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ENARE R+ CIRURGIA
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Cirurgia Geral · R+

Abdome Agudo
Obstrutivo e Perfurativo

Guia completo com fisiopatologia, quadro clínico, diagnóstico, tratamento e quiz de alto rendimento para provas de residência médica em cirurgia.

Obstrutivo Perfurativo Diagnóstico Diferencial Classificações Quiz R+
01 Visão Geral

Definição, classificação etiológica e semiologia clínica

📖
Definição: Síndrome clínica com dor abdominal de instalação aguda (<24–72h), que pode exigir intervenção cirúrgica urgente. O diagnóstico é essencialmente clínico — o exame físico é insubstituível.

Classificação Etiológica — OPIVGH

🧠
Mnemônico: OPIVGH Obstrutivo · Perfurativo · Inflamatório · Vascular · Ginecológico · Hemorrágico
Obstrutivo

Impedimento mecânico

Aderências, hérnias, neoplasia, volvo. Simples ou estrangulado.

Perfurativo

Víscera oca perfurada

Úlcera péptica, diverticulite, neoplasia. Pneumoperitônio e peritonite.

Inflamatório

Inflamação / infecção

Apendicite, colecistite, pancreatite, diverticulite.

Hemorrágico

Sangramento peritoneal

Gravidez ectópica rota, rotura de aneurisma, hemoperitônio.

Vascular

Isquemia intestinal

Embolia / trombose da AMS, isquemia mesentérica — alta mortalidade.

Ginecológico

Causa ginecológica

Torção ovariana, cisto hemorrágico, DIP complicada.

Semiologia — Sinais e Manobras

Sinal / ManobraComo realizarPositivo sugere
BlumbergCompressão lenta + descompressão bruscaPeritonite parietal
MurphyPalpação em HCD durante inspiração profundaColecistite aguda
RovsingCompressão da FIE provoca dor em FIDApendicite aguda
PsoasExtensão passiva / flexão resistida do quadril DApendicite retrocecal
ObturadorRotação interna do quadril fletidoApendicite pélvica
JobertAusência de macicez hepática à percussãoPneumoperitônio
KehrDor irradiada para ombro esquerdoIrritação diafragmática (hemoperitônio)

Princípios Gerais de Abordagem

🚨
Paciente instável: cirurgia de emergência. Exames de imagem NÃO devem retardar a operação em pacientes hemodinamicamente instáveis.
02 Abdome Agudo Obstrutivo

Fisiopatologia, classificação, causas por faixa etária e entidades específicas

🚨
Estrangulamento = cirurgia imediata. Mortalidade pode elevar-se 5× após 24h sem tratamento. Nenhuma janela para conduta conservadora.

Fisiopatologia

⚡
Fase inicial

Hiperperistaltismo

Tentativa de vencer o obstáculo — gera a cólica clássica. Ruídos aumentados com timbre metálico.

💧
Fase intermediária

Distensão e sequestro

Acúmulo de gás (70% deglutido) e líquido no segmento proximal. Perda para 3º espaço → hipovolemia.

💔
Fase tardia — estrangulamento

Isquemia → Necrose

Pressão intraluminal > pressão capilar → comprometimento vascular → necrose → perfuração e sepse.

Tétrade Clássica

🌀

1. Dor em cólica

Ondas de dor com intervalos livres. Conversão para dor contínua = estrangulamento.

🤮

2. Vômitos

Precoces e biliosos (delgado alto). Tardios e fecaloides (cólon).

🫃

3. Distensão

Proporcional ao nível. Discreta nas altas, maciça nas baixas.

🚫

4. Parada de gases

Sinal tardio. Gases distais residuais podem ser eliminados inicialmente.

Causas por Faixa Etária

Faixa etáriaObstrução de delgadoObstrução de cólon
RN / neonatoAtresia intestinal, volvo neonatal, íleo meconialDoença de Hirschsprung, malformação anorretal
2–24 mesesIntussuscepção íleo-cólica (pico 6–12 meses)—
Adulto jovemAderências pós-operatóriasDoença de Crohn, isquemia
Adulto / idosoAderências > hérniasCâncer colorretal > diverticulite > volvo de sigmoide
🔑
Alto rendimento: Adulto com obstrução de delgado → aderências (causa nº 1). Adulto com obstrução de cólon → neoplasia colorretal (causa nº 1).

Sinais de Estrangulamento

Entidades Específicas

🌀 Volvo de Sigmoide
▾

Rotação do sigmoide em torno do mesossigmoide. Mais comum em idosos constipados crônicos, pacientes com megacólon chagásico e regiões com dieta pobre em fibras.

40%Recorrência sem cirurgia
80%Sucesso da colonoscopia
  • Rx abdome: sinal do "grão de café" ou "roda de bicicleta"
  • TC: "bico de pássaro" no ponto de torção
  • Tratamento sem isquemia: retossigmoidoscopia / colonoscopia descompressiva (1ª linha)
  • Tratamento definitivo: colectomia sigmóide eletiva após estabilização
  • Com isquemia / peritonite: laparotomia de emergência — operação de Hartmann
🍭 Intussuscepção
▾

Telescopagem do intussusceptum para o intussuscepiens. A forma íleo-cólica é a mais comum.

👶
Criança (2–24 meses): tríade clássica — cólica intermitente + massa em "salsicha" no flanco D + fezes em "geleia de groselha" (sinal tardio de isquemia). Causa: idiopática em 95%.
🧑
Adulto: sempre investigar causa orgânica — pólipo, lipoma, linfoma, neoplasia. Nunca idiopática.
  • Tratamento pediátrico 1ª linha: enema hidrostático ou pneumático (sucesso 80–90%)
  • Cirurgia pediátrica: peritonite, falha de 2–3 tentativas ou suspeita de causa orgânica
  • Tratamento do adulto: ressecção cirúrgica (não tentar redução cega)
🪨 Íleo Biliar
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Cálculo biliar grande (>2,5 cm) impacta na válvula ileocecal após erosão de fístula colecistoduodenal. Causa 1–4% das obstruções; até 25% nas maiores de 65 anos.

🔺
Tríade de Rigler (Rx)Pneumobília + Obstrução intestinal + Cálculo ectópico visível
  • TC: melhor exame — mostra os 3 componentes da tríade com maior sensibilidade
  • Tratamento 1º tempo: enterolitotomia (retirar o cálculo)
  • 2º tempo (eletivo): colecistectomia + fistulorrectomia (reduz morbimortalidade)
🫁 Síndrome de Ogilvie
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Pseudo-obstrução colônica aguda — dilatação maciça do cólon sem causa mecânica. Associada a pós-operatório, imobilização, distúrbios eletrolíticos, opioides.

⚠
Risco de perfuração: diâmetro cecal > 10–12 cm.
  • 1ª linha: neostigmina 2 mg IV em bolus lento (sucesso 70–90%). Monitorar bradicardia — atropina à beira do leito.
  • Falha: colonoscopia descompressiva
  • Cirurgia: falha endoscópica, isquemia ou perfuração
03 Abdome Agudo Perfurativo

Úlcera péptica perfurada, diverticulite e classificação de Hinchey

🚨
Peritonite difusa por perfuração = cirurgia de emergência. Cada hora sem tratamento aumenta a mortalidade. Antibióticos são adjuvantes, não substitutos da cirurgia.

Principais Causas

🔴 Úlcera Péptica Perfurada — Detalhe
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Localização: duodeno (1ª porção, parede anterior) > gástrica (pequena curvatura). Extravasamento de suco ácido (pH 1–2) → peritonite química fulminante.

Fases clínicas — armadilha de prova

🔥
0 – 6 horas

Peritonite química

Dor epigástrica em "facada", abdome em tábua, Blumberg +, sem febre. Paciente imóvel.

⚠️
6 – 12 horas

⚠ Melhora ilusória

Armadilha clínica! O ácido é diluído pelo líquido peritoneal → dor alivia. Mas a peritonite ESTÁ EVOLUINDO. Não liberar o paciente!

💀
> 12 horas

Peritonite bacteriana

Febre, sepse, distensão, deterioração progressiva. Mortalidade aumenta.

Diagnóstico

  • Rx tórax em pé: ar subdiafragmático (crescente de Jobert) — presente em 70–80%
  • TC abdome: padrão-ouro — detecta ar livre <1 mL e localiza a perfuração
  • Ausência de pneumoperitônio não exclui perfuração (20–30% não têm ar livre)

Tratamento

  • Padrão cirúrgico: rafia primária + epiploplastia (técnica de Graham) — laparoscopia ou laparotomia
  • Ressecção gástrica: suspeita de neoplasia, úlcera gigante, falha de tratamento
  • Conservador (Taylor): casos muito selecionados — jovem, <12h, sem peritonite difusa, TC sem extravasamento
✅
Pós-op essencial: pesquisar e erradicar H. pylori. Reduz recorrência de ~80% para <10%.
💥 Diverticulite Aguda Perfurada
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Classificação de Hinchey

EstágioDescriçãoConduta
IAbscesso pericólicoATB IV ± drenagem percutânea
IIAbscesso pélvico / distanteDrenagem percutânea + ATB IV
IIIPeritonite purulenta generalizadaCirurgia de emergência (Hartmann)
IVPeritonite fecal generalizadaCirurgia de emergência (Hartmann)
🔧
Operação de Hartmann: ressecção do segmento doente + colostomia terminal + fechamento do coto retal. Reconstrução do trânsito em 2º tempo (mínimo 3 meses).

Índice de Mannheim (MPI)

<21Mortalidade <5%
21–29Mortalidade ~22%
>29Mortalidade >50%

Variáveis: idade >50, sexo feminino, insuficiência orgânica, neoplasia, origem colônica do exsudato, peritonite difusa, exsudato fecal/purulento, duração >24h.

04 Diagnóstico

Laboratório, imagem e diagnóstico diferencial

Exames Laboratoriais

ExameInterpretação clínica
Hemograma + diferencialLeucocitose + desvio → infecção/inflamação. Leucopenia → sepse grave.
Lactato sérico>2 mmol/L → hipoperfusão. Pensar em estrangulamento ou isquemia mesentérica.
β-HCG quantitativoToda mulher em idade fértil. Positivo → gravidez ectópica rota até prova.
Amilase / lipaseEleva em pancreatite, mas também em úlcera perfurada e isquemia mesentérica.
Gasometria arterialAcidose metabólica → sepse, isquemia, obstrução avançada.
Ureia / creatininaAvaliar hidratação e função renal pré-op.

Exames de Imagem — Quando Usar

ExameMelhor paraLimitações
Rx abdome (3 posições)Pneumoperitônio, NHA, volvo, cálculosSensibilidade 50–70%. Jamais retardar cirurgia.
USG abdomeVesícula, líquido livre, gestante, criançaOperador-dependente; limitada por gás
TC abdome c/ contrastePadrão-ouro. Obstrução, perfuração, isquemiaRadiação, contraste. Não atrasar o instável.
RMGestante, criança, alergia a contrasteDisponibilidade, custo, tempo

Achados Radiológicos Clássicos

Rx

Ar subdiafragmático

Crescente de Jobert — perfuração de víscera oca.

Rx

NHA em escada

Níveis hidroaéreos — obstrução de delgado.

Rx

Grão de café

Alça em ansa — volvo de sigmoide.

Rx

Pneumobília

Ar nas vias biliares — fístula bilioentérica (íleo biliar).

TC

Bico de pássaro

Ponto de torção do volvo.

TC

Whirl sign

Redemoinho mesentérico — volvo.

TC

Target sign

Alça dentro de alça — intussuscepção.

TC

Pneumatose intestinal

Ar na parede — isquemia avançada.

Obstrutivo × Perfurativo

CaracterísticaObstrutivoPerfurativo
Início da dorGradual, cólicaSúbito, em facada
Tipo de dorCólica → contínua (estrangulamento)Contínua, difusa
VômitosPrecoces (alto) / tardios e fecaloides (baixo)Reflexo, não fecaloide
RHAAumentados → ausentesDiminuídos / ausentes
AbdomeDistendido, timpânicoEm tábua, rígido, Blumberg +
PneumoperitônioAusente (salvo estrangulamento tardio)Presente em 70–80%
FebreTardia (estrangulamento)Após 6–12h
05 Tratamento

Preparo pré-operatório, conduta por entidade e antibioticoterapia

Preparo Pré-Operatório — 5S

💉
Mnemônico 5S Soro (acesso venoso calibroso + Ringer Lactato) · SNG (descompressão) · SVD (monitorar diurese) · Sangue (hemoderivados) · Suporte (ATB + analgesia)
MedidaObjetivoMeta
Acesso venoso × 2Reposição volêmicaPA >90/60, FC <100
SNGDescompressão gástrica, evitar aspiraçãoDébito <200 mL/h
SVDMonitorar função renalDiurese 0,5 mL/kg/h
AnalgesiaOpioide IV não suprime peritonismoConforto do paciente
ATB empíricoCobertura gram-neg + anaeróbiosIniciar antes da cirurgia

Conduta por Situação Clínica

SituaçãoCondutaObservação
Obstrução simples de delgadoConservador 24–72h (SNG + hidratação)Operar se falha ou piora
Obstrução estranguladaCirurgia de emergência imediataNenhuma janela conservadora
Volvo de sigmoide (sem isquemia)Colonoscopia descompressiva 1ªCirurgia eletiva após estabilização
Intussuscepção pediátricaEnema hidrostático / pneumáticoCirurgia se falha ou peritonite
Íleo biliarEnterolitotomiaColecistectomia + fistulorrectomia eletiva
Úlcera perfuradaRafia (técnica de Graham)Erradicar H. pylori no pós-op
Hinchey III / IVHartmann de emergênciaReconstrução eletiva em 3+ meses
OgilvieNeostigmina 2 mg IVColonoscopia se falha; cirurgia se ceco >12 cm

Antibioticoterapia Empírica

Comunitária leve/moderada

Cefoxitina

Monoterapia. Alternativa: ciprofloxacino + metronidazol.

Hospitalar / grave

Pip/Tazo ou Carbapenêmico

+ metronidazol se não incluso. Para ESBL/Pseudomonas suspeitos.

⏱
Duração: 4–7 dias após controle do foco. Peritonite fecal pode exigir maior duração conforme evolução clínica e culturas.

Damage Control Surgery

1
1ª operação (<60 min)

Controle do foco

Ligadura / ressecção sem anastomose. Hemostasia. Fechamento temporário do abdome.

2
UTI (24–48h)

Reanimação

Correção da coagulopatia, aquecimento, suporte orgânico, antibioticoterapia.

3
2ª operação

Reconstrução

Lavagem definitiva, anastomose, fechamento da parede abdominal.

06 Pérolas R+

Os 10 pontos mais cobrados nas provas de residência cirúrgica

1

Estrangulamento = cirurgia imediata

Nenhuma janela conservadora. Mortalidade eleva 5× após 24h.

2

Melhora ilusória da úlcera perfurada

Alívio entre 6–12h ≠ melhora real. Peritonite está evoluindo.

3

Volvo de sigmoide sem isquemia

Colonoscopia descompressiva primeiro, não cirurgia de entrada.

4

Intussuscepção pediátrica

Enema hidrostático/pneumático (1ª linha). Cirurgia se falha.

5

Intussuscepção no adulto

Sempre investigar causa orgânica (neoplasia, pólipo, lipoma).

6

Tríade de Rigler — íleo biliar

Pneumobília + Obstrução intestinal + Cálculo ectópico.

7

Hinchey III e IV = Hartmann

Peritonite difusa → sem anastomose primária (exceto casos selecionados).

8

MPI > 29 → mortalidade > 50%

Mannheim Peritonitis Index. Exsudato fecal é a variável mais pesada.

9

Pneumoperitônio pós-op

Pode ser fisiológico por até 7 dias após laparotomia. Não operar sem sintomas.

10

H. pylori pós-úlcera perfurada

Erradicação obrigatória no pós-op. Reduz recorrência de 80% para <10%.

Resumo por Diagnóstico

EntidadeDado característicoConduta-chave
Volvo de sigmoideGrão de café no Rx, idoso constipadoColonoscopia + cirurgia eletiva
Intussuscepção (criança)Massa em salsicha, 2–24 meses, idiopáticaEnema hidrostático/pneumático
Íleo biliarTríade de Rigler, idosa com história de vesículaEnterolitotomia + colecistectomia eletiva
OgilviePós-op, ceco >12 cm, sem causa mecânicaNeostigmina IV
Úlcera perfuradaDor súbita, abdome em tábua, pneumoperitônioRafia (Graham) + erradicar H. pylori
Diverticulite Hinchey I/IIAbscesso sem peritonite difusaATB IV + drenagem percutânea
Diverticulite Hinchey III/IVPeritonite purulenta ou fecalHartmann de emergência
07 Quiz R+

8 questões no estilo prova de residência com gabarito comentado

Questões de alto rendimento

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