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ENARE R+ CIRURGIA
Seu Osmar, 54 anos · lombalgia · TC de abdome

Atlas do Incidentaloma Adrenal

Um nódulo que ninguém procurou. Duas perguntas decidem tudo: parece benigno? funciona? Cada capítulo abaixo é um instrumento — mexa nele até a resposta ficar óbvia antes de ler o texto.

01

A tomografia que o radiologista viu

Corte axial em T12–L1, janela de partes moles (L 40 / W 400). Troque a lesão, arraste a fase e observe o nódulo — só ele muda de lesão para lesão; o resto do abdome realça igual.

Sem contraste · nódulo 6 UH · adrenal direita, posterior à VCI
Lesão
Fase do contraste
sem contrasteportal · 60 stardia · 15 min
Nódulo nesta fase
6 UH
Tamanho
2,8 cm
Aspecto
homogêneo
Curva de realce
Washout absoluto (E−D)/(E−U)
70 %
Washout relativo (E−D)/E
65 %

A regra tem duas portas. A primeira é a fase sem contraste: um nódulo homogêneo com ≤ 10 UH é adenoma com especificidade de 98 %, e o exame pode parar aí — Seu Osmar, com 6 UH, nem precisava do washout. A segunda porta existe para os 30 % de adenomas pobres em lipídio, que medem 20–30 UH e se confundem com tudo o mais: neles o washout absoluto ≥ 60 % (ou relativo ≥ 40 %) aos 15 minutos resgata o diagnóstico. O que nenhuma das duas portas resolve — realce forte que não lava, heterogeneidade, necrose, mais de 4 cm — segue para o capítulo 4 como lesão indeterminada, com feocromocitoma, carcinoma e metástase ainda na mesa.

02

Por que o adenoma é escuro e por que ele lava

Dois campos microscópicos, mesma escala. À esquerda, adenoma adrenocortical; à direita, carcinoma. Arraste a fase e veja para onde o contraste vai — e de onde ele não sai.

adenoma carcinoma gotas de lipídio · núcleo · capilares fenestrados regulares neovasos tortuosos e permeáveis · contraste extravasado
Campo histológico esquemático · 20× · cores físicas, sem inversão em tema escuro
Fase do contraste
sem60 s15 min
Sem contraste. À esquerda, a célula do adenoma está cheia de gotas de lipídio — colesterol esterificado, matéria-prima do cortisol. Gordura atenua pouco o feixe: por isso o nódulo mede 6 UH. À direita, células densas, sem lipídio, próximas de 35 UH.

Os dois mecanismos, separados

densidade é um fato de composição: lipídio intracelular abaixa as unidades Hounsfield. Adenoma pobre em lipídio perde esse sinal e passa de 10 UH.

washout é um fato de vasculatura: capilares maduros e fenestrados enchem e esvaziam rápido. Carcinoma, metástase e feocromocitoma têm neovasos permeáveis e interstício largo — o contraste entra, extravasa e fica.

Por isso a prova cobra os dois números como se fossem independentes: são. Um nódulo pode ser pobre em lipídio (28 UH) e ainda assim ser adenoma pelo washout de 75 %; e um feocromocitoma pode ter washout alto em uma minoria dos casos — motivo pelo qual a imagem nunca dispensa as metanefrinas. A física é simples: o que você mede em 15 minutos é a fração de contraste que já saiu do interstício, e isso depende só da parede dos vasos.

03

As camadas, e o que cada uma faz quando se rebela

Corte da glândula da cápsula à medula. Clique em uma camada: o hormônio que ela produz, a doença quando vira autônoma, o teste que a acusa e a conduta.

cápsulaglomerulosafasciculadareticuladamedula salaçúcarsexoestresse
Corte histológico esquemático, cápsula para cima · córtex mesodérmico, medula da crista neural
Zona fasciculada

Cortisol

A ordem das camadas é a ordem dos três testes obrigatórios. A glomerulosa responde à angiotensina II e ao potássio, não ao ACTH — por isso o aldosteronoma é pequeno, quase sempre menor que 2 cm, e o rastreio é a relação aldosterona/renina em quem tem hipertensão ou hipocalemia. A fasciculada responde ao ACTH — por isso o teste é dar 1 mg de dexametasona e ver se a glândula obedece ao freio; um cortisol acima de 1,8 µg/dL na manhã seguinte significa que ela não obedeceu. A medula não tem eixo a suprimir: ela é acusada pelo produto, as metanefrinas, que são metabólitos intratumorais contínuos e por isso mais sensíveis que as catecolaminas em si, liberadas em pulsos.

04

A máquina de duas perguntas

Todo enunciado de incidentaloma é uma linha desta máquina. Ajuste imagem e hormônios e veja em que ponto exato a conduta vira — e qual alternativa da questão-mãe ela corresponde.

Pergunta 1 — parece benigno?
Tamanho2,8 cm
Densidade sem contraste6 UH
Washout absoluto70 %
Pergunta 2 — funciona?
Metanefrinas
Cortisol após 1 mg de dexametasona
Aldosterona / renina
Contexto
Conduta

Cenários de prova
05

Alfa antes do beta: o vaso explica

Uma arteríola em corte, com a musculatura lisa sob receptores alfa-1 e o coração sob beta-1. Avance os passos do preparo e, depois, tente o caminho errado.

arteríola · receptores α1 volume circulante coração · β1 70 % 105 bpm lúmen contraído
Passo 0 · tumor secretando catecolaminas · vaso fechado, tanque cronicamente vazio
Preparo, na ordem
190/110
PA sentado
−4
queda ortostática
105
FC

A lógica cabe numa frase: o feocromocitoma mantém o paciente com o leito arterial fechado e o tanque vazio. O alfabloqueio abre o leito — e o tanque, que já era pequeno, agora é insuficiente; por isso o preparo exige sal e volume, e por isso a hipotensão ortostática leve é meta, não complicação. O betabloqueador entra só depois, para a taquicardia reflexa: dado antes, ele tira o único freio vasodilatador (β2) e deixa o alfa sem oposição — a crise hipertensiva que a banca chama de "erro clássico". Na mesa, a manipulação do tumor faz a pressão subir, e o clampeamento da veia adrenal a faz cair no segundo seguinte: o anestesista precisa de nitroprussiato numa mão e volume na outra.

06

Na mesa: as duas veias que decidem a cirurgia

Vista anterior do retroperitônio superior com fígado, baço, estômago e pâncreas removidos. Direita do paciente à esquerda da prancha. As veias adrenais não são simétricas — e isso muda tudo na laparoscopia.

fígado afastado para cima dissecção junto à VCI 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Vista anterior coronal do retroperitônio superior, fígado, baço, estômago e pâncreas removidos · paciente em decúbito dorsal · observador de frente para o paciente (direita do paciente à esquerda) Âncoras: aorta, VCI, veia renal esquerda cruzando anterior à aorta, polos superiores renais · cabeça para cima · setas = manobra da adrenalectomia direita laparoscópica
1Veia cava inferior
2Aorta abdominal, entre os pilares do diafragma
3Veia renal esquerda, anterior à aorta
4Veia adrenal direita — curta, entra na face posterior da VCI (tracejado = plano posterior)
5Veia adrenal esquerda — longa, drena na veia renal esquerda
6Veia frênica inferior esquerda, une-se à veia adrenal esquerda
7Adrenal direita, piramidal, posterolateral à VCI
8Adrenal esquerda, semilunar, medial ao polo superior
9Artérias adrenais superior (frênica inferior), média (aorta) e inferior (renal)
10Rim, polo superior — a adrenal não o toca por baixo da fáscia de Gerota
Prancha vetorial · cores físicas fixas · calibres das artérias adrenais reduzidos para legibilidade

À direita, a veia adrenal tem meio centímetro e desemboca na face posterior da cava: é o passo mais perigoso da adrenalectomia laparoscópica direita, porque uma avulsão sangra de onde você não vê. Por isso a sequência é sempre a mesma — decúbito lateral esquerdo, fígado afastado cranialmente, peritônio posterior aberto ao longo da borda lateral da VCI, e a veia identificada e clipada antes de qualquer tração sobre a glândula. À esquerda, a veia é longa e drena na veia renal esquerda, recebendo a frênica inferior no caminho; ela é encontrada descendo pela borda medial da glândula até a renal, com o pâncreas e o baço rebatidos medialmente. No feocromocitoma essa ordem não é só técnica: clipar a veia cedo interrompe a descarga de catecolaminas na manipulação. No carcinoma, é o contrário que importa — a cápsula não pode ser violada, e por isso a via é aberta e a peça sai em bloco com a gordura periadrenal.

07

Forja: a mesma questão, oito pivôs

Cada item é a questão-mãe com um dado trocado. O dado trocado está marcado. Responda antes de abrir — o objetivo é sentir a conduta virar.

0 respondidas
08

Tabela-mãe

As linhas que a banca combina. Cada cartão é uma resposta possível; o que muda de um para outro é o que a questão vai trocar.

Adenoma típico, não funcionante

≤ 10 UH homogêneo, ou washout ≥ 60 %, < 4 cm · tríade hormonal negativa

Seguimento (Sabiston: imagem 6–12 m, hormônios 4–5 anos · ESE 2023: sem repetir imagem se ≤ 10 UH)

Feocromocitoma

Metanefrinas elevadas, qualquer imagem · hipervascular, cístico, > 10 UH

Alfa 10–14 d → sal e volume → beta se taquicardia → adrenalectomia laparoscópica

Hiperaldosteronismo primário

ARR elevada + confirmação por salina · adenoma pequeno

AVS para lateralizar → adrenalectomia lap.; bilateral → espironolactona

MACS

Cortisol pós-dexa > 5 (1,9–5 = possível) · ACTH e DHEA-S baixos · sem Cushing clínico

Comorbidade atribuível + jovem → cirurgia; senão vigilância. Hidrocortisona perioperatória

Carcinoma adrenocortical

> 4 cm heterogênea, > 10 UH, washout < 60 %, virilização, DHEA-S alto

Adrenalectomia aberta em bloco, sem violar cápsula · ENSAT, Weiss, Ki-67, mitotano

Metástase

Câncer extra-adrenal ativo + lesão indeterminada

PET-CT; biópsia só aqui, e só depois de metanefrinas normais

Mielolipoma / cisto

Gordura macroscópica (UH negativo) ou densidade de água sem realce

Sem seguimento oncológico; cirurgia só por sintoma ou hemorragia

Indeterminada, silenciosa

> 10 UH, washout < 60 %, < 4 cm, hormônios normais

RM chemical shift ou PET; repetir 6–12 m; crescimento > 1 cm ou > 20 % → cirurgia