de até 2 cm, G1, assintomáticas e sem sinal de invasão podem ser apenas vigiadas, sobretudo em paciente idoso ou com comorbidade. Acima de 2 cm, ressecção formal com linfadenectomia.

No duodeno, o detalhe é o gastrinoma: a maioria dos gastrinomas da NEM-1 é duodenal, milimétrica e múltipla, e só aparece com duodenotomia e palpação da mucosa. Quem opera um Zollinger-Ellison sem abrir o duodeno costuma fechar o paciente sem ter tirado o tumor.

Guarde istoApêndice: 1 cm e 2 cm, com a zona cinzenta resolvida pelos fatores de risco. Reto: 1 cm e 2 cm, com a muscular própria como divisor. Estômago: descubra primeiro a gastrina — tipo 1 é endoscópico, tipo 3 é gastrectomia. Pâncreas não funcionante: 2 cm. Intestino delgado: não existe régua, ressecção com mesentério sempre.
Como a banca cobrachance muito alta · ~70%

É o capítulo mais cobrado do tema, e quase sempre pela mesma porta: o achado incidental. «Apendicectomia por apendicite; anatomopatológico revela tumor neuroendócrino de 1,8 cm na base, com invasão do mesoapêndice» — a resposta é hemicolectomia direita. «Nódulo retal de 0,6 cm, submucoso, G1» — ressecção endoscópica. «Múltiplos nódulos gástricos em paciente com anemia perniciosa» — tipo 1, vigilância endoscópica.

Frases-gatilho: «anemia perniciosa» e «gastrite atrófica» empurram para o tipo 1; «gastrina normal, lesão única de 3 cm» para o tipo 3; «na base do apêndice» ou «margem cirúrgica comprometida» para a hemicolectomia; «nódulo amarelado submucoso no reto baixo» para a ressecção endoscópica.

CAPÍTULO 04As síndromes funcionantes: do sintoma ao hormônio

Cinco tumores do pâncreas e do duodeno se apresentam por aquilo que secretam, e cada um monta um quadro clínico que não se parece com nenhum outro. Marque no paciente os achados que o enunciado deu e veja o diagnóstico se destacar sozinho.

Como usar este instrumento
  1. Clique nos achados que o enunciado descreveu. Cada clique acende o sinal correspondente no boneco e alimenta a barra de cada candidato.
  2. Acompanhe as barras: elas mostram quantos dos seus achados cada tumor explica. Quando um deles isola os demais, o painel abre o teste confirmatório e a conduta.
  3. Clique num nome de tumor para ler a ficha completa mesmo sem marcar achado nenhum.
Exercício: marque só «diabetes de início recente» — três tumores explicam. Acrescente «perda ponderal» e ainda há empate. Agora acrescente eritema necrolítico migratório: o glucagonoma dispara sozinho. Depois troque o eritema por «colelitíase» e «esteatorreia»: o mesmo diabetes agora aponta para somatostatinoma. É assim que a banca constrói a questão — um achado banal repetido e um achado patognomônico escondido no fim do enunciado.
esquema · estômago, pâncreas e vesícula sobrepostos ao tronco
Boneco esquemático. Os sinais acendem onde o achado se manifesta; a legenda de cada marcador nomeia o achado exatamente como o enunciado costuma escrevê-lo.

Achados do enunciado

Candidatos

Ficha

Insulinoma: o tumor que faz o paciente comer

A insulina baixa o açúcar do sangue. Um tumor que a produz sem freio produz hipoglicemia em jejum, e a hipoglicemia dá dois grupos de sintomas: os adrenérgicos, quando o corpo descarrega adrenalina para tentar subir a glicose (tremor, sudorese, palpitação), e os neuroglicopênicos, quando o cérebro fica sem combustível (confusão, comportamento estranho, convulsão, coma). O paciente aprende sozinho que comer resolve, come o tempo todo e engorda — o único tumor maligno-por-definição que faz o paciente ganhar peso.

O diagnóstico é a tríade de Whipple: sintoma de hipoglicemia, glicemia baixa documentada no momento do sintoma, e alívio com a administração de glicose. O teste formal é o jejum supervisionado de 72 horas, que hoje se encerra em 48 horas na maioria dos casos. Quando o paciente sintomatiza, colhe-se tudo de uma vez: glicose, insulina, peptídeo C, pró-insulina, betaidroxibutirato e rastreio de sulfonilureia.

O peptídeo C é a peça que separa doença de fraude. Ele é liberado junto com a insulina do próprio pâncreas, mas não existe na insulina de farmácia. Insulina alta com peptídeo C alto significa pâncreas produzindo — insulinoma ou sulfonilureia; por isso o rastreio de sulfonilureia na mesma amostra. Insulina alta com peptídeo C suprimido significa insulina injetada.

Gastrinoma: úlceras onde não deviam existir

A gastrina manda o estômago produzir ácido. Um tumor que a fabrica sem freio inunda o duodeno de ácido, e o ácido faz três coisas: ulcera, ulcera em lugares atípicos (segunda porção duodenal, jejuno) e desativa as enzimas pancreáticas, o que causa diarreia com esteatorreia que melhora dramaticamente com inibidor de bomba de prótons.

O diagnóstico exige duas medidas ao mesmo tempo: gastrina sérica acima de 1.000 pg/mL com pH gástrico abaixo de 2. Sem a segunda metade, o número não vale nada — quem toma omeprazol tem gastrina alta porque o estômago sem ácido pede mais gastrina. Nos casos duvidosos, o teste da secretina: a secretina normalmente inibe a gastrina, mas paradoxalmente estimula a célula tumoral, e uma elevação superior a 120 pg/mL fecha o diagnóstico.

Divergência de banca

O ponto de corte da secretina aparece como 120 pg/mL nas fontes atuais e como 200 pg/mL em textos mais antigos. Quando o enunciado traz o número, siga o número; quando pede apenas «o teste», a resposta é o teste da secretina.

Outro cuidado: o inibidor de bomba precisa ser suspenso por cerca de uma semana antes de dosar a gastrina, mas suspender em quem tem Zollinger-Ellison pode perfurar. Na prática, suspende-se sob supervisão e com bloqueador H2 de resgate.

Glucagonoma, VIPoma e somatostatinoma

O glucagonoma se anuncia pela pele. O eritema necrolítico migratório é uma erupção que começa como mancha avermelhada em áreas de atrito — períneo, virilha, região perioral, extremidades —, forma bolha, descama e migra, deixando um contorno que lembra um mapa. Junto vêm diabetes leve, perda ponderal importante, estomatite, glossite, anemia e uma tendência trombótica desproporcional. A regra mnemônica dos quatro Ds funciona: dermatite, diabetes, DVT (trombose) e depressão. O tumor costuma ser grande, ficar na cauda e já ter metástase ao diagnóstico.

O VIPoma é a «cólera pancreática» de Verner-Morrison. O peptídeo intestinal vasoativo faz o intestino secretar água e eletrólitos, e o paciente perde litros de fezes aquosas por dia, mesmo em jejum. Vem junto a tríade WDHA: diarreia aquosa (watery diarrhea), hipocalemia e acloridria — o VIP também inibe o ácido gástrico. O paciente chega desidratado, com potássio criticamente baixo e acidose metabólica pela perda de bicarbonato. Antes de operar qualquer coisa, repõe-se volume e potássio e administra-se octreotide, que corta a secreção.

O somatostatinoma é o freio geral em forma de tumor. Como a somatostatina inibe insulina, inibe a contração da vesícula e inibe a secreção pancreática exócrina, o quadro é a tríade diabetes, colelitíase e esteatorreia. É raro, costuma ser periampular ou duodenal e tem uma associação de prova: a neurofibromatose tipo 1, em que aparece um somatostatinoma duodenal com corpos psamomatosos na histologia.

O mais comum de todos não secreta nada

Vale fixar: entre os tumores neuroendócrinos do pâncreas, o mais frequente é o não funcionante. Ele se manifesta por massa, por icterícia obstrutiva, por dor ou por acaso na tomografia. Dentro da NEM-1 a lógica é a mesma — o não funcionante é o mais comum, e entre os funcionantes o gastrinoma é o mais frequente.

Insulinoma90% benigno · 90% solitário · 90% intrapancreático · 90% menor que 2 cm. É o único da lista majoritariamente benigno. Gastrinoma60 a 90% em duodeno; 20 a 25% dentro de NEM-1; maligno em mais da metade dos casos. Glucagonoma / VIPoma / somatostatinomaGrandes ao diagnóstico e malignos em 60 a 80%. Gastrina > 1.000 pg/mL com pH < 2Fecha Zollinger-Ellison sem precisar de teste provocativo. VIP > 75 pg/mL com diarreia secretóriaConfirma VIPoma; perdas costumam passar de 3 L/dia e persistem no jejum.

A regra que cai é a do insulinoma dos noventa por cento, porque ela sustenta a conduta: sendo pequeno, único, benigno e dentro do pâncreas, a operação de escolha é a enucleação — desde que a lesão esteja a mais de 2 a 3 mm do ducto de Wirsung.

Guarde istoHipoglicemia com peptídeo C alto é insulinoma; úlcera atípica com gastrina alta e estômago ácido é gastrinoma; erupção que migra com diabetes e trombose é glucagonoma; diarreia de litros com potássio no chão é VIPoma; diabetes com pedra na vesícula e gordura nas fezes é somatostatinoma. O mais comum de todos, porém, é o que não secreta nada.
Como a banca cobrachance alta · ~50%

A vinheta é sempre a mesma arquitetura: dois ou três achados inespecíficos (perda de peso, diabetes, diarreia) e um achado patognomônico plantado no fim. Reconhecer o achado-chave resolve a questão em cinco segundos. Também é comum cobrar o exame confirmatório em vez do diagnóstico, e aí a resposta é sempre um par — hormônio mais o contexto que o valida (gastrina com pH, insulina com peptídeo C).

Frases-gatilho: «eritema necrolítico migratório» é glucagonoma; «diarreia aquosa que persiste no jejum com hipocalemia» é VIPoma; «úlceras múltiplas em segunda porção duodenal, refratárias» é gastrinoma; «tríade de Whipple» é insulinoma; «neurofibromatose tipo 1 com tumor periampular» é somatostatinoma.

CAPÍTULO 05Por que a síndrome carcinoide precisa do fígado

A serotonina do tumor de intestino delgado nunca chega à circulação sistêmica — a não ser que alguma coisa quebre o filtro. Ligue e desligue a metástase hepática e veja a síndrome aparecer e desaparecer sem que o tumor primário mude em nada.

Como usar este instrumento
  1. Comece no cenário sem metástase. Siga o traçado colorido saindo do tumor: ele fica vermelho até o fígado e sai cinza do outro lado. Esse é o filtro funcionando.
  2. Ligue metástase hepática. O trecho depois do fígado fica vermelho e os sinais sistêmicos acendem no alto do desenho.
  3. Troque para primário fora do território portal (brônquico, ovariano, retroperitoneal) e observe: o sangue nem passa pelo fígado, e a síndrome aparece com o fígado limpo.
Exercício: no cenário sem metástase, procure algum sinal sistêmico aceso — não há nenhum, e o tumor continua exatamente do mesmo tamanho. Depois compare os dois cenários com síndrome e olhe as valvas: no carcinoide intestinal só as direitas ficam marcadas; no brônquico as esquerdas também podem. A explicação está no pulmão, e o desenho mostra onde.
TNE ileal serotonina, taquicininas veias mesentéricas → veia porta FÍGADO monoamino-oxidase CORAÇÃO DIREITO tricúspide · pulmonar PULMÃO degrada a serotonina CORAÇÃO ESQUERDO mitral · aórtica CIRCULAÇÃO SISTÊMICA
Trajeto esquemático. Traçado vermelho = sangue com mediadores ativos; cinza = mediadores já degradados. As valvas marcadas em ocre indicam onde a fibrose se deposita.

Cenário

O que a serotonina faz onde chega

RuborVasodilatação cutânea súbita de face e tronco, seca, sem sudorese, durando de segundos a minutos. Precipitada por álcool, queijo, estresse e pela manipulação do tumor.
DiarreiaAumento da motilidade e da secreção intestinal. É o sintoma que mais responde ao análogo de somatostatina.
BroncoespasmoMenos frequente, mas é o que transforma um rubor em emergência na sala de cirurgia.
PelagraO tumor desvia o triptofano para fabricar serotonina e sobra pouco para a niacina: dermatite, diarreia e demência.

O filtro que ninguém vê funcionar

Todo o sangue que sai do intestino delgado passa obrigatoriamente pela veia porta e atravessa o fígado antes de chegar ao coração. O fígado carrega uma enzima chamada monoamino-oxidase, que destrói a serotonina com enorme eficiência. Um tumor ileal pode despejar serotonina o dia inteiro na veia mesentérica que, do outro lado do fígado, praticamente nada sai. O paciente tem o tumor e não tem síndrome nenhuma.

Existem três maneiras de furar esse filtro. A primeira, de longe a mais comum, é a metástase hepática: o tumor passa a secretar dentro do fígado, e o produto cai direto na veia hepática, depois da enzima. A segunda é o primário que não drena pelo sistema porta — carcinoide brônquico, ovariano ou retroperitoneal despejam direto na veia cava. A terceira, rara, é a doença hepática tão avançada que o sangue portal desvia por colaterais.

Daí a frase que resolve questões inteiras: tumor neuroendócrino de intestino médio só faz síndrome carcinoide se houver metástase hepática. Quando o enunciado descreve rubor e diarreia com tomografia de fígado normal, ou o primário não é intestinal, ou o diagnóstico é outro.

Por que o coração adoece só do lado direito

A serotonina que escapou do fígado chega ao átrio direito, ao ventrículo direito e às valvas tricúspide e pulmonar, e ali provoca depósito de placas fibrosas no endocárdio — a doença carcinoide do coração, ou síndrome de Hedinger. As placas engrossam e retraem os folhetos: a tricúspide deixa de fechar (insuficiência) e a pulmonar deixa de abrir (estenose). O paciente evolui com turgência jugular, hepatomegalia dolorosa, ascite e edema.

Depois do ventrículo direito, o sangue atravessa o pulmão — e o pulmão também tem monoamino-oxidase. A serotonina é destruída ali, e o coração esquerdo recebe sangue limpo. É por isso que a doença é do lado direito, e é por isso que ela pode ser bilateral em duas situações que a banca adora: carcinoide brônquico, cujo produto cai depois do pulmão, e forame oval patente, que permite a passagem direta do sangue não filtrado.

Os números e o que decidem

5-HIAA urinário de 24 hExame de escolha para a síndrome. Restringir 48 h antes: banana, abacaxi, abacate, kiwi, nozes, tomate, berinjela e paracetamol elevam falsamente. EcocardiogramaObrigatório em todo paciente com síndrome carcinoide, e repetido no seguimento. NT-proBNP funciona como triagem para pedir o eco. Metástase hepáticaCondição necessária para a síndrome no tumor de intestino médio. Sua ausência derruba o diagnóstico. NiacinaRepor em quem tem síndrome estabelecida: o desvio do triptofano causa pelagra.

A regra que cai é a da obrigatoriedade da metástase hepática — e, logo atrás dela, a do ecocardiograma como exame que muda a conduta, porque um paciente com insuficiência tricúspide grave precisa ter a valva tratada antes de qualquer hepatectomia de citorredução.

Guarde istoSem metástase hepática não há síndrome carcinoide em tumor de intestino médio, porque o fígado destrói a serotonina antes que ela circule. Quando ela circula, adoece as valvas do lado direito, porque o pulmão destrói o que sobrou antes do coração esquerdo.
Como a banca cobrachance alta · ~45%

Duas roupagens dominam. A primeira dá o paciente com rubor, diarreia e sopro, e pergunta qual estrutura está acometida — resposta, valva tricúspide (insuficiência) e pulmonar (estenose). A segunda dá um tumor ileal achado por obstrução e pergunta o que precisa existir para haver síndrome — resposta, metástase hepática.

Frases-gatilho: «sopro holossistólico que aumenta na inspiração» é insuficiência tricúspide; «rubor seco de face e pescoço desencadeado por álcool» é carcinoide, e diferencia da menopausa, em que o rubor vem com sudorese; «massa ovariana com rubor e fígado normal» é o carcinoide que dispensa metástase hepática por drenar fora do sistema porta.

CAPÍTULO 06A crise carcinoide, e a droga que piora tudo

O paciente entra na sala para ressecar o primário ileal. Na indução, ou no primeiro toque no mesentério, ele fica vermelho, chia e a pressão desaba. O que você manda a anestesia fazer decide o desfecho — e o reflexo aprendido no choque é justamente o errado.

Como usar este instrumento
  1. Comece sem profilaxia: aperte induzir e manipular o tumor e olhe os números do monitor despencarem enquanto a barra de mediadores sobe.
  2. Agora escolha a droga. Aperte adrenalina e leia o que acontece com a barra de mediadores — depois reinicie e aperte octreotide em bolus.
  3. Reinicie de novo, ligue a profilaxia antes da indução e repita a manipulação. Compare o pico de mediadores dos dois caminhos.
Exercício: com a crise instalada, dê 1.000 mL de cristaloide sozinho e repare que a pressão sobe pouco e a barra de mediadores não se move — volume não trata a causa. Depois dê adrenalina: a pressão até sobe por instantes na leitura, mas a barra de mediadores cresce, e o quadro volta pior. Só o octreotide derruba a barra, e é a queda da barra, não o número da pressão, que resolve a crise.
SALA 3 · TNE ILEAL · RESSECÇÃO SEGMENTAR PA (mmHg) 120/70 FC (bpm) 78 SpO₂ (%) 98 EtCO₂ 35 MEDIADORES CIRCULANTES estável
Monitor simulado. A barra verde-âmbar-vermelha é a carga de mediadores circulantes — é ela, e não a pressão isolada, que diz se a crise está resolvida.

Antes da indução

Na sala

Caminho errado

Registro da sala

O que é a crise, em termos simples

Uma crise carcinoide é uma liberação maciça e simultânea de tudo o que o tumor guarda: serotonina, taquicininas, histamina e calicreína. Ela é desencadeada por qualquer coisa que aperte o tumor ou que descarregue o simpático — a laringoscopia, a incisão, a palpação do mesentério, a manipulação hepática, a embolização de metástase, e também a ansiedade e a dor.

O quadro é reconhecível: rubor intenso e prolongado, broncoespasmo, taquicardia e hipotensão profunda que não responde a volume nem a vasopressor. O paciente parece em choque distributivo, e é exatamente essa semelhança que gera o erro.

Por que a adrenalina piora

A calicreína é uma enzima que o tumor libera e que transforma cininogênio em bradicinina, um dos vasodilatadores mais potentes do organismo. O ponto crucial é que a liberação de calicreína pela célula tumoral é estimulada por receptores beta-adrenérgicos. Quando você injeta adrenalina para «subir a pressão», está estimulando o tumor a soltar mais calicreína, que gera mais bradicinina, que derruba mais a pressão. O resultado é um ciclo em que quanto mais vasopressor se dá, mais profunda fica a hipotensão.

O tratamento correto ataca a origem: octreotide em bolus intravenoso, 100 a 500 µg, repetido conforme a resposta, seguido de infusão contínua de 50 a 200 µg por hora. O análogo ocupa os receptores de somatostatina da célula tumoral e desliga a secreção. A pressão volta porque a fonte parou, não porque o vaso foi apertado. Volume ajuda como suporte, mas não trata.

Divergência de banca

A afirmação de que catecolaminas são absolutamente proibidas vem da literatura clássica e é o que as provas cobram. Séries anestésicas recentes mostram que vasopressores podem ser usados com segurança em casos selecionados, desde que o octreotide esteja correndo — e há relatos de que a própria profilaxia com octreotide não elimina completamente o risco de crise. Para a prova, mantenha a resposta clássica: octreotide primeiro; evitar agentes adrenérgicos. Se o enunciado oferecer «vasopressina» entre as alternativas, ela é a escolha vasopressora preferida por não agir em receptor beta.

Os números que decidem

100–500 µg IVBolus de octreotide na crise instalada, repetível a cada poucos minutos até a resposta. 50–200 µg/hInfusão contínua durante o intraoperatório e por 24 a 48 h no pós-operatório. 100–500 µg antes da induçãoProfilaxia em todo paciente com síndrome carcinoide, e também em quem tem tumor volumoso ou metástase hepática sem síndrome manifesta. Drogas a evitarLiberadores de histamina (morfina, meperidina, atracúrio, tiopental) e agentes beta-adrenérgicos. Prefira fentanil, cisatracúrio e vasopressina se for indispensável um vasopressor.

A regra que cai é a do bolus: diante de hipotensão refratária em paciente com carcinoide na mesa, a resposta é octreotide intravenoso — e a alternativa-armadilha é sempre «noradrenalina em infusão contínua».

Guarde istoCrise carcinoide não é choque distributivo comum: o vasopressor beta-adrenérgico estimula a liberação de calicreína e aprofunda a hipotensão. O tratamento é octreotide em bolus intravenoso, e a prevenção é octreotide antes da indução em todo paciente com síndrome ou com carga tumoral alta.
Como a banca cobrachance média · ~30%

A roupagem clássica é a intraoperatória: «durante a manipulação da massa mesentérica o paciente apresenta rubor, sibilos e PA 60×30 mmHg refratária a volume — conduta?». Resposta: octreotide intravenoso. Uma variante desloca a cena para a embolização hepática ou para a indução anestésica, com a mesma resposta. Outra pergunta apenas o que não fazer, e a resposta é a catecolamina.

Frases-gatilho: «refratária à reposição volêmica e a vasopressores» é praticamente a assinatura da crise carcinoide; «durante a manipulação do tumor» localiza o momento; «rubor com broncoespasmo» diferencia de anafilaxia apenas pelo contexto — e a anafilaxia, essa sim, se trata com adrenalina.

CAPÍTULO 07A máquina de decisão em três perguntas

Toda questão de conduta em tumor neuroendócrino se resolve respondendo, nesta ordem: é bem ou pouco diferenciado? A doença é localizada ou metastática? O tumor secreta alguma coisa? Responda e a conduta se escreve sozinha.

Como usar este instrumento
  1. Responda a pergunta 1. Se a resposta for «pouco diferenciado», repare que as perguntas 2 e 3 quase deixam de importar — o caminho já fechou.
  2. Responda a 2 e a 3 e leia a conduta em passos numerados, com o bloco «proibido» logo abaixo.
  3. Use os cenários de prova para ver como um enunciado real percorre a escada.
Exercício: monte «bem diferenciado · metastático · não funcionante» e leia a conduta. Agora troque só a pergunta 3 para «funcionante»: aparece uma linha nova antes de todas as outras — controlar o hormônio. Depois volte à pergunta 1 e marque «pouco diferenciado»: o análogo de somatostatina desaparece da lista inteira. Uma pergunta apaga as respostas das outras duas: essa hierarquia é o que a banca testa.
Escada de decisão. O caminho aceso é o percurso das suas respostas; os ramos apagados mostram para onde a questão iria com outro dado no enunciado.

1 · Diferenciação (o laudo)

2 · Extensão (a imagem)

3 · Função (a clínica)

Cenários de prova

Por que a ordem das perguntas importa

Quem começa pela imagem se perde. Diante de um fígado cheio de nódulos, a reação natural é dizer «doença metastática, quimioterapia paliativa» — e essa é a resposta certa em quase todos os tumores digestivos, menos neste. No tumor neuroendócrino bem diferenciado, doença metastática convive com anos de vida, indica-se análogo de somatostatina como primeira linha antitumoral e opera-se o primário mesmo com fígado comprometido.

Por isso a primeira pergunta é sempre a do laudo. Ela define o mundo. Só depois vem a extensão, que define a intenção da cirurgia, e por último a função, que define o que precisa estar controlado antes de qualquer coisa.

A terceira pergunta tem prioridade temporal

Ser funcionante não muda para onde o paciente vai; muda o que acontece primeiro. Um VIPoma com potássio de 2,1 mEq/L não vai para a sala antes de repor volume e potássio. Um paciente com síndrome carcinoide não é induzido sem octreotide. Um insulinoma não fica em jejum de preparo sem infusão de glicose. A síndrome hormonal é uma urgência metabólica que se resolve antes da urgência oncológica — que, aliás, quase nunca existe em doença bem diferenciada.

Guarde istoPrimeiro o laudo, depois a imagem, por último a clínica. Bem diferenciado com metástase ainda é doença de cirurgião e de análogo de somatostatina; pouco diferenciado é platina desde o primeiro dia, e nele a função hormonal e o tamanho perdem o valor decisório.
Como a banca cobrachance alta · ~40%

A pergunta preferida é «qual a conduta», com cinco alternativas que representam as cinco linhas da escada. O distrator mais frequente é oferecer quimioterapia paliativa para doença bem diferenciada metastática, e o segundo mais frequente é oferecer análogo de somatostatina para carcinoma pouco diferenciado. Ambos trocam o mundo do paciente.

CAPÍTULO 08Na mesa: o mesentério é a doença

O tumor primário do íleo mede um centímetro e não é o problema. O problema é a massa que ele criou no mesentério, colada nos vasos que irrigam todo o intestino delgado — e é a distância entre essa massa e a artéria mesentérica superior que decide se você ressecca ou se você deriva.

Como usar este instrumento
  1. O ponto de vista: laparotomia mediana, paciente em decúbito dorsal, alças exteriorizadas e o mesentério aberto como um leque na sua frente. A raiz do mesentério, com a artéria mesentérica superior, está no alto do desenho; as alças de íleo, embaixo. A direita do paciente fica à sua esquerda.
  2. Percorra os marcadores na ordem numérica — eles seguem o fluxo do sangue, da raiz até a parede da alça, e terminam na linha de secção.
  3. Troque o botão de nível da doença linfonodal e observe a massa migrar em direção à raiz. Repare no que acontece com a área que sobraria irrigada.
Exercício: no nível periférico, meça com os olhos quanta alça ficaria fora da linha tracejada — sobra intestino de sobra. Agora ligue o nível da raiz e olhe de novo: a mesma operação levaria quase todo o delgado, porque a massa envolve o tronco que irriga tudo. É esse desenho, e não o tamanho do tumor primário (marcador 7, do tamanho de um grão de milho), que explica por que alguns pacientes são irressecáveis.
ceco contrato de vista · laparotomia mediana, decúbito dorsal, mesentério aberto em leque raiz no alto · direita do paciente à esquerda da figura · calibres vasculares reduzidos
Prancha esquemática. Cores fixas: artérias em vermelho, veia mesentérica superior em azul, mesentério em creme, alça em rosado, tumor em ocre. Duas regiões destacadas por vez.

Nível da doença linfonodal mesentérica

Legenda

  1. Artéria mesentérica superior — tronco que irriga todo o delgado
  2. Veia mesentérica superior
  3. Artéria ileocólica — primeiro ramo a ser sacrificado
  4. Massa linfonodal mesentérica, com a calcificação central típica
  5. Reação desmoplásica retrátil, encurtando o mesentério
  6. Arcadas e vasos retos comprimidos — origem da angina intestinal
  7. Tumor primário ileal (frequentemente < 2 cm)
  8. Foco sincrônico — presente em 25 a 40% dos casos
  9. Linha de secção proposta

O tumor pequeno que produz uma doença grande

O tumor neuroendócrino do íleo cresce devagar na parede da alça e raramente incomoda por si. O que ele faz, e faz cedo, é mandar células para os linfonodos do mesentério. Ali, além de crescer, ele estimula uma fibrose intensa — a reação desmoplásica — que enrijece e encurta o mesentério como se alguém tivesse dado um nó no leque.

Dessa retração vêm todos os sintomas cirúrgicos. As alças ficam anguladas e obstruem. Os vasos retos que passam dentro da fibrose ficam comprimidos, e o paciente desenvolve dor abdominal pós-prandial desproporcional ao exame — a chamada angina intestinal, que nesse contexto é isquemia crônica venosa e arterial pela fibrose, não por aterosclerose. Não é raro o quadro ser confundido por anos com síndrome do intestino irritável.

Por que o nível do linfonodo decide a operação

A irrigação do intestino delgado inteiro nasce de um único tronco, a artéria mesentérica superior. Quanto mais perto da raiz estiver a massa linfonodal, mais território fica dependente do que você preservar. Uma massa periférica é retirada com um segmento de alça e um triângulo de mesentério, e o paciente fica com intestino de sobra. Uma massa colada no tronco, envolvendo a origem dos ramos jejunais e ileais, transforma a ressecção completa numa operação que deixaria o paciente com síndrome do intestino curto.

Nesses casos, a decisão inverte-se: não se persegue a ressecção completa. Faz-se ressecção do primário para prevenir obstrução, deriva-se se necessário, e a doença mesentérica fica no lugar, controlada com análogo de somatostatina. Operar «até o fim» aqui produz um paciente dependente de nutrição parenteral por uma doença que ele conviveria dez anos.

O que não pode ser esquecido na sala

Três gestos separam a operação bem feita da malfeita. O primeiro é correr todo o intestino delgado, da válvula ileocecal ao ângulo de Treitz, entre os dedos: um em cada três pacientes tem mais de um foco, e o segundo foco costuma ser milimétrico. O segundo é ressecar o mesentério junto — cunha de alça sem território linfático é ressecção incompleta por definição. O terceiro é a colecistectomia no mesmo tempo cirúrgico quando o paciente vai usar análogo de somatostatina no longo prazo, porque a droga inibe a contração da vesícula e provoca litíase em uma fração alta dos usuários; retirar depois, com o abdome aderido e o paciente em uso da droga, é bem pior.

25–40%Proporção de tumores de intestino delgado multifocais. Justifica correr todo o delgado. < 2 cmTamanho de boa parte dos primários que já têm linfonodo comprometido. Por isso não existe régua de tamanho neste sítio. Nível IIIDoença linfonodal na raiz, envolvendo a origem dos ramos da mesentérica superior: contraindica a ressecção completa pelo risco de intestino curto. ColecistectomiaProfilática no mesmo tempo, quando se prevê uso prolongado de análogo de somatostatina.

A regra que cai é a da ressecção do primário mesmo com metástase hepática: no tumor de intestino delgado bem diferenciado, retirar o primário previne a catástrofe mesentérica e melhora a sobrevida, ao contrário do que se faz no adenocarcinoma metastático.

Guarde istoNo intestino delgado, a doença é o mesentério. Ressecção com o território linfático sempre, palpação de todo o delgado sempre, e colecistectomia junto quando o análogo de somatostatina estiver no horizonte. Massa colada na raiz da mesentérica superior é sinal de parar, não de insistir.
Como a banca cobrachance média-alta · ~35%

As roupagens são a obstrução («massa mesentérica retrátil com alças anguladas»), a multifocalidade («qual conduta intraoperatória obrigatória?» — palpar todo o delgado) e a decisão de operar o primário apesar do fígado metastático. Também aparece a colecistectomia profilática como alternativa correta numa questão de conduta perioperatória.

Frases-gatilho: «espessamento mesentérico com estriação em raios de roda» e «calcificação central da massa mesentérica» são achados tomográficos quase específicos do carcinoide de delgado; «dor pós-prandial desproporcional ao exame» aponta a isquemia crônica pela fibrose.

CAPÍTULO 09A escada da doença metastática

Fígado tomado de nódulos não é sentença aqui. Existe uma sequência longa de linhas terapêuticas, e a prova cobra a ordem — sobretudo qual é a primeira e qual é a que não pertence a esta doença.

Como usar este instrumento
  1. Clique em cada degrau, de baixo para cima. A ficha ao lado abre com a droga, o estudo que a firmou, quando entrar e quando não entrar.
  2. Repare na altura de cada degrau: quanto mais alto, mais tarde na sequência — e mais raro o cenário em que ele é a resposta.
  3. O degrau em vermelho fica fora da escada de propósito: ele pertence a outra doença.
Exercício: um paciente com TNE de íleo G2, metástases hepáticas difusas, rubor e diarreia, sem tratamento prévio. Percorra a escada e pare no primeiro degrau que serve — é o análogo de somatostatina, que resolve o sintoma e freia o tumor ao mesmo tempo. Agora imagine o mesmo paciente progredindo dois anos depois em uso de octreotide: o degrau seguinte é a PRRT, não a quimioterapia.
sequência típica no TNE bem diferenciado · o degrau vermelho pertence ao carcinoma pouco diferenciado
Escada terapêutica. A largura de cada degrau sugere quantos pacientes chegam a ele; a altura, a posição na sequência.

A primeira linha não é quimioterapia

Este é o ponto que separa quem estudou o tema de quem aplicou o reflexo do adenocarcinoma. Diante de um tumor neuroendócrino bem diferenciado com metástases, a primeira linha antitumoral é o análogo de somatostatina — mesmo que o tumor não secrete nada e o paciente não tenha sintoma nenhum. O efeito não é apenas hormonal: é antiproliferativo, e foi demonstrado em dois ensaios que vale ter na ponta da língua.

O PROMID, com octreotide LAR em tumores de intestino médio, mostrou aumento expressivo do tempo até a progressão. O CLARINET, com lanreotida, estendeu o achado a tumores gastroenteropancreáticos G1 e G2, incluindo os não funcionantes — e é dele que vem a prática de tratar quem não tem sintoma algum.

O que fazer com o fígado

O fígado é o órgão que mata nesses pacientes, e é também o único em que a citorredução tem valor comprovado fora de contextos experimentais. Retirar ou destruir a maior parte da carga tumoral hepática melhora sintoma hormonal e prolonga a sobrevida. O limiar clássico exigia remover 90% da doença; as séries mais recentes mostram benefício a partir de 70%, e é esse número que vem prevalecendo.

Quando a doença é difusa demais para ressecção, as terapias intra-arteriais entram: embolização, quimioembolização ou radioembolização com microesferas de ítrio-90. Elas se apoiam num detalhe anatômico — a metástase hepática é irrigada quase exclusivamente pela artéria hepática, enquanto o parênquima sadio recebe a maior parte do fluxo pela veia porta. Fecha-se a artéria e o tumor infarta enquanto o fígado sobrevive. Nesses procedimentos, profilaxia com octreotide é obrigatória: a necrose maciça pode disparar uma crise carcinoide.

Progressão sob análogo

Quando o tumor volta a crescer em uso de octreotide ou lanreotida, abrem-se três caminhos. A PRRT com 177Lu-DOTATATE é a opção com melhor evidência para tumores de intestino médio, firmada pelo ensaio NETTER-1, e exige uma condição: captação no PET com DOTATATE — sem receptor, não há para onde o lutécio ir. O everolimo, inibidor de mTOR, funciona em tumores gastrointestinais, pancreáticos e pulmonares (RADIANT-3 e RADIANT-4). O sunitinibe, antiangiogênico, tem indicação específica nos tumores pancreáticos.

A quimioterapia citotóxica existe, mas com endereço: a dupla capecitabina + temozolomida tem taxas de resposta altas em tumores pancreáticos, e é opção nos G3 bem diferenciados. A combinação platina + etoposídeo pertence ao carcinoma pouco diferenciado, e oferecê-la a um paciente bem diferenciado é o distrator clássico.

≥ 70%Carga hepática que se deve remover para que a citorredução compense; o limiar clássico de 90% foi flexibilizado. PROMID / CLARINETFirmam o efeito antiproliferativo do octreotide LAR e da lanreotida, inclusive em tumor não funcionante. NETTER-1177Lu-DOTATATE em tumor de intestino médio progressivo sob análogo: ganho expressivo de sobrevida livre de progressão. TelotristateInibidor da triptofano-hidroxilase; reduz a produção de serotonina na diarreia carcinoide refratária ao análogo. Transplante hepáticoExcepcional: doença exclusivamente hepática, bem diferenciada, primário drenado pelo sistema porta já ressecado, paciente jovem e doença estável por meses.

A regra que cai é a da primeira linha — análogo de somatostatina — e a da PRRT como passo seguinte no intestino médio progressivo com DOTATATE positivo.

Guarde istoBem diferenciado metastático começa por análogo de somatostatina, mesmo sem sintoma. Progrediu, e o DOTATATE capta: PRRT. O fígado se trata por citorredução a partir de 70% ou por via intra-arterial, sempre com octreotide de proteção. Platina com etoposídeo é do outro mundo, o do pouco diferenciado.
Como a banca cobrachance média · ~30%

A roupagem mais comum pergunta a primeira linha para doença metastática bem diferenciada, com «quimioterapia paliativa» plantada como distrator confortável. Uma segunda roupagem descreve progressão em uso de octreotide e pede o próximo passo — PRRT. Uma terceira cobra a lógica da embolização (irrigação arterial exclusiva da metástase) ou a profilaxia com octreotide antes dela.

CAPÍTULO 10A forja: a mesma questão, um dado trocado

Dez questões em pares. A cada pivô, apenas o trecho destacado muda — e a conduta migra inteira. Responda antes de abrir o comentário; o objetivo é sentir onde o gabarito vira.

Como usar esta forja
  1. Leia o enunciado procurando primeiro o dado destacado: é ele que a banca trocou em relação à questão anterior.
  2. Escolha a alternativa. O comentário abre sozinho e diz por que as outras quatro são a conduta correta de outra linha da tabela.
  3. Ao terminar, volte às que errou e refaça a pergunta ao contrário: «que dado do enunciado teria que mudar para a minha resposta ficar certa?».
Exercício: nas questões 1 e 2 o tumor tem exatamente o mesmo tamanho e o mesmo grau. Se você respondeu igual nas duas, o problema não é conhecimento de tumor neuroendócrino — é leitura de enunciado, e é exatamente esse o erro que a prova quer capturar.
Placar0/0

CAPÍTULO 11Tabela-mãe: gatilho e ação

Cada cartão é uma linha de conduta. A cor da borda superior repete a codificação de todo o atlas: verde-azulado é conduta conservadora, âmbar exige um passo a mais, vermelho é ressecção oncológica ou doença sistêmica, violeta é individualizar.

Como usar a tabela-mãe
  1. Leia primeiro só a frase em itálico de cada cartão: é o gatilho, escrito como o enunciado escreve.
  2. Cubra a ação com a mão e recite-a a partir do gatilho.
  3. Volte ao capítulo correspondente sempre que a ação não vier de imediato — a numeração do atlas segue a mesma ordem da tabela.
Exercício: faça a varredura em três minutos, cobrindo as ações. Os cartões que travarem apontam exatamente quais capítulos revisar antes da prova.

Pouco diferenciado (NEC)

«lençóis sólidos com necrose, Ki-67 90%»Platina + etoposídeo. Sem análogo de somatostatina, sem PRRT, sem citorredução hepática.

Bem diferenciado com Ki-67 > 20%

«arquitetura trabecular preservada, Ki-67 30%»TNE-G3. Continua expressando receptor; tratamento individualizado, capecitabina + temozolomida entre as opções.

Apêndice < 1 cm

«achado incidental na ponta do apêndice»Apendicectomia já foi o tratamento definitivo. Nenhum exame adicional.

Apêndice > 2 cm, base ou fator de risco

«na base do apêndice», «mesoapêndice > 3 mm», «margem comprometida»Hemicolectomia direita com linfadenectomia.

Reto < 1 cm, G1, submucoso

«nódulo amarelado submucoso em colonoscopia»Ressecção endoscópica com margem profunda.

Reto > 2 cm ou T2

«invade a muscular própria», «linfonodo suspeito na RM»Ressecção radical com excisão total do mesorreto.

Estômago tipo 1

«anemia perniciosa», «gastrite atrófica», «múltiplos nódulos no corpo»Vigilância endoscópica; ressecar as lesões > 1 cm; antrectomia se recidiva incessante.

Estômago tipo 3

«gastrina normal, lesão única > 2 cm»Gastrectomia com linfadenectomia D2, como adenocarcinoma.

Intestino delgado, qualquer tamanho

«tumor ileal de 1,5 cm com massa mesentérica»Ressecção segmentar com o mesentério, palpação de todo o delgado, colecistectomia se for usar análogo.

Massa mesentérica na raiz da AMS

«envolve a origem dos ramos jejunais»Não perseguir ressecção completa: primário e derivação; análogo de somatostatina para a doença residual.

Pâncreas não funcionante ≤ 2 cm G1

«nódulo incidental assintomático»Vigilância com imagem é aceitável.

pNET funcionante

«tríade de Whipple», «úlceras refratárias», «eritema migratório»Operar; controlar o hormônio antes. Insulinoma periférico: enucleação.

Gastrinoma

«gastrina > 1.000 com pH < 2»Exploração com duodenotomia e linfadenectomia; rastrear NEM-1 e tratar a paratireoide primeiro.

Síndrome carcinoide

«rubor, diarreia e sopro que aumenta na inspiração»5-HIAA urinário, ecocardiograma, análogo de somatostatina. Exige metástase hepática no tumor de intestino médio.

Crise carcinoide

«hipotensão refratária a volume e vasopressor durante a manipulação»Octreotide 100–500 µg IV em bolus e infusão. Nada de catecolamina.

Metastático bem diferenciado

«fígado multinodular, biópsia G2»Análogo de somatostatina em primeira linha, mesmo sem sintoma. PRRT na progressão.

Primário oculto neuroendócrino

«metástase hepática de TNE bem diferenciado»PET com 68Ga-DOTATATE para localizar.

Cromogranina A elevada

«paciente em uso de omeprazol»Falso-positivo. Não fecha nem exclui diagnóstico.
A frase que resume o atlasO laudo escolhe o mundo, o órgão escolhe a régua, a metástase hepática escolhe se existe síndrome, e o octreotide é a droga que aparece nos quatro papéis — sintoma, imagem, freio e crise.