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ENARE R+ CIRURGIA
Atlas da Anticoagulação Perioperatória
ENARE R+ Cirurgia Geral · Atlas 25

Atlas da Anticoagulação Perioperatória

Uma questão de anticoagulante no pré-operatório tem sempre a mesma espinha: qual droga, quanto sangra o procedimento e quanto tromba o paciente — nessa ordem. Quem responde na ordem errada cai na ponte de heparina, que é o distrator predileto da banca. Esta página desmonta a farmacocinética antes de chegar à conduta.

Questão-mãe

Mulher de 68 anos, em uso de apixabana por fibrilação atrial não valvar (escore CHA2DS2-VASc de 3), sem eventos tromboembólicos prévios, será submetida a colectomia eletiva. Clearance de creatinina de 70 mL/min, sem sangramento ativo e sem trombocitopenia. Quanto ao manejo perioperatório do anticoagulante, a conduta é:

  1. Suspender a apixabana 48 horas antes e realizar ponte com heparina de baixo peso molecular em dose plena.
  2. Suspender a apixabana 7 dias antes e realizar ponte com heparina não fracionada intravenosa.
  3. Manter a apixabana até a véspera, suspendendo apenas a dose da manhã da cirurgia.
  4. Reverter com concentrado de complexo protrombínico na indução, mantendo o anticoagulante até a cirurgia.
  5. Suspender a apixabana 48 horas antes, sem ponte com heparina, e reiniciar quando a hemostasia permitir.
CAPÍTULO 00

Antes de começar: o vocabulário do caso

Cada palavra do enunciado carrega uma decisão. Estes dezesseis cartões dizem o que cada termo é, em linguagem de leigo, e por que ele aparece nesta questão. Se algum deles for novidade, leia-o agora — os capítulos seguintes assumem todos eles.

droga
Apixabana

Comprimido que afina o sangue bloqueando um único ponto da coagulação, o fator Xa. Dose usual 5 mg duas vezes ao dia. Chamada de DOAC ou NOAC (anticoagulante oral direto).

É a protagonista da questão: sua meia-vida curta (≈ 12 h) é o motivo pelo qual 48 h de suspensão bastam.

conceito
Meia-vida

Tempo que o corpo leva para eliminar metade da droga que está no sangue. Depois de 4 meias-vidas sobra ≈ 6 % da dose; depois de 5, ≈ 3 %.

Toda a matemática do "quando suspender" é contar meias-vidas até sobrar pouco o bastante para operar.

doença
Fibrilação atrial não valvar

Arritmia em que os átrios tremem em vez de contrair. O sangue estagna no apêndice atrial esquerdo, forma coágulo e o coágulo viaja para o cérebro. "Não valvar" significa: sem prótese valvar mecânica e sem estenose mitral reumática moderada a grave.

É o que define que a paciente pode usar DOAC. Se fosse valvar, só varfarina serviria — e a lógica da ponte mudaria.

escore
CHA2DS2-VASc

Soma de fatores que estima o risco de AVC na fibrilação atrial: insuficiência cardíaca 1, hipertensão 1, idade ≥ 75 2, diabetes 1, AVC/AIT prévio 2, doença vascular 1, idade 65–74 1, sexo feminino 1.

O 3 da paciente vem de idade 65–74 (1) + sexo feminino (1) + um fator clínico (1). É risco baixo a moderado — longe do patamar que justificaria ponte.

conceito
Ponte (bridging)

Substituir temporariamente o anticoagulante oral por heparina injetável em dose plena durante os dias em que o oral está fora. Não é profilaxia: é anticoagulação terapêutica de curta duração.

É o distrator central da questão. Ponte foi inventada para a varfarina; aplicá-la a um DOAC só acrescenta sangramento.

droga
Heparina de baixo peso molecular (HBPM)

Enoxaparina, dalteparina. Injeção subcutânea que age sobretudo sobre o fator Xa. Dose plena = 1 mg/kg 12/12 h; dose profilática = 40 mg/dia.

As duas doses são coisas diferentes. Confundi-las é confundir ponte com profilaxia de TEV — erro que a banca cobra literalmente.

droga
Heparina não fracionada (HNF)

Heparina "comum", intravenosa contínua, meia-vida de 60–90 minutos, controlada por TTPa e revertida por protamina.

Reservada a quem tem insuficiência renal grave ou precisa de liga/desliga rápido. Na alternativa B ela aparece junto com um prazo absurdo de 7 dias.

exame
Clearance de creatinina (ClCr)

Estimativa de quanto sangue os rins filtram por minuto. Normal ≈ 90–120 mL/min. Calculado por Cockcroft-Gault, que é a fórmula usada nas bulas dos DOACs.

70 mL/min é função renal boa. Isso mantém a meia-vida da apixabana em ≈ 13 h e valida o prazo de 48 h. Se fosse dabigatrana com ClCr 30, o prazo saltaria para 4 dias.

cirurgia
Colectomia eletiva

Ressecção de um segmento do cólon com anastomose, programada. Superfície cruenta ampla, mesocólon vascularizado, cavidade fechada onde o sangramento não se vê.

É classificada como procedimento de alto risco de sangramento. É esse rótulo — e não a idade nem o escore — que define o prazo de 48 h em vez de 24 h.

conceito
Risco de sangramento do procedimento

Classificação em mínimo (dentária simples, catarata), baixo (colonoscopia diagnóstica, hérnia, marca-passo) e alto (abdome maior, cardíaco, intracraniano, espinhal, urológico maior, neuroeixo).

É a variável que define o prazo de suspensão. Aprender essa lista rende mais pontos que decorar meias-vidas.

conceito
Risco tromboembólico do paciente

Chance de o paciente formar coágulo enquanto está sem anticoagulante. Alto = prótese mitral mecânica, AVC/AIT < 3 meses, TEV < 3 meses, trombofilia grave, CHA2DS2-VASc muito alto.

É a variável que define se há ponte — e ela só entra em jogo quando a droga é varfarina.

droga
Varfarina

Antagonista da vitamina K. Não bloqueia um fator: impede o fígado de fabricar os fatores II, VII, IX e X. Por isso demora dias para sair de ação e dias para voltar.

Toda a existência da ponte se explica por essa lentidão. Entender isso é entender por que o DOAC não precisa de ponte.

exame
INR

Razão normalizada internacional: mede o quanto a via extrínseca está lentificada. Alvo terapêutico na fibrilação atrial: 2,0–3,0. Sem anticoagulante fica ≈ 1,0.

É o termômetro da varfarina. Os DOACs não se monitoram por INR — um INR normal em quem tomou apixabana há 6 h não significa sangue "limpo".

droga
Concentrado de complexo protrombínico (CCP)

Frasco com os fatores II, VII, IX e X já prontos, derivados de plasma. Dose 25–50 U/kg. Repõe em minutos o que a varfarina impediu de fabricar.

É o veneno da alternativa D. Reverter anticoagulação em cirurgia eletiva é trocar um risco que o tempo resolve de graça por um risco trombótico que se compra caro.

droga
Andexanete alfa e idarucizumabe

Antídotos específicos. Andexanete é um fator Xa falso que sequestra os inibidores do Xa (apixabana, rivaroxabana). Idarucizumabe é um anticorpo que gruda na dabigatrana.

Existem para sangramento com risco de vida ou cirurgia de emergência inadiável. Nunca para cirurgia programada.

achado
Sem sangramento ativo, sem trombocitopenia

Duas negativas que o enunciado faz questão de dar: a paciente não está sangrando agora e o número de plaquetas está normal.

São exatamente as duas condições que justificariam reverter ou transfundir. Ao negá-las, o enunciado fecha a porta das alternativas D e de qualquer conduta de urgência.

Por que este tema volta todo ano

Anticoagulante no perioperatório é o encontro de três especialidades numa questão só: a cardiologia decide por que o paciente anticoagula, a farmacologia decide quanto tempo a droga sobra no sangue, e a cirurgia decide quanto aquilo vai sangrar na mesa. A banca gosta desse cruzamento porque ele separa quem decorou uma tabela de quem entende de onde a tabela veio — e porque o erro tem consequência real: um paciente operado com anticoagulante circulante sangra, e um paciente com ponte desnecessária sangra mais ainda.

Há um segundo motivo, mais prosaico. A conduta correta mudou nos últimos dez anos e boa parte dos serviços ainda opera pela conduta antiga. Dois ensaios grandes derrubaram a ponte: o BRIDGE (2015) mostrou que, em fibrilação atrial em varfarina, não fazer ponte é tão seguro quanto fazer, com menos da metade do sangramento maior; o PAUSE (2019) mostrou que os DOACs podem ser suspensos por um esquema fixo de 1 ou 2 dias, sem ponte e sem nenhum exame de coagulação prévio. Toda questão de prova hoje é escrita a partir desses dois estudos, e as alternativas erradas são fósseis da prática anterior a eles.

Guarde istoA pergunta nunca é "quanto essa paciente tromba". A pergunta é, em ordem: (1) qual droga → define a lógica; (2) quanto sangra o procedimento → define o prazo; (3) quanto tromba o paciente → define se há ponte, e isso só importa na varfarina.

Como a banca cobraChance de cair ≈ 55 %

O tema aparece em pelo menos uma das três roupagens: (a) o caso clássico, DOAC + cirurgia eletiva de alto risco, testando o prazo e a ausência de ponte; (b) a troca de droga, com dabigatrana e clearance reduzido, testando se você sabe que só ela é 80 % renal; (c) a inversão, com varfarina e prótese mecânica, testando se você sabe que aí a ponte é indicada. Frases-gatilho literais: "fibrilação atrial não valvar" e "sem eventos tromboembólicos prévios" pedem sem ponte; "prótese valvar mitral mecânica", "AVC há 2 meses" e "TVP há 6 semanas" pedem com ponte; "clearance de 30 mL/min" com dabigatrana pede 4 dias.

CAPÍTULO 01

O relógio da droga

Toda a regra de "quantas horas antes" é uma conta só: quanto sobra da droga no sangue depois de n horas. O gráfico faz essa conta ao vivo, e mostra por que o rim muda tudo para uma droga e quase nada para outra.

Como usar este instrumento
  1. Escolha a droga nos botões da direita. A curva cheia é a concentração no plasma; a curva pontilhada é a mesma droga num rim perfeito (ClCr 100), para comparação.
  2. Arraste Clearance de creatinina de 100 para 30 e observe qual curva se deforma. A da apixabana quase não se move; a da dabigatrana se arrasta para a direita.
  3. Arraste Horas desde a última dose até o veredito ficar verde. Esse é o prazo de suspensão daquela droga naquele rim.

Exercício: ponha apixabana com ClCr 70 e leve o tempo a 48 h → sobra ≈ 8 % do pico, ≈ 13 ng/mL, verde. Agora troque só a droga para dabigatrana e baixe o ClCr para 32, mantendo as mesmas 48 h → sobram ≈ 31 %, ≈ 54 ng/mL, vermelho. Mesma cirurgia, mesmo prazo, resultado oposto — e a única coisa que mudou foi por onde a droga sai.

Anticoagulante oral direto

Clearance de creatinina70 mL/min
Horas desde a última dose48 h
Fração eliminada pelo rim27 % Meia-vida neste rim13,1 h Meias-vidas decorridas3,7 Resíduo estimado13 ng/mL Percentual do pico7,8 %
Liberado—

O que quer dizer "concentração no plasma", em termos simples

Quando a paciente engole o comprimido de apixabana às 8 h, a droga é absorvida e a quantidade dela no sangue sobe até um pico por volta de 3 h depois — cerca de 170 nanogramas por mililitro, que é o pico marcado no alto do gráfico. A partir dali o fígado e o rim começam a retirá-la, e a quantidade cai. Não cai em linha reta: cai pela metade em intervalos fixos. É a chamada eliminação de primeira ordem, e é o que dá à curva o formato de escorregador.

O intervalo em que a quantidade cai pela metade é a meia-vida. Para a apixabana em rim normal são cerca de 12 horas. Isso significa: 12 h depois da última dose sobra metade; 24 h, um quarto; 36 h, um oitavo; 48 h, um dezesseis avos, ou 6 %. É por isso que o número 48 aparece na alternativa correta — ele não é um número arbitrário de diretriz, é quatro meias-vidas.

Por que "quatro meias-vidas" é o alvo, e não zero

Não existe sangue sem nenhuma molécula de droga. O que existe é um limiar abaixo do qual a droga não interfere mais na hemostasia cirúrgica. O estudo PAUSE mediu isso diretamente: dosou o nível residual de apixabana, rivaroxabana e dabigatrana no dia da cirurgia em três mil pacientes que suspenderam pelo esquema fixo. Mais de 90 % chegaram ao centro cirúrgico com menos de 50 ng/mL, e a esmagadora maioria dos que iam para procedimentos de alto risco chegaram abaixo de 30 ng/mL. Essas são as duas linhas horizontais do gráfico.

O achado que fecha a questão é o desfecho: com esse esquema, sem ponte e sem dosar nada antes, o tromboembolismo arterial em 30 dias ficou entre 0,16 % e 0,6 %, e o sangramento maior entre 0,9 % e 1,85 %. São números de segurança que nenhuma estratégia de ponte reproduziu.

Os números, e o que cada um decide

≈ 12 hMeia-vida da apixabana. Fração renal 27 % — o rim quase não muda o prazo. ≈ 5–13 hMeia-vida da rivaroxabana (mais longa no idoso). Fração renal 33 %. ≈ 10–14 hMeia-vida da edoxabana. Fração renal 50 %. ≈ 12–17 hMeia-vida da dabigatrana. Fração renal 80 % — é a única em que o clearance manda no prazo. 36–42 hMeia-vida da varfarina. Mas o que importa nela é a meia-vida dos fatores que ela deixou de fabricar (protrombina, 60–72 h) — por isso 5 dias. 4–7 hMeia-vida da enoxaparina. Por isso a última dose plena da ponte é 24 h antes: 4 meias-vidas. 60–90 minMeia-vida da heparina não fracionada. Por isso a infusão é desligada 4–6 h antes. < 30 ng/mLNível residual seguro para procedimento de alto risco de sangramento e para punção do neuroeixo. < 50 ng/mLNível residual aceitável para procedimento de baixo risco.

A regra que cai em prova é a do esquema fixo do PAUSE, reproduzida nas diretrizes do ACCP/CHEST 2022: para os inibidores do fator Xa, 24 h antes de procedimento de baixo risco e 48 h antes de procedimento de alto risco, independentemente do clearance, desde que ele esteja acima de 30 mL/min. Para a dabigatrana, os mesmos 24 e 48 h se o clearance for ≥ 50; se estiver entre 30 e 49, os prazos dobram para 48 h e 96 h. Nenhum desses prazos depende do escore CHA2DS2-VASc — o escore não entra na conta do tempo.

Como isso aparece na paciente do enunciado

Ela tem 68 anos, usa apixabana e tem clearance de 70 mL/min. Coloque esses valores no instrumento: a meia-vida efetiva sobe de 12 h para pouco mais de 13 h — um acréscimo de uma hora, porque só 27 % da droga sai pelo rim e ele está funcionando bem. Em 48 h passaram-se 3,7 meias-vidas e sobram cerca de 13 ng/mL, bem abaixo dos 30. A colectomia pode começar com a hemostasia dela intacta.

Repare no que o enunciado não pede: nenhuma dosagem de anti-Xa antes da cirurgia, nenhum INR, nenhum TTPa. O PAUSE mostrou que o esquema fixo dispensa a medição, e é exatamente por isso que a alternativa correta não menciona exame nenhum. Se a questão trouxesse "solicitar dosagem de atividade anti-Xa na manhã da cirurgia" como alternativa, seria distrator.

Guarde istoPrazo de suspensão de DOAC = 24 h se o procedimento é de baixo risco, 48 h se é de alto risco. A única droga que muda essa conta com o rim é a dabigatrana, porque só ela é 80 % renal: com clearance entre 30 e 49, dobra para 48 h e 96 h.
Como a banca cobraChance de cair ≈ 40 %

A roupagem mais comum é dar o clearance no enunciado e esperar que você o use — mesmo quando ele é irrelevante. Com apixabana e clearance de 70, o número serve só para excluir a insuficiência renal; quem tenta "ajustar o prazo pelo clearance" acaba escolhendo 72 h ou 5 dias e erra. A segunda roupagem é a inversa: dabigatrana com clearance entre 30 e 50, em que ignorar o rim leva a marcar 48 h quando a resposta é 96 h. Frase-gatilho: sempre que o enunciado nomear dabigatrana e der um clearance abaixo de 50, o prazo dobra.

CAPÍTULO 02

Onde cada droga corta a cascata

Quem sabe onde a droga corta acerta sozinho três coisas que a prova cobra separadas: qual exame se altera, qual antídoto funciona e por que a varfarina é lenta e o DOAC é rápido.

Como usar este instrumento
  1. Clique numa droga na coluna da direita. Os pontos da cascata que ela bloqueia acendem em vermelho.
  2. Leia, no painel abaixo dos botões, o exame que se altera. Confira se ele corresponde à via em que os pontos acenderam — via intrínseca acende, TTPa alarga; via extrínseca acende, INR sobe.
  3. Compare varfarina com apixabana: uma acende quatro caixas espalhadas, a outra acende uma só.

Exercício: clique em varfarina e conte as caixas acesas — são quatro, e ela não bloqueia nenhuma delas: impede o fígado de fabricá-las. Agora clique em apixabana — uma caixa. Essa diferença de arquitetura é a explicação inteira de por que uma sai de ação em cinco dias e a outra em dois.

VIA INTRÍNSECA · TTPa VIA EXTRÍNSECA · TP / INR FXII → FXIIa FXI → FXIa FIX → FIXa + FVIIIa Fator tecidual + FVIIa FX → FXa (+ FVa) Protrombina → Trombina Fibrinogênio → Fibrina amplificação anti-Xa tempo de trombina COÁGULO ESTÁVEL · FXIIIa

Droga

Leitura—

O que é a cascata, dito de forma simples

Coagular é transformar um líquido em gel. O gel é a fibrina, uma rede de fios que prende as plaquetas e fecha o buraco. O fibrinogênio circula no sangue o tempo todo em forma solúvel, e só vira fibrina quando uma enzima chamada trombina o corta. Toda a cascata existe para produzir trombina no lugar certo e na hora certa.

A cascata tem duas portas de entrada que dão no mesmo corredor. A via extrínseca é acionada quando o vaso se rompe e o sangue encontra o fator tecidual, uma proteína que só existe fora do vaso — é a via da lesão, rápida, e é ela que o INR mede. A via intrínseca é acionada por contato com superfícies e serve sobretudo para amplificar o que a extrínseca começou — é ela que o TTPa mede. As duas convergem no fator X, e a partir dali o caminho é único: Xa gera trombina, trombina gera fibrina.

Por que o ponto onde a droga corta muda tudo

Os DOACs são inibidores diretos: a molécula gruda no sítio ativo da enzima e o desliga. Apixabana, rivaroxabana e edoxabana grudam no fator Xa; a dabigatrana gruda na trombina. Como agem sobre uma enzima que já está circulando, o efeito aparece em 2 a 4 horas — o tempo de a droga ser absorvida — e some quando a droga é eliminada. Ligar e desligar são igualmente rápidos.

A varfarina não gruda em nada. Ela bloqueia a enzima que recicla a vitamina K no fígado, e sem vitamina K reciclada o hepatócito não consegue terminar de fabricar os fatores II, VII, IX e X. Os fatores que já estavam prontos no sangue continuam funcionando até serem consumidos. Por isso o efeito só aparece depois que o estoque acaba, e por isso ele só desaparece depois que o fígado repõe o estoque. Pense num reservatório: o DOAC fecha a torneira de saída, a varfarina desliga a fábrica — e o reservatório leva dias para esvaziar e dias para encher.

Um detalhe que a banca adora: a varfarina também bloqueia a fabricação das proteínas C e S, que são anticoagulantes naturais e têm meia-vida mais curta que a dos fatores procoagulantes. Nos primeiros dias de varfarina o sangue fica transitoriamente mais trombogênico, não menos. É a explicação da necrose cutânea induzida por varfarina e o motivo histórico de se cobrir o início do tratamento com heparina.

Os números, e o que cada um decide

INRMede a via extrínseca. Alterado pela varfarina. Não serve para monitorar DOAC: pode estar normal com apixabana plena no sangue. TTPaMede a via intrínseca. Monitoriza a HNF. Um TTPa normal praticamente exclui dabigatrana em nível relevante, mas não a quantifica. Anti-XaÚnico exame que quantifica HBPM, fondaparinux e os inibidores do Xa — e exige calibrador específico para cada droga. Tempo de trombinaExtremamente sensível à dabigatrana. Se estiver normal, não há dabigatrana relevante circulando. II, VII, IX, XOs quatro fatores dependentes de vitamina K. É o que a varfarina desliga e o que o CCP repõe. Prot. C e SAnticoagulantes naturais, também dependentes de vitamina K, com meia-vida menor — a razão do estado pró-trombótico inicial da varfarina.

A regra que cai é a de qual exame não serve: pedir INR ou TTPa para "confirmar que a apixabana saiu" é conduta errada, e o esquema fixo do PAUSE foi validado exatamente para dispensar essa dosagem. Se uma alternativa propuser exame de coagulação de rotina antes de cirurgia eletiva em paciente em DOAC com prazo cumprido, ela é distrator.

Guarde istoDOAC = tampa numa enzima que já existe → liga e desliga em horas. Varfarina = fábrica desligada → liga e desliga em dias. Toda a diferença de conduta perioperatória entre as duas famílias sai dessa única frase.
Como a banca cobraChance de cair ≈ 25 %

Aparece de duas formas: perguntando qual exame monitoriza qual droga (o par que mais confunde é HBPM → anti-Xa, não TTPa) e perguntando o antídoto correto. O distrator clássico é oferecer protamina para um DOAC — protamina só reverte heparina, porque só ela é uma molécula com carga oposta à da heparina. Frases-gatilho: "TTPa alargado em paciente em uso de heparina não fracionada"; "INR de 1,1 em paciente que tomou rivaroxabana há 4 horas" (o INR normal não autoriza operar).

CAPÍTULO 03

O buraco da varfarina, e por que o DOAC não tem

Ponte não é um cuidado extra que se oferece a quem tromba muito. É um remendo inventado para tapar um buraco que só a varfarina cria. Este instrumento desenha o buraco.

Como usar este instrumento
  1. Olhe primeiro sem tocar em nada. As duas faixas mostram o nível de anticoagulação do mesmo paciente, do 7.º dia antes ao 7.º depois da cirurgia. A linha tracejada é o nível terapêutico; a área vermelha é o tempo em que o paciente está desprotegido.
  2. Compare a largura das duas áreas vermelhas. A da varfarina começa dias antes e termina dias depois; a do DOAC é um traço estreito em volta da cirurgia.
  3. Ligue a ponte na varfarina e veja a área vermelha encolher. Depois ligue a ponte no DOAC e veja o que ela tapa — quase nada — ao custo de sangramento que o painel mostra.

Exercício: sem ponte, a varfarina deixa ≈ 7,9 dias abaixo do nível terapêutico e o DOAC ≈ 3,4. Ligue a ponte na varfarina: cai para ≈ 2,6 dias, e o sangramento maior sobe de 1,3 % para 3,2 %. Ligue a ponte no DOAC: a proteção ganha 1,4 dia e o sangramento sobe igual. Esse par de números é o gabarito da questão-mãe.

Ponte com HBPM em dose plena

Leitura—
O que a ponte nunca éPonte é heparina em dose plena (enoxaparina 1 mg/kg 12/12 h). Profilaxia de TEV pós-operatória é heparina em dose profilática (enoxaparina 40 mg/dia). Todo paciente da colectomia recebe a segunda; quase nenhum recebe a primeira. Chamar profilaxia de ponte é o erro que faz marcar a alternativa A.

De onde veio a ideia de ponte

Nos anos 1990, quem usava varfarina e precisava operar ficava sem anticoagulação por cerca de uma semana e meia: cinco dias para o INR cair até 1,2 e mais cinco para voltar ao alvo depois da cirurgia. Para um portador de prótese valvar mecânica, uma semana e meia desprotegido é tempo suficiente para trombosar a prótese. Alguém propôs o óbvio: encher esse vale com uma heparina, que liga e desliga em horas. Nasceu a ponte.

A lógica era impecável para o problema que existia. O que ninguém tinha medido era o preço. A heparina em dose plena até 24 h antes da cirurgia e retomada 24 a 48 h depois é anticoagulação terapêutica num paciente recém-operado — e o preço é sangramento.

Os dois ensaios que reescreveram a conduta

O BRIDGE (NEJM, 2015) randomizou 1.884 pacientes com fibrilação atrial em varfarina que iriam operar: ponte com dalteparina contra placebo. Tromboembolismo arterial em 30 dias: 0,4 % sem ponte contra 0,3 % com ponte — não inferior. Sangramento maior: 1,3 % sem ponte contra 3,2 % com ponte. Ou seja, a ponte não evitou AVC e multiplicou o sangramento por dois e meio. Desde então, mesmo na varfarina, a ponte ficou restrita ao subgrupo de risco trombótico alto, que o BRIDGE não incluiu.

O PAUSE (JAMA Intern Med, 2019) fez a pergunta análoga nos DOACs, mas sem grupo-ponte: 3.007 pacientes suspenderam apixabana, rivaroxabana ou dabigatrana por um esquema fixo de 1 dia (baixo risco) ou 2 dias (alto risco), sem ponte e sem dosar nada, e retomaram em 24 h ou 48–72 h. Tromboembolismo arterial em 30 dias entre 0,16 % e 0,6 %; sangramento maior entre 0,9 % e 1,85 %. É esse esquema, e não outro, que a alternativa E descreve.

Por que o DOAC não tem buraco para tapar

Volte ao capítulo 01 e olhe o formato das duas curvas. A da varfarina desce devagar e sobe devagar, porque depende de o fígado consumir e depois repor um estoque de proteínas. A do DOAC desce em dois dias e, quando o comprimido volta, sobe ao pico em três horas. O vale do DOAC é um V estreito; o da varfarina é uma banheira. Tapar um V com heparina significa dar anticoagulação plena a um paciente que ficaria desprotegido por pouco mais de um dia — e dar isso justamente na janela em que a anastomose colônica ainda não está selada.

Há ainda um risco que a prova raramente explicita: quando se faz ponte com um DOAC, a heparina plena e o DOAC se sobrepõem nas pontas, porque o DOAC ainda tem resíduo quando a heparina começa e já tem nível quando ela termina. Dois anticoagulantes ao mesmo tempo, num pós-operatório de colectomia, é a receita de hematoma de parede e de sangramento na linha de grampos.

Como isso aparece na paciente do enunciado

Ela usa apixabana, não varfarina. O buraco dela dura de 48 h antes até 48 a 72 h depois — e mesmo esse intervalo é coberto, na parte pós-operatória, por profilaxia de TEV em dose profilática, que ela receberia de qualquer forma por ser uma colectomia. O risco de AVC dela nesses poucos dias, com CHA2DS2-VASc 3 e nenhum evento prévio, é da ordem de alguns centésimos de por cento. O risco de sangramento maior que a ponte acrescentaria, pelo BRIDGE, é da ordem de dois por cento. A conta não fecha em nenhum cenário.

Guarde istoPonte existe porque a varfarina é lenta, não porque o paciente é trombótico. Em DOAC, a resposta é sempre "sem ponte" — e em varfarina, "com ponte" só quando o risco trombótico é alto: prótese mitral mecânica, AVC/AIT há menos de 3 meses, TEV há menos de 3 meses, trombofilia grave.
Como a banca cobraChance de cair ≈ 50 %

Esta é a linha da questão. A banca sempre oferece uma alternativa com o prazo certo e a ponte errada — na questão-mãe é a alternativa A, "48 horas antes e ponte com HBPM em dose plena". Quem conhece o prazo mas não a lógica marca A e perde a questão inteira. A defesa é fixa: identificado um DOAC, elimine antes de ler o resto toda alternativa que contenha a palavra ponte. Frases-gatilho para o cenário oposto, em que a ponte é correta: "prótese valvar mitral mecânica", "AVC isquêmico há 6 semanas", "trombose venosa profunda há 2 meses", "síndrome antifosfolípide".

CAPÍTULO 04

A máquina de decisão

Três perguntas, sempre nesta ordem. A primeira define a lógica, a segunda define o prazo, a terceira define se existe ponte. A máquina devolve o calendário dia a dia e diz a que alternativa da questão-mãe aquilo corresponde.

Como usar este instrumento
  1. Comece pelos atalhos: clique em "a paciente da questão" e leia o calendário que aparece. Cada faixa é um dia; a coluna com a linha grossa é o dia da cirurgia.
  2. Mude uma variável de cada vez e observe qual linha do calendário se move. Trocar o procedimento move o começo; trocar a droga move o começo e o formato; trocar o risco trombótico só acende ou apaga a faixa da ponte.
  3. Leia o bloco vermelho "proibido" — ele nomeia, para cada configuração, a alternativa de prova que aquela combinação torna errada.

Exercício: deixe a droga em inibidor do Xa e mude o risco trombótico de baixo para alto. Nada acontece na faixa da ponte. Agora troque a droga para varfarina, mantendo o risco alto: a faixa acende. Isso prova, com o instrumento, que o risco trombótico só é uma variável de decisão quando a droga é varfarina.

Atalhos de cenário

1 · Qual a droga?

2 · Quanto sangra o procedimento?

3 · Quanto tromba o paciente?

Clearance de creatinina70 mL/min

    Pergunta 1 — qual a droga, e por que ela vem primeiro

    Começar pela droga não é uma preferência de organização: é o que impede o erro mais caro. Se a droga é um DOAC, a terceira pergunta deixa de existir, porque não há ponte a decidir. Quem começa pelo risco trombótico chega ao fim com um paciente "de risco moderado a alto" na cabeça e escolhe a alternativa que oferece heparina — que é exatamente o que a banca quer.

    Uma checagem que vale ponto: DOAC só é opção em fibrilação atrial não valvar e no tratamento de tromboembolismo venoso. Em prótese valvar mecânica, DOAC é contraindicado — o ensaio RE-ALIGN, com dabigatrana em portadores de prótese mecânica, foi interrompido por excesso de trombose de prótese e de sangramento. Portanto, se o enunciado disser "prótese mecânica" e alguma alternativa propuser trocar a varfarina por um DOAC no perioperatório, ela é errada por dois motivos ao mesmo tempo.

    Pergunta 2 — quanto sangra o procedimento, e o que entra em cada classe

    Esta é a variável que define o prazo, e a lista vale mais do que parece porque quase toda questão traz um procedimento nomeado, não uma classe. Um procedimento é de alto risco quando o sangramento é difícil de comprimir, acontece numa cavidade fechada ou num compartimento onde alguns mililitros já são catastróficos.

    AltoCirurgia abdominal maior (colectomia, gastrectomia, hepatectomia, Whipple), torácica, cardíaca, intracraniana, espinhal, urológica maior (prostatectomia, nefrectomia, RTU), ortopédica maior, biópsia renal ou hepática, polipectomia de pólipo > 1–2 cm, CPRE com papilotomia, gastrostomia endoscópica, e qualquer bloqueio do neuroeixo. BaixoHerniorrafia, colecistectomia laparoscópica eletiva, endoscopia ou colonoscopia diagnóstica com biópsias superficiais, implante de marca-passo, artroscopia, cirurgia de mama, coronariografia, cirurgia de pequeno porte de partes moles. MínimoExtração dentária de 1–3 elementos, raspagem periodontal, catarata sem bloqueio retrobulbar, procedimentos dermatológicos superficiais. Não se suspende o anticoagulante — usa-se hemostasia local, e no caso dentário ácido tranexâmico tópico ou bochecho.

    A regra que cai é a fronteira baixo/alto, porque é ela que decide entre 24 h e 48 h. Colectomia é alto por definição de superfície cruenta e de cavidade fechada; colonoscopia diagnóstica é baixo mesmo com biópsias, e vira alto assim que aparecer polipectomia de lesão grande. E há a categoria mínima, que a banca usa para punir quem suspende por reflexo: o paciente que vai extrair dois dentes não suspende nada.

    Pergunta 3 — quanto tromba o paciente, e quando isso importa

    Esta pergunta só muda a conduta na varfarina. Considera-se risco alto: prótese valvar mitral mecânica, prótese aórtica de modelo antigo (bola em gaiola ou disco basculante), prótese mecânica com AVC prévio, estenose mitral reumática, AVC ou AIT há menos de 3 meses, tromboembolismo venoso há menos de 3 meses, trombofilia grave (síndrome antifosfolípide, deficiência de antitrombina), e CHA2DS2-VASc muito alto com AVC prévio. Risco moderado: CHA2DS2-VASc de 5 a 6, TEV entre 3 e 12 meses, câncer ativo, prótese aórtica bivalvular com fator de risco. Risco baixo: o resto — e é aí que a paciente do enunciado se encaixa, com escore 3 e nenhum evento prévio.

    Quando o risco é alto e a droga é varfarina, a ponte se organiza assim: suspende-se a varfarina 5 dias antes; a HBPM em dose plena começa 3 dias antes, quando o INR já está caindo; a última dose de HBPM é dada 24 h antes da incisão (e se o esquema for de duas doses diárias, omite-se a da noite); a varfarina volta 12 a 24 h após a cirurgia; a HBPM plena volta 24 h depois em procedimento de baixo risco e 48 a 72 h em alto risco, e é mantida até o INR voltar ao alvo terapêutico.

    Como isso aparece na paciente do enunciado

    Pergunta 1: apixabana, um inibidor do fator Xa → a lógica é a do DOAC e a pergunta 3 fica desativada. Pergunta 2: colectomia → alto risco de sangramento → 48 h. Pergunta 3: escore 3, sem evento prévio → risco baixo, e mesmo que fosse alto não haveria ponte. O clearance de 70 confirma que não há motivo para alongar o prazo. Resultado: última dose na manhã do dia D-2, nenhuma dose em D-1 nem em D0, cirurgia com hemostasia normal, profilaxia de TEV em dose profilática a partir de 12 a 24 h do pós-operatório, e apixabana em dose plena entre 48 e 72 h, quando a hemostasia estiver assegurada. É a alternativa E, palavra por palavra.

    Guarde istoDroga → lógica. Procedimento → prazo. Paciente → ponte, e só na varfarina. Se você responder nessa ordem, nenhuma questão desse tema tem como te pegar.
    Como a banca cobraChance de cair ≈ 45 %

    A cobrança quase sempre embaralha a ordem das perguntas dentro do enunciado, dando o escore de trombose antes de nomear a droga, para induzir você a decidir a ponte primeiro. Outra roupagem frequente é o procedimento de classificação ambígua — "colonoscopia com polipectomia de lesão de 3 cm" (alto, não baixo) ou "colecistectomia videolaparoscópica" (baixo). Frases-gatilho: "sem eventos tromboembólicos prévios" é a banca dizendo que a pergunta 3 é baixa; "clearance de creatinina de X mL/min" com um inibidor do Xa é ruído deliberado; "colectomia", "hepatectomia", "prostatectomia" e "neurocirurgia" são a banca dizendo alto risco sem usar a palavra.

    CAPÍTULO 05

    Reversão: o que a banca pune

    Existe antídoto para tudo. O erro de prova não é escolher o antídoto errado — é usar antídoto quando o tempo resolveria de graça. Cirurgia eletiva não se reverte.

    Como usar este instrumento
    1. Escolha o cenário e a droga. As barras mostram, em escala logarítmica de tempo, quanto cada estratégia demora a devolver a hemostasia — de minutos a dois dias.
    2. A barra verde é a estratégia correta para aquele cenário. As cinzas são possíveis mas não indicadas; a vermelha é a que causa dano.
    3. Aperte caminho errado e leia o desfecho em números: o que acontece com o paciente quando se escolhe a barra errada.

    Exercício: deixe a droga em apixabana e percorra os três cenários. Na eletiva, a barra verde é a mais longa do gráfico — esperar 48 h. No sangramento com risco de vida, a verde passa a ser a mais curta. O antídoto não mudou de eficácia; mudou o que se está disposto a pagar por velocidade.

    Cenário

    Anticoagulante em uso

    O que é reverter, e por que não é o mesmo que esperar

    Reverter é repor artificialmente a capacidade de coagular que a droga tirou. Esperar é deixar o corpo eliminar a droga. As duas coisas chegam ao mesmo destino — sangue que coagula — mas por caminhos com preços muito diferentes. Esperar custa tempo e não custa mais nada. Reverter custa dinheiro, custa disponibilidade e, sobretudo, custa risco trombótico: você acabou de dar a um paciente com fibrilação atrial uma dose de fatores de coagulação prontos.

    Daí a regra que governa o capítulo inteiro: antídoto só quando o tempo não é uma opção. Cirurgia programada tem tempo por definição — é para isso que ela é programada. Por isso a alternativa D da questão-mãe, que propõe complexo protrombínico na indução de uma colectomia eletiva, é errada mesmo tendo escolhido um agente que de fato funciona.

    Cada antídoto, e por que ele funciona

    O andexanete alfa é um fator Xa modificado, cataliticamente inativo: ele tem o formato do alvo mas não faz o trabalho do alvo. As moléculas de apixabana e rivaroxabana que estavam grudadas no Xa verdadeiro migram para o chamariz, e o Xa verdadeiro volta a funcionar. Age em 2 a 5 minutos, é caríssimo e pouco disponível no Brasil.

    O idarucizumabe é um fragmento de anticorpo monoclonal com afinidade pela dabigatrana cerca de 350 vezes maior que a da própria trombina. Dose fixa de 5 g em duas ampolas de 2,5 g. É o antídoto mais limpo dos três, porque não repõe fator nenhum — apenas sequestra a droga.

    O complexo protrombínico de 4 fatores repõe II, VII, IX e X prontos, em 25 a 50 U/kg. É o antídoto lógico da varfarina, porque a varfarina é exatamente a ausência desses quatro fatores. Nos inibidores do Xa ele é usado off-label, quando não há andexanete: não retira a droga do sangue, apenas empilha tanto substrato que a coagulação vence por número. Funciona clinicamente, mas não normaliza a dosagem de anti-Xa — o que confunde quem tenta acompanhar por exame.

    A vitamina K não é antídoto de urgência: ela religa a fábrica, e a fábrica leva de 6 a 24 h para produzir. Por isso na reversão da varfarina ela vem junto com o CCP, nunca no lugar dele — o CCP resolve as próximas horas, a vitamina K impede o INR de subir de novo quando o CCP for consumido. A protamina é uma proteína fortemente positiva que se liga à heparina, fortemente negativa, neutralizando-a: 1 mg para cada 100 unidades de heparina, reversão completa da HNF e apenas parcial (cerca de 60 %) da HBPM, porque as cadeias curtas da HBPM escapam da ligação.

    Os números, e o que cada um decide

    25–50 U/kgCCP de 4 fatores. A dose maior para INR mais alto. Decide a reversão da varfarina em sangramento grave. 5–10 mg IVVitamina K junto do CCP. Decide se o INR permanece corrigido após 12 h. 5 gIdarucizumabe, dose fixa. Decide a reversão da dabigatrana. 1 mg : 100 UProtamina para heparina. Decide a reversão da HNF; na HBPM reverte só ≈ 60 %. 48 hO "antídoto" da cirurgia eletiva em apixabana: o próprio tempo. Custo zero, risco trombótico zero. ≥ 8 hDiálise remove ≈ 60 % da dabigatrana (a única dialisável, por baixa ligação proteica). Inibidores do Xa não dialisam.

    A regra que cai em prova é a hierarquia por cenário, não a dose. Eletiva → esperar. Urgência inadiável → antídoto específico se disponível, CCP se não. Sangramento com risco de vida → antídoto específico, e simultaneamente suporte transfusional, controle mecânico do foco e ácido tranexâmico. O detalhe que separa candidatos: plasma fresco congelado não reverte DOAC nem reverte bem a varfarina — precisa de volume grande demais para entregar fator suficiente.

    Como isso aparece na paciente do enunciado

    O enunciado fecha duas portas de propósito: "sem sangramento ativo" e "sem trombocitopenia". São as duas condições que autorizariam uma conduta de reversão ou de transfusão. Ao negá-las, o autor está dizendo que não há urgência hemostática nenhuma — e a alternativa D, que oferece complexo protrombínico na indução, passa a ser não apenas desnecessária mas iatrogênica: repor fatores prontos numa mulher com fibrilação atrial e escore 3 é aumentar o risco de AVC para resolver um problema que 48 h de espera resolveriam sozinhas.

    Guarde istoAntídoto responde a uma pergunta de tempo, não de droga. Se dá para esperar, espera-se. Andexanete para inibidor do Xa, idarucizumabe para dabigatrana, CCP + vitamina K para varfarina, protamina para heparina — e nunca nenhum deles em cirurgia eletiva.
    Como a banca cobraChance de cair ≈ 30 %

    Duas roupagens. A primeira é a da questão-mãe: oferecer reversão em contexto eletivo, para ver quem confunde "posso reverter" com "devo reverter". A segunda é o pareamento droga-antídoto, em que os distratores clássicos são protamina para DOAC, plasma fresco para rivaroxabana e vitamina K isolada para varfarina em sangramento intracraniano (lenta demais). Frases-gatilho: "sem sangramento ativo" e "eletiva" pedem esperar; "hematoma intraparenquimatoso", "instabilidade hemodinâmica" e "cirurgia de emergência" pedem antídoto.

    CAPÍTULO 06

    Neuroeixo, e o caminho de volta

    Duas armadilhas que moram depois da decisão principal: a raqui ou peridural exige um intervalo maior que a própria cirurgia, e reiniciar o anticoagulante cedo demais é a forma mais comum de transformar uma colectomia limpa numa reabordagem.

    Como ler esta figura
    1. O tempo corre da esquerda para a direita e termina em zero, que é o momento da punção do neuroeixo. Cada barra é o período em que aquela droga precisa estar suspensa antes de encostar a agulha na coluna.
    2. A linha vermelha tracejada marca as 48 h exigidas pela colectomia. Tudo o que ultrapassa essa linha para a esquerda é droga que exige mais tempo para o bloqueio do que para a cirurgia.
    3. Compare as três faixas da dabigatrana: a mesma droga muda de 72 para 120 h só pela função renal.

    Exercício: localize a barra da apixabana e a linha tracejada. A barra passa da linha em 24 h. Isso significa que, se a equipe da nossa paciente quiser peridural, a última dose não pode ser em D-2 e sim em D-3 — a decisão anestésica muda o prazo cirúrgico, e não o contrário.

    INTERVALO MÍNIMO ANTES DA PUNÇÃO DO NEUROEIXO · ASRA 0 h2448 7296120 48 h — exigidas pela colectomia HNF intravenosa (TTPa normal) HBPM em dose profilática HBPM em dose plena Fondaparinux Apixabana · rivaroxabana · edoxabana Dabigatrana · ClCr ≥ 80 Dabigatrana · ClCr 50–79 Dabigatrana · ClCr 30–49 4–6 h 12 h 24 h 36–42 h 72 h 72 h 96 h 120 h

    Cartão de bolso · o caminho de volta

    Retirada do cateter periduralcom o DOAC ainda suspenso DOAC após retirar o cateter≥ 6 h Profilaxia de TEV pós-op12–24 h DOAC pleno · baixo risco24 h DOAC pleno · alto risco48–72 h Varfarina pós-op12–24 h HBPM plena da ponte · alto risco48–72 h Profilaxia estendida · câncer28 dias
    A armadilha do retornoA apixabana atinge o pico 3 h depois de engolida. Dar a dose plena na noite da colectomia equivale a anticoagular o paciente sobre uma anastomose de 6 horas. É por isso que a alternativa correta diz "reiniciar quando a hemostasia permitir" e não "reiniciar em 24 h".
    O que cobre o intervaloEnquanto o oral está fora, quem protege é a profilaxia de TEV em dose profilática — que a colectomia exigiria de qualquer maneira. Isso não é ponte, e a diferença é a dose.

    Por que a coluna exige mais tempo que o abdome

    Num abdome, sangramento se manifesta como queda de hemoglobina, dreno produtivo, distensão — e há tempo para reabordar. No espaço peridural não há tempo nem espaço: o canal medular é um tubo ósseo rígido, e um hematoma de poucos mililitros comprime a medula ou a cauda equina. A paraplegia se instala em horas e, se a descompressão passar de 8 a 12 h, costuma ser definitiva. Como a consequência é catastrófica e irreversível, a margem exigida é maior: para os inibidores do Xa, 72 h em vez de 48.

    A mesma lógica governa a retirada do cateter, que é tão perigosa quanto a punção — puxar o cateter machuca as mesmas veias epidurais. Por isso o cateter sai enquanto o anticoagulante ainda está suspenso, e só depois de retirado, com pelo menos 6 h de intervalo, o DOAC volta. Cateter peridural mantido em paciente já reanticoagulado é a combinação que produz os casos publicados de hematoma espinhal.

    O retorno ao anticoagulante, e por que "quando a hemostasia permitir" não é vago

    A frase da alternativa correta parece imprecisa, mas é exatamente a formulação das diretrizes, e ela carrega três condições concretas: hemostasia cirúrgica assegurada (sem sangramento no dreno, hemoglobina estável), trato gastrointestinal funcionante para absorver o comprimido, e ausência de plano de reabordagem ou de bloqueio neuroaxial em curso. Em cirurgia abdominal maior isso costuma acontecer entre 48 e 72 h. Antes disso, a proteção é feita com dose profilática.

    Há um detalhe que a banca já cobrou e que muita gente perde: na colectomia por câncer, a profilaxia de TEV não termina na alta. Recomenda-se profilaxia estendida por cerca de 28 dias após cirurgia oncológica abdominal ou pélvica maior. Numa paciente que voltou à apixabana em dose plena, essa exigência é cumprida pelo próprio anticoagulante; numa que ainda não voltou, é cumprida pela HBPM profilática.

    Guarde istoNeuroeixo pede 72 h para os inibidores do Xa — mais que as 48 h da cirurgia. Cateter sai antes de reanticoagular, e o DOAC volta ≥ 6 h depois da retirada. No pós-operatório: dose profilática em 12–24 h, dose plena em 48–72 h.
    Como a banca cobraChance de cair ≈ 20 %

    Costuma vir como segunda pergunta do mesmo caso ("a equipe optou por analgesia peridural; qual o intervalo?") ou como questão isolada de anestesia dentro da prova de cirurgia. O distrator é oferecer as mesmas 48 h da cirurgia. Frases-gatilho: "raquianestesia", "peridural com cateter para analgesia", "punção lombar" → some 24 h ao prazo cirúrgico dos inibidores do Xa e verifique o clearance se for dabigatrana.

    A segunda cobrança é o retorno precoce. Se uma alternativa disser "reiniciar a apixabana 6 horas após o término da cirurgia", ela está descrevendo anticoagulação plena sobre uma anastomose fresca — sempre errada em procedimento de alto risco.

    CAPÍTULO 07

    Forja — nove versões da mesma questão

    A questão-mãe e oito pivôs. Em cada pivô, o dado trocado está destacado; tudo o mais permanece. Responda antes de ler a explicação — e, ao errar, identifique qual das três perguntas você respondeu errado.

    Como usar este instrumento
    1. Leia o enunciado e procure primeiro o trecho destacado: é o único dado que mudou em relação à questão-mãe.
    2. Antes de clicar, diga em voz alta qual das três perguntas do capítulo 04 aquele dado alterou — a droga, o procedimento ou o risco trombótico.
    3. Clique na alternativa. A explicação diz por que o gabarito virou e, para cada distrator, de qual outra linha da tabela-mãe ele é a conduta correta.

    Exercício: nas questões 2 e 3 o gabarito muda por motivos diferentes — na 2 mudou o procedimento (prazo), na 3 mudou a droga e o rim (prazo também, mas por outra via). Se você acertou as duas mas não sabe dizer qual pergunta cada uma mexeu, ainda não domina o tema.

    Questão 1 de 9

    acertos 0 / 0
    CAPÍTULO 08

    Tabela-mãe

    Um cartão por linha de conduta. A cor da borda superior codifica a classe: verde é a conduta segura e padrão, âmbar exige um ajuste, roxo individualiza, vermelho é o que nunca se faz. Cubra as ações e recite a partir do gatilho.

    DOAC (inibidor do Xa) + procedimento de alto risco, ClCr ≥ 30Suspender 48 h. Sem ponte. Reiniciar 48–72 h.Colectomia, gastrectomia, hepatectomia, urológica maior, neurocirurgia.
    DOAC (inibidor do Xa) + procedimento de baixo riscoSuspender 24 h. Sem ponte. Reiniciar 24 h.Hérnia, colecistectomia lap., colonoscopia diagnóstica, marca-passo.
    Qualquer anticoagulante + risco mínimo de sangramentoNão suspender. Hemostasia local; ácido tranexâmico tópico no procedimento dentário.Extração de 1–3 dentes, catarata, dermatológico superficial.
    Dabigatrana + ClCr 30–49Dobrar os prazos: 48 h se baixo risco, 96 h se alto risco. Sem ponte.Única droga em que o clearance muda o prazo. ClCr < 30: não recomendada.
    Varfarina + risco trombótico baixo ou moderadoSuspender 5 dias. Sem ponte. Conferir INR na véspera; se > 1,5, vitamina K 1–2,5 mg VO.Base: ensaio BRIDGE. FA sem AVC prévio cai aqui.
    Varfarina + risco trombótico altoSuspender 5 dias com ponte: HBPM plena de D-3, última dose 24 h antes; retomar 48–72 h; varfarina em 12–24 h.Prótese mitral mecânica, AVC/AIT < 3 m, TEV < 3 m, trombofilia grave.
    Bloqueio do neuroeixo programadoInibidor do Xa: 72 h. Dabigatrana: 72–120 h conforme ClCr. HBPM plena: 24 h; profilática: 12 h.Cateter sai antes de reanticoagular; DOAC volta ≥ 6 h após a retirada.
    Intervalo pós-operatório, oral ainda suspensoProfilaxia de TEV em dose profilática a partir de 12–24 h. Isso não é ponte.Cirurgia oncológica abdominopélvica: estender por 28 dias.
    Cirurgia de urgência inadiável em DOACAdiar 12–24 h se possível; se não, antídoto específico (andexanete / idarucizumabe) ou CCP 25–50 U/kg.Dabigatrana é a única dialisável (≈ 60 % em 8 h).
    Sangramento com risco de vidaAntídoto específico + suporte transfusional + controle do foco + ácido tranexâmico.Varfarina: CCP 25–50 U/kg com vitamina K 5–10 mg IV. Plasma isolado não serve.
    Ponte com heparina em paciente em DOACNunca. Aumenta sangramento sem reduzir tromboembolismo.É a alternativa A da questão-mãe: prazo certo, lógica errada.
    Reversão farmacológica em cirurgia eletivaNunca. O tempo resolve de graça; o antídoto acrescenta risco trombótico e custo.É a alternativa D da questão-mãe.
    Operar de alto risco com a última dose na vésperaNunca. Sobra ≈ 40 % do pico no momento da incisão.É a alternativa C da questão-mãe. Só vale em risco mínimo.
    DOAC em prótese valvar mecânicaContraindicado. Só varfarina.Ensaio RE-ALIGN, interrompido por excesso de trombose e de sangramento.