Um nódulo que ninguém procurou. Duas perguntas decidem tudo: parece benigno? funciona? Cada capítulo abaixo é um instrumento — mexa nele até a resposta ficar óbvia antes de ler o texto.
Corte axial em T12–L1, janela de partes moles (L 40 / W 400). Troque a lesão, arraste a fase e observe o nódulo — só ele muda de lesão para lesão; o resto do abdome realça igual.
A regra tem duas portas. A primeira é a fase sem contraste: um nódulo homogêneo com ≤ 10 UH é adenoma com especificidade de 98 %, e o exame pode parar aí — Seu Osmar, com 6 UH, nem precisava do washout. A segunda porta existe para os 30 % de adenomas pobres em lipídio, que medem 20–30 UH e se confundem com tudo o mais: neles o washout absoluto ≥ 60 % (ou relativo ≥ 40 %) aos 15 minutos resgata o diagnóstico. O que nenhuma das duas portas resolve — realce forte que não lava, heterogeneidade, necrose, mais de 4 cm — segue para o capítulo 4 como lesão indeterminada, com feocromocitoma, carcinoma e metástase ainda na mesa.
Dois campos microscópicos, mesma escala. À esquerda, adenoma adrenocortical; à direita, carcinoma. Arraste a fase e veja para onde o contraste vai — e de onde ele não sai.
densidade é um fato de composição: lipídio intracelular abaixa as unidades Hounsfield. Adenoma pobre em lipídio perde esse sinal e passa de 10 UH.
washout é um fato de vasculatura: capilares maduros e fenestrados enchem e esvaziam rápido. Carcinoma, metástase e feocromocitoma têm neovasos permeáveis e interstício largo — o contraste entra, extravasa e fica.
Por isso a prova cobra os dois números como se fossem independentes: são. Um nódulo pode ser pobre em lipídio (28 UH) e ainda assim ser adenoma pelo washout de 75 %; e um feocromocitoma pode ter washout alto em uma minoria dos casos — motivo pelo qual a imagem nunca dispensa as metanefrinas. A física é simples: o que você mede em 15 minutos é a fração de contraste que já saiu do interstício, e isso depende só da parede dos vasos.
Corte da glândula da cápsula à medula. Clique em uma camada: o hormônio que ela produz, a doença quando vira autônoma, o teste que a acusa e a conduta.
A ordem das camadas é a ordem dos três testes obrigatórios. A glomerulosa responde à angiotensina II e ao potássio, não ao ACTH — por isso o aldosteronoma é pequeno, quase sempre menor que 2 cm, e o rastreio é a relação aldosterona/renina em quem tem hipertensão ou hipocalemia. A fasciculada responde ao ACTH — por isso o teste é dar 1 mg de dexametasona e ver se a glândula obedece ao freio; um cortisol acima de 1,8 µg/dL na manhã seguinte significa que ela não obedeceu. A medula não tem eixo a suprimir: ela é acusada pelo produto, as metanefrinas, que são metabólitos intratumorais contínuos e por isso mais sensíveis que as catecolaminas em si, liberadas em pulsos.
Todo enunciado de incidentaloma é uma linha desta máquina. Ajuste imagem e hormônios e veja em que ponto exato a conduta vira — e qual alternativa da questão-mãe ela corresponde.
Uma arteríola em corte, com a musculatura lisa sob receptores alfa-1 e o coração sob beta-1. Avance os passos do preparo e, depois, tente o caminho errado.
A lógica cabe numa frase: o feocromocitoma mantém o paciente com o leito arterial fechado e o tanque vazio. O alfabloqueio abre o leito — e o tanque, que já era pequeno, agora é insuficiente; por isso o preparo exige sal e volume, e por isso a hipotensão ortostática leve é meta, não complicação. O betabloqueador entra só depois, para a taquicardia reflexa: dado antes, ele tira o único freio vasodilatador (β2) e deixa o alfa sem oposição — a crise hipertensiva que a banca chama de "erro clássico". Na mesa, a manipulação do tumor faz a pressão subir, e o clampeamento da veia adrenal a faz cair no segundo seguinte: o anestesista precisa de nitroprussiato numa mão e volume na outra.
Vista anterior do retroperitônio superior com fígado, baço, estômago e pâncreas removidos. Direita do paciente à esquerda da prancha. As veias adrenais não são simétricas — e isso muda tudo na laparoscopia.
À direita, a veia adrenal tem meio centímetro e desemboca na face posterior da cava: é o passo mais perigoso da adrenalectomia laparoscópica direita, porque uma avulsão sangra de onde você não vê. Por isso a sequência é sempre a mesma — decúbito lateral esquerdo, fígado afastado cranialmente, peritônio posterior aberto ao longo da borda lateral da VCI, e a veia identificada e clipada antes de qualquer tração sobre a glândula. À esquerda, a veia é longa e drena na veia renal esquerda, recebendo a frênica inferior no caminho; ela é encontrada descendo pela borda medial da glândula até a renal, com o pâncreas e o baço rebatidos medialmente. No feocromocitoma essa ordem não é só técnica: clipar a veia cedo interrompe a descarga de catecolaminas na manipulação. No carcinoma, é o contrário que importa — a cápsula não pode ser violada, e por isso a via é aberta e a peça sai em bloco com a gordura periadrenal.
Cada item é a questão-mãe com um dado trocado. O dado trocado está marcado. Responda antes de abrir — o objetivo é sentir a conduta virar.
As linhas que a banca combina. Cada cartão é uma resposta possível; o que muda de um para outro é o que a questão vai trocar.
≤ 10 UH homogêneo, ou washout ≥ 60 %, < 4 cm · tríade hormonal negativa
Metanefrinas elevadas, qualquer imagem · hipervascular, cístico, > 10 UH
ARR elevada + confirmação por salina · adenoma pequeno
Cortisol pós-dexa > 5 (1,9–5 = possível) · ACTH e DHEA-S baixos · sem Cushing clínico
> 4 cm heterogênea, > 10 UH, washout < 60 %, virilização, DHEA-S alto
Câncer extra-adrenal ativo + lesão indeterminada
Gordura macroscópica (UH negativo) ou densidade de água sem realce
> 10 UH, washout < 60 %, < 4 cm, hormônios normais