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Atlas da Farmacodermia Bolhosa
Beira de leito · Enfermaria · Plantão noturno

Atlas da Farmacodermia Bolhosa

Apareceu bolha em quem está em vancomicina. Este atlas percorre a mesma ordem que você percorre no leito: o que a lesão parece, em que plano ela se abriu, qual droga cabe na janela de latência, o que a resposta muda — e o que dá para fazer às duas da manhã num hospital público sem dermatologista, sem infectologista e sem imunofluorescência no prédio.

Caso-índice
João Batista, 51 a · HGMC
Leito de isolamento II · 05/09/2026
01

A morfologia: oito coisas que fazem bolha num paciente de enfermaria

A esposa chamou porque apareceram manchas. Você chega, abre o lençol, e o que define a noite inteira é a resposta a uma pergunta só: que tipo de bolha é essa? Escolha a entidade e veja o campo de pele como ele apareceria sob o foco de luz. Depois passe o polegar — o botão de Nikolsky faz a manobra.

Campo de 12 × 8 cm sobre tronco anterior. Luz de foco a 45°, paciente em decúbito dorsal. Barra de referência = 2 cm.

Entidade

Repare no que separa as três primeiras: a bolha tensa sobre pele de aspecto normal, em arranjo anular, é uma coisa; a mácula acinzentada que confluiu e agora descola em lençol é outra; o eritema difuso e infiltrado com edema de face é uma terceira. As três aparecem na mesma enfermaria, nas mesmas drogas, e têm mortalidade de zero, de trinta por cento e de dez por cento respectivamente. A morfologia não é estética — é o primeiro filtro do prognóstico.

As cinco últimas existem para você não tratar como farmacodermia o que não é. Num paciente acamado há cinco meses, não contactuante, em metadona e clonazepam, com sudorese profusa referida pela esposa, bolha de coma e miliária cristalina são hipóteses reais — e a diferença entre elas e a dermatose por IgA linear se faz com uma lanterna e um dedo, não com um exame que o HGMC não tem.

02

O plano de clivagem: por que a bolha é tensa ou flácida

Tudo o que você observa na superfície — tensa ou flácida, Nikolsky positivo ou negativo, cicatriz ou não — é consequência de uma única variável: em que altura da pele o tecido se separou. Quanto mais alto o plano, mais fino o teto, mais frágil a bolha. Escolha a doença e veja a fenda se abrir na profundidade certa.

Estrato córneo Espinhoso e granuloso Camada basal Zona da membrana basal Derme papilar e plexo Derme reticular Hipoderme Glândula écrina 0,5 mm plano selecionado
Corte vertical de pele de tronco, ampliação esquemática ~40×. Vista lateral, superfície cutânea no alto, hipoderme embaixo; a glândula écrina atravessa todas as camadas e é o que explica duas das entidades desta lista.

Doença

A regra sai sozinha do desenho. Bolha alta tem teto de papel: rompe antes de você chegar ao leito, e o que você encontra é erosão com colarete de escamas, não bolha — é por isso que no pênfigo vulgar e na síndrome da pele escaldada quase nunca se vê bolha íntegra. Bolha subepidérmica tem teto de epiderme inteira: aguenta pressão, fica tensa, dura dias — é a bolha da dermatose por IgA linear e do penfigoide.

O sinal de Nikolsky mede exatamente isso. Você desliza o polegar sobre pele aparentemente sã e ela descola: só descola o que já está desconectado acima da membrana basal. Por isso Nikolsky positivo aponta para acantólise (pênfigo) ou necrose de toda a espessura epidérmica (NET), e Nikolsky negativo, numa bolha tensa, empurra você para o grupo subepidérmico — que é o grupo de bom prognóstico.

Guarde a glândula écrina. Ela obstruída no córneo dá miliária cristalina — vesícula de gota de orvalho, sem eritema, em quem sua muito, exatamente o que a esposa do João Batista descreveu. E ela necrosada na base da bolha é o achado histológico que fecha bolha de coma, uma entidade que existe justamente em paciente sedado e imóvel, e que não é farmacodermia nenhuma.

03

A linha do tempo: a droga culpada tem que caber na janela

Este é o instrumento que ninguém usa e que resolve metade dos casos. Cada tipo de reação tem uma latência característica entre a primeira dose e a lesão. Marque há quantos dias a lesão apareceu, escolha a reação que você suspeita, e a página devolve quais drogas do João Batista cabem naquela janela — e quais estão fora e podem ser absolvidas.

Eixo de 63 dias terminando em 05/09/2026. Barras cheias = droga em uso; barra com borda tracejada à esquerda = iniciada antes do eixo. A faixa sombreada é a janela de latência compatível com a reação selecionada, contada para trás a partir do dia em que a lesão apareceu.

Reação suspeita

A armadilha do "escalonada" A prescrição diz vancomicina escalonada em 05/09. Escalonar não é iniciar. Se o curso atual começou há dias ou semanas, a latência que importa é a do início do curso, não a do ajuste de dose — e é essa data que você precisa achar no prontuário antes de acusar a vancomicina. Se o curso começou hoje, a vancomicina é praticamente inocente e o suspeito passa a ser outra coisa. Deixe esse número explícito na evolução: é o dado que o dermatologista vai pedir primeiro amanhã.

Duas consequências pouco intuitivas caem desse eixo. A primeira: uma droga já suspensa continua sendo suspeita. O DRESS tem latência de duas a oito semanas, e é a única farmacodermia em que o culpado pode ter sido retirado há um mês — o sulfametoxazol-trimetoprima do tratamento anterior entra na conta por esse caminho. A segunda: a droga iniciada hoje raramente é a culpada de uma lesão que já estava lá. O levofloxacino do João Batista começou em 05/09; se a mancha apareceu antes disso, ele não causou nada — mas continuar com ele numa reação bolhosa em curso é adicionar um suspeito novo à cena do crime, e é por isso que se retira mesmo sem culpa.

A exceção que quebra a regra da latência longa é o eritema pigmentar fixo bolhoso generalizado: na reexposição ele aparece em horas. Se o paciente já usou a droga antes — e este usou quase tudo — a janela colapsa para menos de 48 horas e a lesão reaparece nos mesmos lugares de um episódio prévio. Vale perguntar à esposa se aquilo já aconteceu antes, no mesmo ponto.

04

A máquina de decisão: seis achados que reordenam tudo

Ligue os achados que você realmente encontrou no exame — não os que você imagina. A coluna da direita reordena as hipóteses e devolve a conduta correspondente, com o que está proibido naquele cenário. O erro clássico aqui não é escolher a hipótese errada: é deixar de examinar a mucosa e decidir com um dado que você não tem.

Achados do exame

Cenários prontos

Hipóteses reordenadas

Os dois achados que valem por todos os outros Mucosa e Nikolsky. Num paciente não contactuante você perdeu os pródromos — ele não vai referir ardência ocular, odinofagia nem dor na pele, que é como o SJS costuma se anunciar. Sobrou o exame físico. Abrir a boca com abaixador, everter a pálpebra e examinar o períneo são três manobras de trinta segundos que decidem se o paciente fica na enfermaria ou entra em fila de regulação. A ausência de queixa em quem não fala não é dado tranquilizador.
05

O arsenal do plantão: o que dá para fazer com o que o HGMC tem às duas da manhã

A maior parte do que se lê sobre reação bolhosa pressupõe dermatologista de plantão, imunofluorescência no prédio e leito de queimados. Nada disso existe hoje. O que existe é lâmina de vidro, punch, formol, soro fisiológico, laboratório 24 horas, câmera de celular e telefone. Cada uma dessas coisas responde a uma pergunta específica.

Fotografia com data e delimitação

Fotografe com uma régua ou uma seringa no campo e contorne as bordas do acometimento com caneta dermatográfica. Amanhã a única pergunta que importa é "progrediu?", e sem linha de base ninguém consegue responder.

Responde

Velocidade de progressão.

Armadilha

Foto sem escala e sem data não serve de comparação.

Regra da palma

A palma com os dedos do paciente equivale a cerca de 1% da superfície corporal. Conte quantas palmas de área destacada ou destacável — não de eritema. É o denominador do SJS (<10%), da sobreposição (10–30%) e da NET (>30%).

Responde

Gravidade e destino do paciente.

Armadilha

Contar eritema como destacamento superestima e gera transferência desnecessária.

Esfregaço de Tzanck

Rompa uma bolha nova, raspe o assoalho com bisturi, esfregue na lâmina, fixe e core com Giemsa ou azul de metileno. Sai em minutos no laboratório do hospital.

Responde

Células acantolíticas = pênfigo. Células gigantes multinucleadas = herpes ou varicela-zóster. Só neutrófilos e queratinócitos necróticos, sem acantólise = NET ou dermatose neutrofílica.

Armadilha

Bolha velha e infectada dá esfregaço ilegível — use a mais recente.

Punch de 4 mm em formol

Anestesia local, punch na borda da bolha incluindo teto e pele adjacente, ponto simples. Vai para histologia de rotina. Qualquer médico faz à beira do leito.

Responde

O plano de clivagem e o infiltrado — separa subepidérmico de intraepidérmico e mostra necrose de espessura total na NET.

Armadilha

Biopsiar o centro de uma bolha rota devolve "erosão inespecífica".

Punch perilesional para imunofluorescência

Segundo punch em pele sã a 1 cm da bolha. Vai em meio de Michel ou, se não houver, em gaze com soro fisiológico dentro de frasco vedado, refrigerado, enviado em até 24–48 h ao serviço de referência.

Responde

O diagnóstico definitivo: IgA linear, IgG/C3 linear, IgG intercelular ou IgA granular.

Armadilha

Formol destrói a imunofluorescência. Se só houver formol, colha assim mesmo a histologia — mas não chame aquilo de IFD.

Laboratório da madrugada

Hemograma com diferencial, TGO, TGP, fosfatase alcalina, GGT, ureia, creatinina, sódio, potássio, bicarbonato, glicemia e PCR.

Responde

Eosinófilos e transaminases fecham ou afastam DRESS; ureia, bicarbonato e glicemia são três dos sete itens do SCORTEN.

Armadilha

Hemograma sem diferencial não conta eosinófilo — peça explícito.

Cultura da bolha e hemocultura

Antes de abrir qualquer bolha para Tzanck, colha material para cultura. Neste paciente, com colonização prévia por Serratia produtora de carbapenemase e bacteremia por estafilococo, a pele pode ser porta de entrada e não só órgão de choque.

Responde

Se é farmacodermia, infecção cutânea, ou as duas.

Armadilha

Swab de bolha rota reflete colonização, não infecção.

Curativo com o que existe

Bolha íntegra não se rompe — é curativo biológico. Gaze vaselinada ou gaze com ácido graxo essencial sobre área desnuda, atadura sem adesivo sobre a pele, troca com o mínimo de tração. Controle térmico e analgesia programada.

Responde

Perda de barreira, dor e infecção secundária.

Armadilha

Fita adesiva sobre pele acometida arranca epiderme e cria lesão nova.

O telefone

Se o exame apontar sobreposição SJS/NET, a regulação começa agora, não às sete da manhã. Vaga em referência de queimados ou UTI com suporte de pele leva horas para sair, e o pedido precisa da estimativa de superfície e do SCORTEN que você acabou de calcular.

Responde

O tempo, que é a variável que você controla.

Armadilha

Esperar o parecer da dermatologia para acionar a regulação perde a madrugada inteira.

Duas biópsias, dois frascos, uma etiqueta cada Se você fizer só uma coisa desta página inteira, faça esta: dois punches, um em formol para histologia e um perilesional em meio de Michel ou soro gelado para imunofluorescência. Cinco minutos, anestesia local, e resolve o diagnóstico que de outro modo vai ficar em aberto por semanas. Se a dermatologia só vier daqui a três dias, o material já colhido hoje — antes de qualquer corticoide — vale mais do que a consulta.
06

Qual droga sai — e o preço de tirar a errada

"Suspenda o antibiótico suspeito" é uma frase de livro. Na prescrição real do João Batista há quinze itens, três deles com síndrome de retirada própria e um deles segurando uma epilepsia documentada. Clique para suspender e veja o que você ganha em segurança cutânea e o que perde em cobertura, controle de crise e conforto.

Prescrição — clique para suspender

Consequências

A conta que quase ninguém faz Retirar o levetiracetam de quem teve crise tônico-clônica generalizada em 18/06 por causa de uma mancha na pele troca um risco de dias por um risco de horas. Baclofeno suspenso de forma abrupta dá espasticidade em rebote, hipertermia e rebaixamento; metadona e clonazepam dão abstinência num paciente que não consegue avisar que está mal. A regra prática: retire primeiro o que é antimicrobiano e recente, e o que não faz falta nas próximas 24 horas. Neuroativo crônico só sai com substituição planejada e nunca no plantão.
07

O plantão de hoje: João Batista, 05/09, sem dermatologia e sem infectologia

Aqui está a noite inteira em duas colunas. A bifurcação é o exame das mucosas e o Nikolsky — tudo o que vem depois decorre dessa resposta. Os números são os do caso: 51 anos, FC 90, afebril, ar ambiente, estável.

Exame dirigido mucosas · Nikolsky % em palmas · dor qualquer alarme nenhum alarme Rota SJS / NET suspende vanco + levo SCORTEN · regulação agora olho · via aérea · volume Rota IgA linear segura a dose de vanco dois punches · foto · labs reavalia em 6 h se progredir Transferência e suporte queimados ou UTI de pele oftalmologia nas primeiras horas Manhã de 06/09 dermato · infecto · notificação definir troca por linezolida 05/09 · 02h
A bifurcação inteira depende de dois achados de exame físico, não de nenhum exame complementar. A seta tracejada é a única rota de retorno: reavaliação em seis horas que reclassifica o paciente para cima.
Se não houver sinal de alarme — as sete tarefas da noite

1. Despir por completo, examinar dorso, períneo, sob dispositivos e áreas de pressão. Registrar Nikolsky por escrito, positivo ou negativo.

2. Estimar em palmas a área destacada. Fotografar com data e contornar as bordas com caneta dermatográfica.

3. Segurar a próxima dose de vancomicina e suspender o levofloxacino, registrando o motivo na prescrição. Manter meropenem.

4. Dois punches de 4 mm: um em formol, um perilesional para imunofluorescência, colhidos antes de qualquer corticoide.

5. Hemograma com diferencial, transaminases, canaliculares, função renal, bicarbonato, glicemia e PCR.

6. Curativo não aderente, sem fita sobre pele acometida, analgesia programada; reavaliação em seis horas com a mesma foto de comparação.

7. Passagem de plantão escrita com as três pendências da manhã: dermatologia com biópsia, infectologia para redefinir cobertura Gram-positiva, e notificação de reação adversa à farmacovigilância.

Se houver qualquer sinal de alarme

1. Suspender vancomicina e levofloxacino imediatamente. Manter meropenem e manter o levetiracetam — a epilepsia dele é documentada.

2. Calcular SCORTEN com o que você já tem: idade acima de 40 conta, frequência cardíaca de 90 não conta, e ureia, bicarbonato e glicemia saem do laboratório da madrugada.

3. Acionar regulação para referência com suporte de pele na mesma hora, informando percentual destacado e SCORTEN.

4. Lubrificante ocular de hora em hora e oftalmologia o quanto antes — a sequela ocular é a que fica quando o paciente sobrevive.

5. Cuidado como grande queimado: controle térmico, reposição volêmica orientada por diurese, analgesia, sem debridamento de bolha íntegra e sem antibiótico profilático sistêmico adicional.

6. Biópsia ainda assim, se houver tempo — inclusive congelação, se houver patologista, porque necrose de espessura total confirma NET em horas.

Divergência de escola: corticoide sistêmico Na NET, a literatura brasileira e boa parte dos serviços europeus usam pulso curto de corticoide nas primeiras 48 horas; a escola anglo-saxã clássica contraindica por aumento de infecção e retardo de reepitelização, e a ciclosporina de 3 a 5 mg/kg/dia é hoje a opção com melhor sinal de benefício. Imunoglobulina segue controversa. Para o plantão isso importa por um motivo prático: nenhuma dessas decisões é sua hoje, e todas ficam mais difíceis se você der corticoide antes da biópsia. Neste paciente, com abscesso de fúrcula drenando e colonização por germe multirresistente, o corticoide empírico noturno é o pior dos mundos.
08

Na mesa do patologista: a zona da membrana basal e os quatro padrões

A imunofluorescência direta não é um exame sofisticado — é uma pergunta simples: onde está o anticorpo e qual é a classe dele? Quatro respostas possíveis, quatro doenças. Entender a arquitetura desta zona é o que faz o laudo virar conduta em vez de virar papel.

Queratinócitos basais Desmogleína 1 e 3 · pênfigo Hemidesmossomo · BP230 Lâmina lúcida · BP180 e LAD-1 Lâmina densa · laminina 332 Fibrilas de ancoragem · colágeno VII Derme papilar · IgA granular Dermatose por IgA linear IgA linear na ZMB · vancomicina Penfigoide bolhoso IgG e C3 lineares na ZMB Pênfigo vulgar IgG intercelular · Nikolsky + Dermatite herpetiforme IgA granular nas papilas
Contrato de vista: corte vertical de pele, superfície no alto, derme embaixo, ampliação esquemática da junção dermoepidérmica em torno de 4.000× — a lâmina lúcida real tem cerca de 40 nm e está aqui desproporcionalmente alargada para caber o rótulo dos antígenos. Os quatro quadros inferiores são campos de imunofluorescência direta vistos ao microscópio, fundo escuro e fluoresceína em verde, como o laudo descreve.

O detalhe que faz a dermatose por IgA linear ser exatamente o que é: o alvo não é uma proteína nova, é o LAD-1, um fragmento do ectodomínio do BP180 clivado e depositado na lâmina lúcida — a mesma molécula do penfigoide bolhoso, atacada por uma classe diferente de anticorpo. Por isso as duas doenças fazem bolha no mesmo plano, com o mesmo aspecto tenso e o mesmo Nikolsky negativo, e por isso a única coisa que as separa com segurança é a classe do imunoglobulina no laudo.

Por que a vancomicina induz IgA e não IgG ninguém explicou de forma satisfatória até hoje. O que está estabelecido é epidemiológico e vale para o seu plantão: de todas as dermatoses por IgA linear induzidas por droga, a vancomicina responde pela maioria, a latência mediana ronda uma semana, e o quadro regride sozinho em duas a seis semanas depois da suspensão. Dapsona de 25 a 100 mg ao dia acelera os casos extensos — e exige dosagem prévia de G6PD, que é mais um exame que o hospital pode não ter na madrugada.

09

A forja: o mesmo caso, oito pivôs

A questão-mãe é o João Batista. Cada questão seguinte troca um dado e observa se a conduta vira. O objetivo não é acertar — é perceber qual palavra do enunciado carregou a decisão.

1. Homem de 62 anos internado em enfermaria, em vancomicina há oito dias por bacteremia por estafilococo. Surgem bolhas tensas de cerca de 1 cm sobre pele de aspecto normal, algumas dispostas em anel, com bolhas novas na periferia de uma lesão cujo centro já clareia. Nikolsky negativo, mucosas sem lesão, afebril, estável. A conduta mais adequada é:

O que carregou a decisão

Três palavras: tensa, anel com clareamento central e Nikolsky negativo. Bolha tensa significa teto de epiderme inteira, ou seja, clivagem subepidérmica; o arranjo anular com bolhas novas na periferia é o "colar de pérolas" da dermatose por IgA linear; e o Nikolsky negativo exclui acantólise e necrose de espessura total. Somado a oito dias de vancomicina — dentro da janela de 1 a 15 dias — o quadro é a farmacodermia por IgA linear até prova em contrário, e a prova em contrário é a imunofluorescência.

A é a conduta de quem trata sintoma sem tirar a causa: manter a droga perpetua a doença, e corticoide antes da biópsia degrada o exame. B é a conduta da necrólise epidérmica tóxica estabelecida. D seria correta se houvesse vesículas agrupadas em base eritematosa com dor neuropática — herpes-zóster disseminado é diferencial real em acamado. E é a conduta do destacamento extenso, que não existe aqui.

2. Mesmo paciente, mesma droga, mesma latência — mas agora ele apresenta erosões em mucosa oral e conjuntival, Nikolsky positivo e cerca de 14% da superfície corporal com destacamento epidérmico. A conduta imediata é:

O que virou

Mucosa acometida mais Nikolsky positivo mais destacamento entre 10% e 30% é sobreposição SJS/NET. O diagnóstico saiu do grupo subepidérmico benigno e entrou no grupo de necrose de espessura total, com mortalidade que o SCORTEN quantifica. O tempo passa a ser a variável terapêutica: suspensão precoce do culpado é uma das poucas medidas com impacto consistente em sobrevida.

A subestima: observar 24 horas em enfermaria é como tratar um grande queimado na clínica médica. B é o tratamento da IgA linear extensa. C erra duas vezes — profilaxia antibiótica sistêmica não é recomendada e bolha íntegra é curativo biológico. D é a conduta do exantema morbiliforme simples.

3. Você decidiu biopsiar à beira do leito e vai enviar dois fragmentos. O fragmento perilesional destinado à imunofluorescência direta deve ser acondicionado em:

A regra que salva o exame

Fixadores que fazem ligação cruzada de proteínas — formol, Bouin, glutaraldeído — destroem os epítopos e inviabilizam a imunofluorescência. O material vai congelado, em meio de Michel, ou em soro fisiológico refrigerado se o transporte for rápido. Num hospital sem dermatologia, essa é a diferença entre um laudo que fecha o diagnóstico e um laudo que diz "material inadequado" três semanas depois.

B, D e E são fixadores corretos para outras finalidades — histologia de rotina e microscopia eletrônica. C é usado para alguns preparados citológicos e não serve aqui.

4. Paciente em vancomicina há cinco dias e que recebeu sulfametoxazol-trimetoprima entre o 32º e o 24º dia antes apresenta febre de 38,8 °C, exantema infiltrado acometendo mais de metade da superfície corporal, edema de face, eosinófilos de 1.800/mm³ e TGP de 210 U/L. A hipótese e o provável culpado são:

A latência decide o culpado

Febre alta, exantema extenso e infiltrado, edema de face, eosinofilia acima de 700 e hepatite compõem o DRESS. E o DRESS é a única farmacodermia cuja janela vai de duas a oito semanas — o que torna o sulfametoxazol-trimetoprima, já suspenso, o suspeito número um, e absolve a vancomicina de cinco dias. Reconhecer isso muda a prescrição inteira: não adianta suspender a droga em uso se a culpada saiu há um mês.

A tem latência compatível com a vancomicina, mas não faz febre alta, eosinofilia nem hepatite. B teria pústulas estéreis não foliculares e neutrofilia, com latência de 1 a 5 dias. C exigiria destacamento e mucosa. E exigiria púrpura palpável em membros inferiores.

5. Paciente não contactuante há meses, em uso de metadona e clonazepam, apresenta bolhas tensas de conteúdo claro exclusivamente sobre proeminências ósseas e áreas de apoio, sem acometimento de mucosa. Qual achado histológico apoia a hipótese principal?

Nem toda bolha em quem usa droga é farmacodermia

Distribuição restrita a pontos de pressão em paciente imóvel e sedado é bolha de coma. O mecanismo é isquemia local por pressão somada ao efeito direto da droga sobre o epitélio glandular, e o achado que a caracteriza é a necrose das glândulas écrinas na base da lesão. É uma entidade autolimitada: o tratamento é redistribuição de pressão e curativo, não suspensão de antimicrobiano.

A é pênfigo vulgar. C é necrólise epidérmica tóxica. D aparece na dermatite herpetiforme e na dermatose por IgA linear. E é a vasculite de pequenos vasos.

6. A esposa refere sudorese profusa com calafrios e você encontra, no tronco e no pescoço, incontáveis vesículas de 1 a 2 mm, superficiais, de conteúdo claro, sem eritema ao redor, que rompem ao menor toque deixando descamação fina. Sem mucosa acometida, sem bolha tensa. A conduta é:

O diagnóstico que custa zero

Vesícula de gota de orvalho, superficialíssima, sem eritema, em paciente febril e sudoreico sob lençol e colchão é miliária cristalina: obstrução do ducto écrino dentro do próprio estrato córneo. É o plano de clivagem mais alto que existe, o que explica o teto que rompe ao toque. Resolve sozinha em horas a dias quando cessa a sudorese e a oclusão.

A troca uma dermatose banal por descoberta antimicrobiana num paciente com abscesso ativo. B seria para vesículas agrupadas em base eritematosa com Tzanck mostrando células gigantes. C e D escalonam um quadro que não pede escalonamento — e a ausência de eritema é justamente o que separa miliária de farmacodermia.

7. Você calculou o SCORTEN na admissão. Qual dos itens abaixo NÃO compõe o escore?

Os sete itens, e por que são esses

Idade acima de 40 anos, neoplasia maligna, frequência cardíaca acima de 120, superfície destacada maior que 10% no primeiro dia, ureia acima de 28 mg/dL, bicarbonato abaixo de 20 e glicemia acima de 252. Um ponto cada. Zero ou um ponto correspondem a cerca de 3% de mortalidade; três pontos, a cerca de 35%; cinco ou mais, a mais de 90%. Plaquetopenia não entra — o escore mede idade, carga de doença de base, instabilidade hemodinâmica, extensão da perda de barreira e três marcadores metabólicos.

No João Batista, antes mesmo do laboratório, a idade já dá um ponto e a frequência de 90 bpm não dá. É por isso que colher ureia, bicarbonato e glicemia na madrugada não é exame de rotina: são três sétimos do prognóstico.

8. O sinal de Nikolsky positivo, obtido por pressão tangencial em pele aparentemente sã, indica que:

A manobra é um teste de coesão, não de doença

Você só descola o que já perdeu adesão acima da membrana basal. Por isso o Nikolsky é positivo no pênfigo — acantólise entre queratinócitos — e na necrólise epidérmica tóxica — necrose de toda a espessura da epiderme; e negativo no penfigoide e na dermatose por IgA linear, onde a bolha é subepidérmica e o teto está íntegro e aderido.

B descreve a epidermólise bolhosa adquirida, que cursa com Nikolsky negativo. C é um achado de imunofluorescência, não de exame físico. D confunde com a síndrome da pele escaldada estafilocócica, que é uma das causas de Nikolsky positivo mas não a única. E inverte o significado: bolha tensa é justamente a de Nikolsky negativo.

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Tabela-mãe: gatilho no enunciado, ação na prescrição

Bolha tensa, anular, Nikolsky negativo, mucosa livre, vancomicina há 1–15 dias

Dermatose por IgA linear. Suspende a vancomicina, biopsia lesional e perilesional, dapsona se extensa e G6PD normal. Resolve em 2 a 6 semanas.

Mucosa acometida, Nikolsky positivo, mácula acinzentada que descola

Espectro SJS/NET. Suspende as drogas suspeitas, SCORTEN, transferência para suporte de pele, oftalmologia precoce. Sem antibiótico profilático, sem debridar bolha íntegra.

Febre alta, exantema >50%, edema de face, eosinofilia, transaminases

DRESS. Procura o culpado na janela de 2 a 8 semanas, inclusive drogas já suspensas. Rastreia fígado, rim, coração e tireoide, e vigia por meses.

Pústulas estéreis não foliculares sobre eritema, neutrofilia, 1–5 dias de droga

Pustulose exantemática generalizada aguda. Suspende, corticoide tópico, prognóstico bom. Não confundir pústula com bolha.

Bolhas claras só em pontos de pressão, paciente sedado e imóvel

Bolha de coma. Redistribuição de pressão e curativo. Não mexe no antimicrobiano.

Vesículas de 1–2 mm sem eritema, paciente sudoreico sob oclusão

Miliária cristalina. Controle térmico e redução da oclusão. Autolimitada.

Púrpura palpável em áreas dependentes, algumas com bolha hemorrágica

Vasculite leucocitoclástica por droga. Suspende, avalia acometimento renal com sedimento urinário e função renal, biopsia se dúvida.

Placas violáceas redondas bem delimitadas, nos mesmos locais de episódio anterior, horas após a droga

Eritema pigmentar fixo bolhoso generalizado. A chave é a reexposição e a recorrência no mesmo sítio. Prognóstico melhor que a NET, com a qual é confundido.

Vesículas agrupadas em base eritematosa, dor desproporcional, imunossuprimido

Herpes-zóster, eventualmente disseminado. Tzanck com células gigantes multinucleadas, aciclovir endovenoso. É o diferencial infeccioso que não pode passar.